sexta-feira, 5 de setembro de 2014

As mulheres que desaparecem.


"Disparition", foto de Bushra Almutawakel, ilustrando como as mulheres se podem tornar invisíveis, passo a passo, sob a pressão fundamentalista e o uso do niqab integral. 

Esta foto fala por si. É terrivelmente assustadora e triste. 

Não se pode ser mulher e ficar indiferente. Espero que sendo homem também não.

O que mais me arrepia é não saber de revolta alguma das mulheres que vivem sob esta lei.
O que passa é uma passividade total. Será possível? Duvido.

Desde o nascimento que são educadas para não ser relevantes, para obedecer ao pai, ao irmão, ao marido. Serem discretas, invisíveis. Apesar desta suposta anulação do seu ser, elas existem e são seres humanos que pensam e sentem. Podíamos ser nós.

Quando estive no Egipto, numa altura em que felizmente o fundamentalismo ainda não dominava como agora aquela zona do mundo, não consegui falar com nenhuma mulher egípcia. Lembro-me que um dos guias falava da mulher com entusiasmo, anunciando, perante a nossa curiosidade e ignorância, que em casa ela andava nua para ele. 

Um mundo de fantasias sexuais e prazer, aliás muito presente na propaganda destinada aos mártires da jihad.

Não quero entrar por aqui. Não conheço praticamente nada sobre as mulheres no Islão.

Apenas as histórias de algumas mulheres que conseguiram sair desse agrilhoamento mortal, que se tornaram mediáticas, escreveram a sua história ou trabalham em organizações mundiais.

Malala, a adolescente paquistanesa que sobreviveu e quer apenas estudar e lutar para que as mulheres tenham acesso à escola.

Ayaan Hirsi Ali que conseguiu fugir da Somália, da excisão e da violência brutal sobre as mulheres nos países africanos de cultura islâmica, estudar, tornar-se influente na política.

As mulheres anónimas do “Caderno Afegão” da Alexandra Lucas Coelho, ávidas de liberdade e igualdade. O horror dos talibãs que matam as mulheres não sem antes as violarem.

A grande massa das mulheres no mundo islâmico existe apagada na rectaguarda, dependendo a sua vida de ter ou não ter um homem e da sorte do sítio onde nasceu. Porque os países muçulmanos não são todos iguais e a dita sharia não é aplicada em todo o lado.

De qualquer modo, em metade, ou mais de metade do planeta, as mulheres não podem existir como seres humanos. 

Apesar de sem elas não existir vida, nem homens.

Não me imagino ali. Nem sequer me imagino a obedecer a um homem, aqui.

Não me imagino sem os mesmos direitos, sem liberdade, sem trabalhar, sem me sustentar, sem conduzir, andar de bicicleta, sem vestir o que quero, sem usar ou fazer o que me apetece.

A passividade perante esta crueldade deixa-me louca. 

A aparente aceitação desta condição pelas próprias mulheres nos locais onde se aplicam as mais radicais leis islâmicas da Idade Média dói.  Mesmo sabendo que foram formatadas desde o nascimento pela religião, tenho dúvidas que possam aceitar tal violência.

É assustador sentir a regressão do mundo. Na questão das mulheres e em todas as outras.

5 comentários:

  1. Preocupante, sim, pois reflete o "orientação" ( ou desorientação) da sociedade globalizada.
    Sem dúvida uma assustadora a regressão.
    Excelente abordagem e partilha

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  2. Este texto descreve bem a situação inqualificável em que vivem essas mulheres.

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  3. Tudo o que li sobre estas mulheres é arrepiante, poucas foram aquelas que conseguiram fugir às garras dos seus carrascos e muito poucas tiveram a coragem de os denunciar, muitas outras são cúmplices destas atrocidades pois estão formatadas para tal. Os ocidentais, ao abrigo do respeito pelas religiões e dos costumes dos povos fecharam os olhos à proliferação destas ervas daninhas, temo que não haja insecticida eficaz para combater semelhante praga.

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  4. Gostaria de sugerir que a redatora tivesse uma maior compreensão acerca da temática. Falta elementos sinceros para avaliar o nível de opressão da mulher no islão. Sou muito cético com essa abordagem de ocidentais que esquecem seus próprios tabus para criticar o de terceiros. Essas supostas "libertas" também têm seus interesses midiáticos e pró-ocidentais. As indumentárias não são, per si, sistemas de opressão. Vestir ou despir mulheres mulheres podem ser formas de autoritarismo, mas não necessariamente, haja visto que padrões de vestimentas sempre existiram. "De qualquer modo, em metade, ou mais de metade do planeta, as mulheres não podem existir como seres humanos.". Essa é uma fala muito preconceituosa da redatora. Há países islâmicos nos quais as mulheres gozam de muitas conquistas, inclusive com acesso livre ao sistema de ensino. Historicamente, o islão foi muito mais tolerante com as mulheres. O fundamentalismo não deve ser generalizado. Sou muito crítico com esse feminismo da mulher branca classe média cristã, que almeja generalizar o modo de vida da americana ou europeia para o resto do mundo. Anorexia, exposição do corpo, banalização da subjetividade feminina, violência crônica cotidiana, exploração laboral - esses são pontos essenciais das mulheres no ocidente. Seria interessante resgatar o feminismo nativo do islão e verificar a crítica que as muçulmanas fazem às ocidentais. Mas isso não interessa a um feminismo imperialista que funciona em conjunto com o projeto de nivelamento de culturas. Não estou dizendo que seja o caso da redatora, mas sempre fica o alerta.

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    1. Caro desconhecido, antes de mais, obrigada por ler o meu texto e comentar.
      De facto, o meu caso não é o das feministas mediáticas e pró-ocidentais. Não sou alinhada com nada a não ser comigo mesma e com a liberdade e os direitos dos seres humanos, sejam homens ou mulheres.
      Apesar de conhecer minimamente a vida das mulheres no Islão, e de saber que, fora do fundamentalismo actual, há alguma liberdade de pensamento, não posso deixar de afirmar que as mulheres, em metade do planeta ou mias, não podem existir como seres humanos. Os factos conhecidos, divulgados por organizações independentes assim o confirmam: falta de acesso à educação, excisão, falta de acesso ao trabalho igual ao dos homens, falta de liberdade para vestir, guiar, andar sozinha na rua, etc. Não é só no Islão, também fora dele. Não tenho nada contra o Islão que não tenha contra outras religiões.
      As religiões têm sido a base da falta de direitos das mulheres.
      Há excepções, como em todos os casos. As mulheres kurdas que lutam, de igual, contra o ISIS, cara destapada,e que são mulçumanas.
      Infelizmente, em países como o Irão, há duas semanas uma jovem mulher foi morta à pedrada por homens por uma qualquer insiginificante discussão com o imã lá do sitio, logo acusada de não seguir o Corão.
      Infelizmente, o Corão, tal como a Biblia, dão para tudo, mal e bem.
      Seria fantástico um mundo em que as religiões co-existissem sem quererem impor-se, apenas como crença individual e colectiva. Não é assim, e estão na origem das piores atrocidades dos seres humanos, como se tem visto recentemente.
      Quanto às mulheres, ainda uma nota quanto ao que diz sobre as indumentárias, não são, de per si, opressoras, sim, são apenas quando impostas, quando não se podem recusar.
      Quanto ao "feminismo da mulher branca classe média cristã" que refere, desconheço-o. Uma coisa sei, não associo o feminismo a anorexia nem a violência crónica quotidiana, antes pelo contrário.
      Defendo a liberdade total, ou seja, a liberdade de pensar, ser, escolher, viver para todos os seres humanos, homens e mulheres, e isso, estamos longe de ter no mundo actual, apesar de todo o progresso.

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