quarta-feira, 8 de março de 2017

Mais um dia da mulher.



Acordo em mais um dia 8 de Março. 

Nos últimos dias, amigas têm enviado fotos, gifs ou pequenos vídeos em que se celebram as mulheres, antecipando o seu Dia. 

Acordo e, quando vejo o smartphone, aparecem as memórias das minhas publicações neste dia, nos últimos anos. 


Releio e quase me espanto como está tudo actual. Volto a partilhar os textos de há três e quatro anos, para quê repetir-me? 


Cansa voltar a dizer que estamos longe da igualdade salarial, de oportunidades e direitos. Que em grande parte do mundo, as mulheres continuam seres escravizados, ou explorados, ou utilizados e deitados fora.


Já tive mais esperança mas não desistirei nunca. 


Ontem, vi este artigo/video publicado pela RTP Ensina sobre as mulheres em Portugal antes do 25 de Abril. Era miúda mas lembro-me bem da minha mãe precisar de autorização do meu pai para atravessar o rio e ir a Ayamonte fazer compras. Do meu pai e da PIDE / DGS.

Por isso, acho importante divulgar e relembrar para que quem é mais novo saiba dar valor ao que tem e perceba como não o pode perder.


À parte isso, em termos profissionais, continuamos lixadas, afastadas dos cargos de topo e a ganhar menos 16%. 


Apesar disso, ou não, continuamos no batente todos os dias e as mulheres que conheço são fantásticas resilientes. 


Vivam as mulheres!




terça-feira, 7 de março de 2017

Tio João.



Há dias, tive oportunidade de rever um programa de 1994 na RTP Memória com o meu tio João, irmão da minha mãe. Tratava-se de um programa de entrevista de Nicolau Breyner chamado "Com peso e medida" cujo link não consegui encontrar no site da RTP. 

Na altura nem devo ter dado pelo programa. Todos estavam vivos e em pleno nas suas actividades. 

Vinte e três anos, mais de duas décadas, fazem muita diferença... quer o meu tio quer os seus grandes amigos presentes no programa já morreram. Raul Solnado, Fialho Gouveia, Fernando Lopes, Aquilino Ribeiro Machado, Nicolau Breyner. Todos fizeram parte da aventura que foi o começo da televisão em Portugal. Quase todos tive o privilégio de conhecer através do meu tio.

Nesta entrevista de vida, pude confirmar como o meu tio (João Soares Louro) era um profundo conhecedor do tema televisão e tinha ideias originais, pensamento próprio, na altura controverso, e que se veio a confirmar certo.

Senti um grande orgulho nele por isso e pela sua humildade, coragem, rigor e honradez, valores que andam arredados da maior parte das pessoas em situações de responsabilidade. 

A certa altura da vida, estivemos mais próximos profissionalmente e era uma pessoa com quem sempre aprendia algo. Muito exigente. 

Gosto de pessoas com quem se aprende. Como gostava de poder voltar a conversar com ele... é isto a saudade dos que já nos deixaram e amávamos, esta impossibilidade de voltar ao contacto que dói.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Crónica de dois dias.

Segunda, dia 20 

Subo as escadas do metro, no Saldanha, Avenida da República, encandeada pela luz demasiado forte da tarde azul. E o que vejo primeiro, incrédula? Amendoeiras em flor! Sim, umas ainda tímidas amendoeiras à beira do passeio recente da avenida, mesmo à porta do Galeto. Já em plena rua, em plena luz, confirmei que eram mesmo árvores em flor e não um qualquer facto alternativo.

Interessante a exposição de mupis com fotos antigas das avenidas novas e frases de moradores ainda dessa época, alguns conhecidos. 
Não me parece que possa haver dúvidas sobre as melhorias do espaço por ali, Avenida Duque d'Avila, Saldanha, Avenida da República.
Numa tarde primaveril como a de hoje, apetecia passear ou ficar sentada num dos muitos bancos de jardim. Gostei!



Terça, dia 21 

Desta vez, não tive sorte de principiante e o eléctrico apareceu 40 minutos depois do previsto. Também não estava calor nenhum na paragem, à sombra. Batia-me um ventinho frio nas costas. Entrava pelo pescoço e comecei a fungar, arrepiada.
À conta do atraso e do resfriado, decidi almoçar logo, mais cedo. Decidi aconchegar-me com uns "orecchiette con broccoli" no Bella Ciao. Que felizmente está igualzinho. Logo, escondido no meio da turbulência da Baixa, cheio mas com lugar para um ou dois. Com lugar para mim e para ficar a recordar os tempos em que o frequentava muito.


O objectivo era não perder a exposição do Amadeo. Não contava com a desilusão. Não sei se provocada pelo acanhado do espaço. Se por ter apanhado umas turmas do secundário, jovens em ebulição, fotografias a mais, segredinhos e risadas quando os professores saíam do raio de visão. E depois no governo civil? Ou ex... Subi a escada e outras recordações subiram também. 
Ainda tentava tomar-lhe o gosto - e eu gosto muito -, já tinha visto tudo. 


Merecia mais Amadeo de Souza Cardoso. Pelo menos, espaço, desafogo, e não ser encurralado em pequenas salas onde há anos se interrogavam presos.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mais um dia.

Mais um dia. Azul, o que é sempre muito agradável. Parece tudo menos mau.

Hoje acordei e resisti a espreitar o feed de notícias. Quantas mais medidas de merda de Trump? Já quase não quero saber. Passei da fase da revolta para a percepção que o homem é louco e fascista e está instalado, apoiado por um grupo sólido de malfeitores, sem qualquer pudor.

Que mais nos vai acontecer? Por exemplo, Marie Le Pen ganhar em França. Pressinto que vai acontecer. A reversão do mundo que conheci toda a vida a acelerar.

Estamos preparados? Não. Não nos apetece. Não queremos. Mas nós, quem? Metade da população? Insuficiente para deter este caminho?

No meio disto, sinto-me em falta com a atenção dada ao outro lado do mundo. Onde pessoas continuam a morrer sob as bombas e a guerra. Continuam a fugir e a morrer na fuga. Continuam à espera barradas às portas da Europa. A morrer de frio e de fome e de carência geral.

Ontem soube das medidas tomadas pela Hungria. Piores que Trump. Refugiados feitos criminosos. É a machadada final nos seus sonhos de vida e liberdade. O que vai fazer a UE? Presumo que nada. Por esta e por outras, não vejo outro caminho senão o da desintegração. Ou então, o da força sobre a força. Sujar as mãos. No terreno.

O feed de notícias não me diz se Mossul já foi libertado. Nem se Palmira já está completamente destruída. Se Bashar alguma vez pagará pelos crimes cometidos? Parece que quem paga tudo isto é o povo sírio. Sem fim.

Penso em Guterres e no Papa Francisco, cujas missões são a paz, a tolerância e o combate à desigualdade. Como se vão safar? 

Francisco andará entre os pingos da chuva, invocará a vida de Cristo e o seu exemplo. Pode ser que se aguente, apesar da oposição cada vez mais clara de homens como o Cardeal Burke, apoiado por Bannon, o sinistro mandante de Trump, e outros grupos que querem voltar ao tradicional Vaticano. Interessante ler o artigo "Steve Bannon Carries Battles to Another Influential Hub: The Vatican" publicado ontem no New York Times.

O cenário de Guterres parece ainda mais sombrio. Como conseguirá cumprir a sua missão, entre Trump e Putin? Com a China não deve poder contar já que em matéria de direitos humanos, é o que se sabe.

Nós por cá, fazemos o que podemos para levar a vida à tona da água. Há alguma esperança, em contra ciclo ao mundo. 

Apesar das sombras e das ameaças do capitalismo financeiro dominante. Um exemplo local desse capitalismo desenfreado é todo o enredo de corrupção excelentemente exposto no artigo de Nicolau Santos "Os cúmplices da Ongoing", a ler.

Conseguiremos sobreviver?

Na segunda, estive finalmente na zona do Saldanha e gostei muito do resultado das obras. Mesmo que haja imperfeições. É todo outro conceito de cidade.

Saí duma consulta pelas 18h e apetecia-me apanhar ar. Decidi voltar a pé para as Telheiras, onde deixara o carro. Apetecia-me experimentar a Avenida da República. Anda-se super bem. Foi um instante, o percurso com o piso liso e confortável. De Entrecampos para Telheiras, voltei aos tombos dos passeios mas há-de melhorar. Pensei em como nas pessoas com mobilidade reduzida ganham autonomia como os novos passeios e desenho das passadeiras sem obstáculos. Tão bom.

Também já passei no Cais do Sodré e está a ficar lindo. Aconselho alguns críticos a deixarem o conforto dos seus automóveis de gama alta e a meterem-se ao caminho, antes de falar.

Hoje, vou tentar ir de Belém à Expo nos transportes públicos. Eléctrico e metro. Não por masoquismo mas porque quero reduzir a utilização do carro na cidade. Quero e só experimentando e insistindo poderei perceber se é possível sem grandes apertos. 
Quanto tempo precisarei gastar é para já a minha questão. Espero saber responder logo.

Olho pela janela e o céu está azul, azul. O ar fresco. Um privilégio. Vou aproveitar enquanto posso.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Amendoeiras em flor.


Sempre que posso, regresso a casa por Monsanto. 

Os dias andam lindos de azul. Tudo fica mais bonito e Monsanto está verde verde. 

Hoje fui surpreendida pelas flores das amendoeiras. 
Em pleno. Grandes amendoeiras em flor. Em Lisboa.

Olhei e re-olhei, só não parei porque o trânsito fluía atrás de mim e as obrigações não me deixavam. 

Queria ter ficado por ali a ver as "minhas amendoeiras". Senti um baque! Saudades da minha infância, do Algarve, do barrocal de antes da destruição. 

Saudades cheias de remorsos por nunca mais lá ter ido. Em Janeiro. É em Janeiro que as nossas amendoeiras ficam em flor. 

Remorsos porque nunca mais coincidi com elas.

Desci por Monsanto em direcção a Belém e ao rio e vi o mar, à minha direita, em espelho. Fantástico para lá do bugio. Sem vento. Brilhante. 

As tardes já demoram mais a acabar. Às seis, o céu fica rosa-laranja, em promessa de repetição.

Penso que o pior já passou. A escuridão dos dias mínimos. 
Não fosse a inquietação que sinto. A aflição do futuro que já é presente. 

Não consigo abstrair-me do mundo. De toda a trumparia que cresce. Não é só na América. É por todo o lado. 

A sensação de viver um presente que é cada vez mais o futuro anunciado. 

A vileza, a desonestidade, a intolerância, o retrocesso, o ódio, a vingança, a pequenez, a rudeza, a ignorância, o egoísmo, a desigualdade, a injustiça, tudo o mais e muito que são valores contrários aos meus. Que estão no poder. 

Nunca deixaram de estar, é verdade. Mas, por uns tempos, pensámos que não. E que não voltariam a estar. Agora parece ridículo termos tido essa crença...

Estou em casa. Apetece-me desligar, fazer um intervalo. Não quero saber de mais malvadezas. 

Não quero falar das saudades de Obama, do horror que é Trump, dos apelos solitários de Francisco, da guerra na Síria que persiste, do abandono aflitivo e definitivo dos refugiados, do terrorismo. 

Não quero opinar sobre a TSU nem insistir na insuficiência do salário mínimo, nem ouvir Passos, nem Cristas, nem pessoas a querer decidir sobre a minha vida e a minha morte. Nem mesmo falar do gosto em que se tornou Marcelo.

Sou eu mesma? Não sei. Espero amanhã voltar ao normal. 

Sinto-me sem forças perante a dimensão da coisa. Vem-me à memória o último livro de Rushdie. É isso, a escala.

Por hoje, quero ficar enroscada pela memória da minha inocência, no tempo das minhas amendoeiras.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016.

Cá estamos outra vez no fim dum ano. Pressionados a fazer balanços. Ou, no mínimo, a olhar para trás e perceber como estamos depois de mais um ano de vida. E a desejar coisas boas e positivas para o ano novo, ainda que sem qualquer crença na sua concretização.

Desde que me lembro, detesto estes dias. Particularmente, o seu ponto alto que é a meia-noite de dia 31 e a obrigação de celebrar. Desde que me lembro que me sinto infeliz neste dia. Ou apenas melancólica. Ou talvez apenas ansiosa e apreensiva.

Tento lembrar-me da passagem do ano de 2006 para 2007, há dez anos, onde estava eu? Detesto números ímpares, em especial os com um sete.

Ah, já me lembro! Em 2006, estava em Londres, em casa do meu querido e saudoso amigo Zé Laranjo. Passei lá uns dias. Havia festa em casa dele, comida, copos, música boa, animação, amigos. A mim, só me apetecia estar sozinha, ir para o frio da rua, caminhar até ao rio (então ele morava perto, em Westminster) e ver o fogo de artifício no meio da multidão. O que não aconteceu. Fiquei na sala tentando sem êxito fingir alegria, fugindo como podia da dança (um dos meus horrores). Acho que acabei por ir para o quarto cedo, tristíssima, enquanto ouvia a animação ao fundo na sala, com uma pena imensa da minha incapacidade de me divertir num ambiente tão afável e confortável. Tudo isto perante a perplexidade do Zé e dos outros que não conseguiam entender o meu estado de alma. Nem eu! 

Tal e qual como quando em miúda queria participar mas a minha timidez e insegurança o impediam. Não me lembro bem do dia seguinte mas devo-me ter voltado a sentir bem, a aproveitar todos estarem a dormir para caminhar pelas ruas de Londres.

As minhas melhores "passagens de ano" foram ou sozinha (acho que na de 2008 estava engripada e fiquei em casa, aconchegada no sofá, arriscando não comer as 12 passas e feliz a beber vinho do Porto) ou a dois, jantar melhorado e muito amor.

Aproximam-se estes dias e volto a ficar melancólica, com uma apatia triste inexplicável. Os que me rodeiam perguntam se estou bem. O meu marido (é verdade, esta é uma inovação do ano) inquieta-se e mima-me. O meu filho marimba e a minha mãe já não liga.
Não tenho nenhuma razão concreta para este estado de alma. Tenho conforto, amor, alguma saúde.

Não me apetece fazer balanços. 2016 foi um ano extraordinário para mim. Inesquecível a menos que alguma demência ou Alzeimer me roubem a memória. 

2016 começou com a perda de uma pessoa da minha vida, que continua sempre presente. Tão próximo como se não tivesse morrido. Essa coisa sinistra e certa da vida que nos custa tanto aceitar. Que dói tanto. Que marca sem piedade quem fica. Certos que partir é pior. A dor na alma não sai, apenas acalma por incapacidade de outra solução.

2016 foi depois correndo, iluminando-se, e trouxe a consolidação de um amor antigo. Trouxe decisões antes impensáveis, como voltar a casar. Mudanças radicais e profundas de que não me arrependo, como sair da casa onde vivi trinta e quatro anos e recomeçar noutro lugar. Reorganização. Promessa de sempre ficar, amar, estabilizar. Coisas que estavam arredadas de mim.

2016 confirmou a dificuldade em trabalhar e ser devidamente pago. 

2016 confirmou as piores suspeitas das alterações da ordem do mundo. Preparou-nos para esperar pior em 2017.

É isso. Não consigo sentir-me bem com o mundo neste estado. Reconheço perfis na humanidade que julgava banidos, ou pelo menos, esquecidos. Reconheço a redução da crença num mundo melhor. Vejo a guerra, a violência, a injustiça e a ausência de tolerância como impossíveis de conter. 

O cenário entristece-me.

Claro que seguimos em frente com a nossa vida, o nosso dia-a-dia, esperando que a desgraça demore a chegar aqui. Com uma esperança interior de que talvez nos safemos entre os pingos da chuva, como antes da globalização. 

Claro que seguimos em frente, esperando ter saúde para ir levando, esperando o sucesso dos filhos, a longa vida dos pais, a vida boa, fazendo planos de futuro, como sempre.

Nada pára o tempo e é certo que não voltamos para trás, antes tudo continua.

Amanhã tentarei não comer 12 passas acompanhadas de 12 desejos, nem beber champanhe de que não gosto.

Amanhã vou esforçar-me por passar uma noite normal entre amigos, fazendo brindes ao bem-estar e aos planos de vida. Amanhã tentarei não me lembrar de que a seguir a um ano bom, é bem possível vir um bera, ou até mais que um, e só depois poderá haver outro melhor.

Amanhã tentarei apenas viver o momento e celebrar com humildade a vida boa que tenho tido, sorrindo pelos meus queridos mortos, sorrindo pelos meus queridos vivos, abraçando os presentes e beijando o meu amor que me aquece todas as noites. 

Bom ano!


sábado, 10 de dezembro de 2016

A possibilidade outonal do afastamento.

Não me lembro de viajar pelo Norte em pleno Outono, ou no quase Inverno. 

De Viana do Castelo a Freixo de Espada à Cinta, ou à Beira interior, o dourado domina, alindando os sítios mais inóspitos. Até entre os pedragulhos escuros e gelados de Almeida à Guarda, surgem carvalhos dourados a reverter a fealdade habitual da paisagem por ali.


Afastada uns dias, poucos, de Lisboa, da televisão e sem tempo para grande recolha de informação na net, pode-se ficar de repente noutro mundo onde o tempo passa devagar e a contemplação ganha espaço. 

Mesmo, na noite, o livro gostado em leitura cai das mãos perante o sono demolidor, ajudado pelo quente dos abafos. 

A banal constatação sobre o isolamento que o afastamento provoca, não mais que uma verdade de La Palice, a mim cria sempre alguma angústia. Tenho dificuldade em estar desligada. 

Detesto SPAs ou aquilo que penso serem. Locais de aborrecido sossego, cheios de música de passarinhos, velas e piscinas, onde o corpo deve ser supostamente separado do cérebro e deixar-se levar por mãos de diligentes massagens, óleos e cremes, olhos fechados e roupões turcos desadequados.

Música de passarinhos só a real que envolve as impressionantes cores deste Outono no norte, do litoral ao interior. 

Tive sorte em apanhar um céu absolutamente límpido na Serra do Marão, com neve fresca nos pontos altos, enquanto carvalhos e castanheiros amarelo-laranja rodeavam uma impressionante auto-estrada e a travessia do recém-inaugurado túnel.

Carvalhos e castanheiros, duas espécies antigas que sempre me fascinaram. Lembro-me desse fascínio durante uma caminhada pela Serra de Montesinho, a norte de Bragança. 
Por entre castanheiros gigantes, o chão estava cheio de castanhas, envoltas na sua protectora segunda casca prometendo sabores e muitos gazes.

Quando se avança pelos montes, realmente grandes, e se começa a aproximar a região do Douro, o meu cantinho preferido, mais belo não há, aí sim, tudo o resto perde importância. Não há Trump que o estrague. A guerra da Síria e os refugiados parecem impossíveis. Qualquer catástrofe distante.

O mundo é aquilo ali, a natureza na sua força plena. O domínio do homem afirmado nas encostas plantadas de vinhas, oliveiras e amendoeiras.

Desço pelo abrigado Vale da Vilariça, de Vila Flor até Moncorvo e tudo está dourado. Por fim, quando as curvas quase me vencem, surge a harmoniosa Freixo de Espada à Cinta e parte da minha vida que será para sempre.  

Não é só a paisagem, a imponência do que nos rodeia. São as pessoas, o acolhimento, a comida, o vinho, o azeite, o frio e o calor, as casas, o rio.

Gosto de lá estar, mesmo quando à noite se dá um raro apagão, se fica sem electricidade e resta meter na cama esperando a luz do amanhecer.

Mas seria capaz de ali viver todos os dias? Julgo que não. Falta-me agitação, o movimento. Talvez tudo saiba melhor por ser difícil de alcançar. Saber a pouco. Deixar saudades. Só sei que preciso voltar, de vez em quando, às "minhas" terras. 

Penso que não tenho uma mas muitas terras. Todas as que vou amando. E não consigo escolher. 

Sinto alguma culpa por gostar tanto do Norte sendo eu do sul. Nasci na cidade portuguesa mais ao sul, em frente ao mar, a poucos metros da ria Formosa. 

Regresso a Lisboa pela segunda circular e entro imediatamente no tal movimento que me parecia faltar antes. Entro também nas saudades de onde vim. Entro nos planos para o regresso ou para outras viagens. 

Só estou bem onde não estou?


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O sentido da vida é a morte?


Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa.
Cálice, Chico Buarque 

Há pouco fiquei de lágrimas nos olhos quando uma amiga lembrou emocionada o momento vivido há anos quando a filha esteve entre a vida e a morte. Salva no último minuto graças à competência e carinho dos médicos depois de episódios de cruel incompetência de outros.

Lembro-me muito bem da aflição, do sofrimento, da angústia terrível que aquela família viveu e também nós todos, os amigos que os acompanhavam.

A distância entre a vida e a morte é tão ténue na maioria das vezes e tão resistente noutras.

Ontem, morreu de cancro um grande amigo da minha mãe, um frade da igreja vizinha.
O Frei Armando, um senhor bem disposto, sempre pronto para a festa, que conhecíamos desde que viemos viver para Lisboa, há 40 anos. Até a minha firme desconfiança em relação aos padres desarmava face a este bom homem.

Há meses que sofria às mãos de tratamentos de quimio e radio, para prolongar a vida. Com que fim? Com que sentido? 

Infelizmente, já aprendi que, perante determinados sintomas, o desfecho é sempre o mesmo.

A cada caso, volto a afirmar que, quando me calhar a mim, não quero tratamentos inúteis para estar por cá mais uns tempos sem poder fazer nada do que gosto, falar, comer, ler, ouvir, abraçar, dar.

Mas serei capaz de tomar essa opção? Os outros à minha volta vão deixar? Porque a nossa capacidade de autonomia se perde irremediavelmente. 

Ou a esperança de sobreviver impede essa opção? Espero não saber a resposta nos próximos tempos.

Entretanto, vamos sofrendo com a perda dos que gostamos e admiramos. Este ano tem sido demais. Como se o tal Deus, dito misericordioso e omnipresente, tivesse segmentado o mercado e optado por não proteger os melhores.

Por esta e pelas outras todas, ainda mais horríveis - o abandono e a morte de milhares de crianças em cenários de guerra e de miséria toral- é que não me convence o "venham a mim os inocentes" e outras mensagens que a doutrina vende.

Vi de novo parte do belíssimo "Human". Perguntava-se qual o sentido da vida. Não sei responder. 



O filme deixa-nos envoltos na beleza do mundo e da diversidade das suas gentes. Envoltos na impossibilidade de não ser tolerante e compreensivo, bom.

O conhecimento desta diversidade fantástica (que passa também pela desigualdade fantástica de condições entre humanos) deixa-nos com um aperto no coração porque passamos os dias a ser bombardeados com o mal, todos os dias, a toda a hora. 

Destruição, morte, guerra, corrupção, injustiça, racismo, desigualdade, riqueza, pobreza, intolerância, todos os níveis de maldade grande e comezinha. 

Uma enorme lista de horrores, macro e micro, dominante no mundo, em que parece cada vez mais difícil praticar o bem, manter valores, ser íntegro, ser simplesmente humano.

O dia está cinzento e uma chuva implacável não desiste de tornar a solidão maior.

Trabalho no meu canto mas o pensamento assalta-me com cenas do passado que afectam o presente que já é futuro...

Do presente, via digital, surgem chatices relacionadas com o dia-a-dia para me tirar o sossego. Os inquilinos que estragam a casa, a contabilista que falha uma reunião marcada há muito, uma conta para pagar que não cabe no orçamento, um cliente que não responde. Nada realmente importante.

Oiço o António Zambujo a cantar Chico Buarque, canções que conheço de cor, cada palavra, desde sempre, de que gosto. Que salvam.


Foi bonita a festa, pá Fiquei contente, Ainda guardo renitente Um velho cravo para mim. Já murcharam tua festa, pá Mas certamente, Esqueceram uma semente Em algum canto do jardim Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei também quanto é preciso, pá Navegar, navegar Canta a primavera, pá Cá estou carente Manda novamente Algum cheirinho de alecrim.
Tanto mar, Chico Buarque