quarta-feira, 13 de julho de 2016

Campeões.

Já não me lembro de quando foi a última vez que senti isto...

Emoção e união, força e solidariedade, orgulho. Estar no meio do povo, anónima, ser só mais uma a aplaudir mas sentir-me parte dum todo.


Tenho pena que o motivo seja o futebol que considero um ópio do povo. Mas que tem momentos fantásticos e mágicos como o de ontem. 


Impossível não participar na festa, não sentir a alegria, não estremecer com o hino cantado por tanta gente. 


Portugal, todos nós, precisávamos deste mimo, desta efémera glória, desta vitória concretizada por um grupo de jovens que perderam o medo e, destemidos, derrotaram os vencedores habituais.

É o nosso grito colectivo contra tanta dívida, banca falida, maus governos, fiscalidade, perda, dor, desgraça.  
Um dia, dois, tres? Talvez mais. 

Hoje acordámos capazes de tudo mudar, fomos prá rua, cantámos e aplaudimos, conversámos com o vizinho do lado, sonhámos.

Amanhã pode voltar tudo a ser como dantes mas este dia ninguém nos tira!


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Solstício.








O Verão começou ontem. Quente, finalmente. A lua tem estado fantástica. Porque será que fascina tanto? O céu límpido e iluminado. A lua clareando a noite, tornando possível dispensar a luz artificial.



Estive cinco dias fora do país, dois foram de viagem, três de lazer. 

Não de descanso, antes pelo contrário. Levantar cedo para aproveitar o menor calor do início da manhã. Depois aguentar os muitos graus do dia e percorrer ruas, visitar igrejas e museus, mirar muralhas imponentes, apanhar barcos e usufruir do vento do mar, sentir a vida local, perceber as gentes. 


É o que gosto.
Pena ter que andar de avião. Tenho sempre medo quando estou lá em cima mas aguento bem se não houver turbulência. Há sempre.

Apesar das simplificações causadas pela tecnologia, os processos e os tempos são penosos para cada voo. 

O ar condicionado dos aeroportos mata-me. Ficar sentada na última fila dum voo carregado de alemães grandes assusta-me (porque se mexem tanto e vão à casa de banho desiquilibrando o aparelho?). As horas de espera entre voos só são atenuadas pelo acesso grátis à net, via wi-fi. Não me concentro muito nas leituras por causa dos constantes anúncios e chamadas. Enfim.

Mas estes são também excelentes momentos de liberdade e procrastinação. 

Liberdade para andar dum lado para o outro, podendo sempre desligar os equipamentos e ficar inacessível. Desaparecer. 

Procrastinação porque as chatices e compromissos ficam adiados até ao regresso.

Em simples cinco dias, acontecem muitíssimas coisas mas não se alteram as essenciais. Patrões e gestores que se safam impunes apesar de arruinarem empresas e vidas. O futebol no comando das emoções ainda que valha zero. A saída ou não do Reino Unido da União Europeia que é muito mais que isso. Mata-se à queima roupa por um dos lados. Quem manda mete a cabeça na areia a ver se aguenta o posto. 

Todos os dados reforçam o fim desta (des)união, tornando insuportável ouvir a defesa de mais sanções na boca do execrável Dijsselbloem ou o abandono vergonhoso de milhares de seres humanos à sua sorte, fugidos da morte e da guerra.

A parte boa do regresso é voltar a casa e aos cozinhados do meu homem, peixe fresco grelhado e legumes que precisamos emagrecer.

As televisões entediam de inutilidades. Com uma ou outra excepção que confirma a regra (RTP 2). Deixar de ver é uma libertação. Não foi o caso no regresso. Era preciso ver os episódios perdidos da série Uma Aldeia Francesa que fez parte da minha vida nos últimos meses. Ocupação nazi em França, Resistência, luta entre o mal e o bem, personagens que já faziam parte dos meus dias.  


Passei a última noite de primavera, uma rara noite quente e de luar, a ver os episódios dos dias em que não estive. Acabava ontem e era preciso perceber a história. Depois, fica o mesmo vazio de quando acabamos de ler um bom livro.

Há que recomeçar... Caminhar todos os dias depois do jantar? E ler mais!

O Mapa e o Território, do Michel Houellebecq, foi e veio a Malta, e não consegui acabar. Tal como Submissão, é absolutamente desconcertante e um excelente retrato da nossa sociedade. Fria, sem solidariedade, sem esperança.

Por coincidência, no aeroporto de Frankfurt, encontrei no suplemento de artes do FT, uma entrevista com Houellebecq. É a favor do Brexit, só podia. Gostaria muito que a saída da Inglaterra da UE fosse o primeiro sinal do desmantelamento da Europa cuja ideia considerou sempre não democrática e sem vantagens para as pessoas (ler original na foto).

A esta hora está a começar mais um jogo do campeonato europeu de futebol. O país pára. 

Portugal está por um fio e não auguro nada de bom atendendo ao que têm jogado. Não merecem passar.

O capitão, Ronaldo, esta manhã deitou à água o microfone dum jornalista do pasquim CM que o chateava. O caso tornou-se viral, com apoiantes e defensores.

Lembro-me de Marx e do ópio do povo. Aí está ele...

Volto a dizer que não gosto do que se tornou a nossa sociedade. Das escolhas. Das opções. Não é só as dos mandantes, é também as dos mandados.


domingo, 5 de junho de 2016

Primavera.

É agora a Primavera. Há flores por todo o lado. Tem chovido demais. Tem feito vento demais mas parece que é Primavera.

Nas ruas de Lisboa, as jacarandas florescem e deixam a sua marca roxo lilás. A cidade fica ainda mais bonita.

Lisboa é realmente bonita, pensei, dentro do eléctrico, de Belém para o Cais do Sodré, manhã cedo. Mesmo com obras por todo o lado e espaços degradados aqui e ali. Cada vez menos. 

O turismo impôs-se. É mau? Acho que não por muito que tenhamos que partilhar bairros e ruas, cantinhos outrora desconhecidos e vistas privilegiadas. Dantes só nossas.

Há alegria nessas zonas. Gente de todas as línguas e rostos, alturas e costumes a passar e a fotografar. A conversar, a mexer.

Os carteiristas andarão satisfeitos? Os lojistas certamente que sim. Finalmente, o comércio funciona a qualquer hora mesmo ao fim de semana. 

Fui caminhar um bocado à beira rio. Há carripanas para tudo. Cerveja, limonada, laranjada, cachorros, sandes, pastéis de nata e de bacalhau, vinho. Comes e bebes não faltam. 

Os tuk-tuks surgem de todos os lados, lançados e carregados de famílias de cabeça a dar a dar. Como é que ainda não rolou nenhuma, com aquela velocidade e os pisos esburacados, armadilhados pelas escorregadias linhas do eléctrico? 

Uma amiga desempregada tentou ser motorista de tuk-tuk mas desistiu depois de fazer uma descida desde a Graça, aos saltos e a imaginar uns brutamontes alemães a serem projectados e a estamparem-se lá em baixo, em Santa Apolónia. 

O pagamento era precário, muito precário. Ah, sim, o turismo cria muitos postos de trabalho. À hora, sem contrato, sem benefícios, sem rede. Tudo na feliz modernidade do "que giro"... e quando há que alimentar a família e pagar as contas?

Esquecia-me que estes trabalhos são para jovens sem "penduricalhos". Que vivem em casa dos pais ou num quarto alugado com amigos. Tão giro, bebes um copo, contas uma história, faz bom tempo, até dá para dormir ao ar livre.

A realidade é que as noites são frias e o futuro incerto. Cada vez mais incerto.

Não sou nova, nem jovem, nem velha, quer dizer, muito velha, penso. Estou tramada.
Falta-me a ousadia esperançosa de quem todo o tempo do mundo à frente para mudar e mudar até se encontrar. Mas também ainda não estou "tanto me faz que já não duro muito". Digo eu. Nunca sabemos.

Fico pelas coisas simples, já que o tempo escasseia.
O cheiro a maresia que vem do rio. As gaivotas a piar. O ar azul de Lisboa. O sol que ainda não aquece demasiado. Reclamar contra o vento que arrefece a noite.
Um jantar de amigos com conversa boa. Um abraço terno. Um beijo doce de carinho. Detalhes decisivos.


Ainda não fui à Feira do Livro. Quero ir mas tenho tido preguiça. Digo que não é obrigatório. Já houve anos em que não fui. O pior é se perco alguma coisa.

Limito-me a arrumar os livros na nova morada. Gosto de o fazer. Depois, fico a olhá-los, orgulhosa da minha capacidade organizativa. Clássicos portugueses, franceses, poesia, literatura estrangeira por autores preferidos, literatura portuguesa idem, restos, soltos, arte, sociedade, política, história. Limpei um a um. Não cabem todos, ficam os que mais gosto.

No meu sítio. Posso escolher um ao acaso e abrir numa página qualquer. Há tantos que gostava de reler. 
Já não vou ter tempo. Sempre o tempo a tramar-nos.

Vejo o céu. Pela janela entra o vento e o cheiro a maresia. Um sossego de domingo.

Quero só ficar por aqui a curtir, a rever coisas antigas, um poema, uma foto, uma história. 

Caminhando contra o vento, a Alegria, Alegria de Caetano que sempre associo ao António. Precisava de lhe falar, nada de especial, comentar a actualidade, o congresso do ps, o Marcelo, o mundo. Saber a sua opinião. É esta impossibilidade que mais dói na ausência da morte.

Fico por aqui. Oiço a Smooth porque ainda tenho os CDs encaixotados. O João Gilberto canta baixinho, consola-me.

Sinto uma certa culpa por este meu domingo de bem-estar quando o mundo vai como vai e pessoas como eu morrem no mar em procura de socorro... 

1 de Junho. Dia da criança

Ainda bem que as nossas crianças, mais ricas ou mais pobres, podem festejar o seu dia, felizes com as suas brincadeiras, colegas, família e amigos, passeios e presentes. Em liberdade.

As crianças são o futuro, quantas vezes o dizemos? 


Mas este dia existe sobretudo para chamar a atenção para os milhões de crianças que não o podem ser. 
Que vivem entre a fome, o trabalho escravo, a violência, a guerra. 

Algumas conseguem fugir e persistir em encontrar um lugar melhor, onde possam comer, lavar-se, brincar, aprender, sonhar. 

Está muito difícil para milhares e milhares delas que se deparam com o abandono, a solidão e a morte.

O nosso dever é fazer tudo para que cada vez mais crianças saiam dessa situação e possam ser crianças.


Não calar é um primeiro passo. Um passo que pode fazer toda a diferença porque quem cala consente.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Mudar.

                                                       "Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma".
                                                                                                                               Patti Smith em "M Train"


Leio com gosto Patti Smith. Adorei "Just kids" e agora já percebi que vou gostar deste "M Train". Gosto da fluidez da sua escrita. Identifico-me com a sua melancolia do passado que não é triste nem neurótica. Gosto que esta mulher seja uma artista não confinada a uma especialidade. Gosto da voz, das fotografias, da poesia.

Antes, li num ápice um livro de outra mulher que também gosto muito de ler. Ana Cristina Leonardo em "Diário do Farol, A Ilha, a Cadela e Eu". Acho-as parecidas. A autora fecha com um post scriptum "as pessoas deviam ser deixadas em paz". 

Preciso de escrever alguma coisa sobre coisa nenhuma. Considerando coisa nenhuma as coisas pequenas que compõem os meus dias e fazem a minha vida.

Este estado letárgico e indefinido, inverno e verão, a que chamamos primavera deixa-me sempre nostálgica e com menos energia.


Os dias têm sido difíceis com a laringe tomada por algo que me tolhe a voz e me impede de respirar quando uns sinistros ataques de tosse me fazem levantar como um autómato e quase cuspir as entranhas. 

Apesar disso, prossigo sem hesitação o meu plano. Mudo. Mudo mesmo. Recupero um amor antigo. Passaram vinte anos. 


Mudo de casa, habito outro espaço. Faço-o com vontade. Passo a partilhá-lo com outra pessoa porque gosto e quero. Com compromisso. Tiro daqui, trago dali, rearrumo, refaço, sem parar. Não vou decidir tudo sozinha como nos últimos vinte anos. 


Escrevo isto com estranheza, confirmando que sou eu. 


Estamos na primavera. O ar sufoca ao almoço e gela ao vento da noite.


O Benfica ganhou e o meu Sporting não. Fico triste. Mas r
ealmente, só quero ter saúde. Não aguento os festejos exagerados. Onde anda esta gente quando é preciso manifestar-se por outros temas? Onde metem a solidariedade, a força e a vinda prá rua?

Volto à Ana Cristina Leonardo que escreveu na  revista do Expresso deste sábado que apenas "há quatro décadas, 25,7% da população era analfabeta – milagres, só o de Fátima..." Pois.


Mudo entusiasmada. Olho a casa onde vivi os últimos 34 anos com uma melancolia feliz. Revejo o bairro onde vivi tantos anos como as histórias de M Train ou a Ilha do Farol. Posso lá ir a qualquer momento!

Mudo. Sou muito apegada às coisas. Às paredes, aos livros, aos móveis, aos quadros, às cadeiras. Trago parte, uma grande parte...


Mudo com a sensação de que vou ser capaz de construir uma nova vida, tal como a Patti Smith diz que é capaz de escrever sobre coisa nenhuma desde que tenha algo a dizer sobre tal. 


O mundo continua imparável. A primavera vai chegando. O meu clube joga bem mas não vence. O meu filho está um homem. Que pena o trabalho pago escassear.


Fico à frente do computador e quero escrever mas não sai. É por estar feliz? Não sei.


Mudo. Daqui vejo o céu todo, o rio azul, o mar ao longe. Uma gaivota sentada no telhado. Gosto de gaivotas.



Mudo de bairro, de zona, de espaço. Não conheço as farmácias. Mal a papelaria. Não existe nenhum Sr. Joaquim da fruta. Há turistas e eléctricos.

Mudo. Não estou sozinha. Volto a viver a dois. Nunca esperei que isto voltasse a acontecer. Não queria. Agora quero. Tanto que fui capaz de mudar. 

Como sou teimosa, custa-me reconhecer que estou melhor assim. 

Que existe até a possibilidade de ser feliz.











segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sábado com sol.

Sábado com sol, eu sei. Não apetece falar de morte nem de guerra. 

Em geral, apetece que se lixem as chatices, apetece sair e sentir o ar quente.


O meu sábado passou num ápice. Arrisquei não pôr despertador e acordei tarde, com um ataque de tosse para juntar aos da noite em que fui acordando sufocada. Nunca mais estou bem. Preciso de energia, força para as minhas andanças.

Faço um plano de acção para o dia. Como sempre, com coisas a mais do que a realidade permitirá. 


Ainda não saí e sei da morte de Paulo Varela Gomes. Já me perguntara como se estaria a aguentar, a escrever e a publicar. Ando a ler o Hotel dele. Li há um ano o seu texto na Granta com a emoção impossível de evitar. 

E a esperança na possibilidade de fintar a morte... mas depois da morte do António, em Janeiro, sei muito melhor como não há fuga ao cancro, quando é bera. 

Nos cenários de guerra que nos cercam também não se consegue fintar a morte. Todos os dias, surge uma nova destruição, um Aleppo, um drama, uma dor que esquarteja a alma. Não todas.


Passo por aqui (Facebook), revendo o que agita as gentes. Publiquei algumas coisas sobre os bombardeamentos em Aleppo, um ou dois "likes", três, quatro.


Ah, se eu dissesse o que penso dos taxistas, publicasse mais uma foto de viagem ou da infância, da minha mãe ou do animal de estimação que não tenho... quantos seriam?


Sábado com sol, eu sei. Apetece curtir, sair, esquecer. Afinal, pouco podemos fazer por esses desvalidos. Os doentes fatais ou os viventes da guerra.


O dia esteve lindo. Está vento, agora. Prevê-se muito calor para os próximos dias. Há que aproveitar a saúde mesmo quando vai falhando aqui e ali. O nosso mundo, o que afinal podemos dominar.
Temos que continuar, não é? Quem sobrevive. Apesar disto tudo, de tudo o que dói!


Amanhã é dia da Mãe. Maio promete acontecimentos radicais para mim. 


Como escreveu o Paulo Varela Gomes,
«A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida.»
— Excerto de «Morrer é mais difícil do que parece», o texto de Paulo Varela Gomes para o número da Granta dedicado ao tema «Falhar melhor»


Paulo Varela Gomes
Sábado, 30 de abril de 2016

terça-feira, 19 de abril de 2016

ARRUMAÇÕES.

Continuam as arrumações. Esta noite foi uma gaveta da cómoda do quarto de que não tirava tudo há muitos mas muitos anos. Tanta descoberta e recordações. E constatações. Como a de que sempre fiz listas e anotações do dia-a-dia desde sempre.
 
No fundo da gaveta, tinha várias sebentas (quem se lembra das sebentas?) com linhas feitas por mim e todos os gastos listados desde o ano em que casei, 1982. 

Depois comecei a listar numas folhas do banco. Já tive dificuldade em perceber os gastos em escudos.

Também encontrei as agendas todas desde 1982. É só perguntarem o que fiz, por exemplo, a 19 de Abril de 1986, precisamente há 30 anos? 
Fui ver. Está lá: 9h30m Cinevoz, 19h casa.


Mais reencontros no fundo da gaveta. Umas fotos que não sabia onde andavam. Como esta, da minha primeira ida aos Açores. 

Agosto de 1978. Dezoito anos. Fui sozinha. Na altura, o aeroporto internacional era em Santa Maria e a viagem para S. Miguel feita num pequeno avião a hélice. 


Percorri a ilha à boleia. Raramente passava um carro no caminho para as Sete Cidades mas não me lembro de não chegar a todo o lado. 

Fui feliz nesses dias. A minha paixão pelos Açores dura desde aí.


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Medicina interna.

Quis ir a um médico generalista, ou seja, a um médico de medicina interna. 
Mostrar todos os exames que fiz e os resultados das consultas dos especialistas.

Tinha esperança que me explicasse porque sinto o corpo divido ao meio, na vertical, o lado direito cheio de mazelas, o esquerdo leve que nem uma pena. Podia até voar. Se não fossem as dores que me assolam do outro lado, da zona lombar ao pé, mais o ombro e o cotovelo. Ah e o pulso e as pedras nos rins. Etc.


Não quero nada com a direita, isso está mais que confirmado. 

Só vou a médicos pontuais. Como este. Um senhor que já me salvou algumas vezes com o seu saber e calma confiante. Já tem uma certa idade. Setentas e?

Mas não tanta idade como o meu dentista que já fez 85. 
Pela primeira vez, a semana passada, senti alguma insegurança ali, de boca aberta, exposta ao ataque da broca. 

São ambos homens altos e magros, cuidados, aparentam muito menos idade. E as consultas são a horas. Ou eram. Porque, nas últimas duas visitas, esperei quase uma hora. Enfim, perdoo-lhes porque os estimo e considero. Gosto deles. 

Aprecio que trabalhem apesar da muita idade. Não se encostaram. Pensam bem. Gostam do que fazem.

A minha mãe também continua operacional, faz a sua vida, presta-nos os mais variados serviços, participa em peças do Canal Q com o neto, mantendo momentos de adrenalina imprescindíveis à vida!

Saí da consulta, depois de muito perorar, com a quase certeza de ter uma hérnia (ou duas?) e dores para a vida. Já não bastavam as centenas de pedras nos rins que ameaçam os Verões dos anos pares. 2016 é par.

Mais um TAC para fazer. Coluna lombossagrada. Para confirmar. 
Tudo bem, depois marco.

O resto já sei. Perder peso. Não comer bolos. Fechar a boca. A fome aperta. 

O médico deixou de comer bolos há 20 anos. Tal como pão. 
Isso não sou capaz, respondo, sou algarvia. Não concebo a vida sem pão!

É uma questão de força de vontade, como deixar de fumar, responde o senhor no seu corpo sequinho.

É verdade, penso, determinada.

Desci a Avenida da Liberdade em direcção ao Rossio. O ar estava frio, o vento forte arrefecia apesar do sol. 

Mas o tempo é de Primavera. A agitação das ruas impressiona. Até o outrora sisudo Restauradores ressuscitou cheios de turistas e esplanadas.

Tinha fome e a tentação de comer um bolo era grande. Venci-a caminhado rapidamente para o metro, aspirando chegar à calmaria da minha rua e da minha casa onde bebi água e comi uma gelatina...