É agora a Primavera. Há flores por todo o lado. Tem chovido demais. Tem feito vento demais mas parece que é Primavera.
Nas ruas de Lisboa, as jacarandas florescem e deixam a sua marca roxo lilás. A cidade fica ainda mais bonita.
Lisboa é realmente bonita, pensei, dentro do eléctrico, de Belém para o Cais do Sodré, manhã cedo. Mesmo com obras por todo o lado e espaços degradados aqui e ali. Cada vez menos.
O turismo impôs-se. É mau? Acho que não por muito que tenhamos que partilhar bairros e ruas, cantinhos outrora desconhecidos e vistas privilegiadas. Dantes só nossas.
Há alegria nessas zonas. Gente de todas as línguas e rostos, alturas e costumes a passar e a fotografar. A conversar, a mexer.
Os carteiristas andarão satisfeitos? Os lojistas certamente que sim. Finalmente, o comércio funciona a qualquer hora mesmo ao fim de semana.
Fui caminhar um bocado à beira rio. Há carripanas para tudo. Cerveja, limonada, laranjada, cachorros, sandes, pastéis de nata e de bacalhau, vinho. Comes e bebes não faltam.
Os tuk-tuks surgem de todos os lados, lançados e carregados de famílias de cabeça a dar a dar. Como é que ainda não rolou nenhuma, com aquela velocidade e os pisos esburacados, armadilhados pelas escorregadias linhas do eléctrico?
Uma amiga desempregada tentou ser motorista de tuk-tuk mas desistiu depois de fazer uma descida desde a Graça, aos saltos e a imaginar uns brutamontes alemães a serem projectados e a estamparem-se lá em baixo, em Santa Apolónia.
O pagamento era precário, muito precário. Ah, sim, o turismo cria muitos postos de trabalho. À hora, sem contrato, sem benefícios, sem rede. Tudo na feliz modernidade do "que giro"... e quando há que alimentar a família e pagar as contas?
Esquecia-me que estes trabalhos são para jovens sem "penduricalhos". Que vivem em casa dos pais ou num quarto alugado com amigos. Tão giro, bebes um copo, contas uma história, faz bom tempo, até dá para dormir ao ar livre.
A realidade é que as noites são frias e o futuro incerto. Cada vez mais incerto.
Não sou nova, nem jovem, nem velha, quer dizer, muito velha, penso. Estou tramada.
Falta-me a ousadia esperançosa de quem todo o tempo do mundo à frente para mudar e mudar até se encontrar. Mas também ainda não estou "tanto me faz que já não duro muito". Digo eu. Nunca sabemos.
Fico pelas coisas simples, já que o tempo escasseia.
O cheiro a maresia que vem do rio. As gaivotas a piar. O ar azul de Lisboa. O sol que ainda não aquece demasiado. Reclamar contra o vento que arrefece a noite.
Um jantar de amigos com conversa boa. Um abraço terno. Um beijo doce de carinho. Detalhes decisivos.
Ainda não fui à Feira do Livro. Quero ir mas tenho tido preguiça. Digo que não é obrigatório. Já houve anos em que não fui. O pior é se perco alguma coisa.
Limito-me a arrumar os livros na nova morada. Gosto de o fazer. Depois, fico a olhá-los, orgulhosa da minha capacidade organizativa. Clássicos portugueses, franceses, poesia, literatura estrangeira por autores preferidos, literatura portuguesa idem, restos, soltos, arte, sociedade, política, história. Limpei um a um. Não cabem todos, ficam os que mais gosto.
No meu sítio. Posso escolher um ao acaso e abrir numa página qualquer. Há tantos que gostava de reler.
Já não vou ter tempo. Sempre o tempo a tramar-nos.
Vejo o céu. Pela janela entra o vento e o cheiro a maresia. Um sossego de domingo.
Quero só ficar por aqui a curtir, a rever coisas antigas, um poema, uma foto, uma história.
Caminhando contra o vento, a Alegria, Alegria de Caetano que sempre associo ao António. Precisava de lhe falar, nada de especial, comentar a actualidade, o congresso do ps, o Marcelo, o mundo. Saber a sua opinião. É esta impossibilidade que mais dói na ausência da morte.
Fico por aqui. Oiço a Smooth porque ainda tenho os CDs encaixotados. O João Gilberto canta baixinho, consola-me.
Sinto uma certa culpa por este meu domingo de bem-estar quando o mundo vai como vai e pessoas como eu morrem no mar em procura de socorro...
domingo, 5 de junho de 2016
1 de Junho. Dia da criança
Ainda bem que as nossas crianças, mais ricas ou mais pobres, podem festejar o seu dia, felizes com as suas brincadeiras, colegas, família e amigos, passeios e presentes. Em liberdade.
As crianças são o futuro, quantas vezes o dizemos?
Mas este dia existe sobretudo para chamar a atenção para os milhões de crianças que não o podem ser. Que vivem entre a fome, o trabalho escravo, a violência, a guerra.
Algumas conseguem fugir e persistir em encontrar um lugar melhor, onde possam comer, lavar-se, brincar, aprender, sonhar.
Está muito difícil para milhares e milhares delas que se deparam com o abandono, a solidão e a morte.
O nosso dever é fazer tudo para que cada vez mais crianças saiam dessa situação e possam ser crianças.
Não calar é um primeiro passo. Um passo que pode fazer toda a diferença porque quem cala consente.
As crianças são o futuro, quantas vezes o dizemos?
Mas este dia existe sobretudo para chamar a atenção para os milhões de crianças que não o podem ser. Que vivem entre a fome, o trabalho escravo, a violência, a guerra.
Algumas conseguem fugir e persistir em encontrar um lugar melhor, onde possam comer, lavar-se, brincar, aprender, sonhar.
Está muito difícil para milhares e milhares delas que se deparam com o abandono, a solidão e a morte.
O nosso dever é fazer tudo para que cada vez mais crianças saiam dessa situação e possam ser crianças.
Não calar é um primeiro passo. Um passo que pode fazer toda a diferença porque quem cala consente.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Mudar.
"Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma".
Patti Smith em "M Train"
Leio com gosto Patti Smith. Adorei "Just kids" e agora já percebi que vou gostar deste "M Train". Gosto da fluidez da sua escrita. Identifico-me com a sua melancolia do passado que não é triste nem neurótica. Gosto que esta mulher seja uma artista não confinada a uma especialidade. Gosto da voz, das fotografias, da poesia.
Antes, li num ápice um livro de outra mulher que também gosto muito de ler. Ana Cristina Leonardo em "Diário do Farol, A Ilha, a Cadela e Eu". Acho-as parecidas. A autora fecha com um post scriptum "as pessoas deviam ser deixadas em paz".
Preciso de escrever alguma coisa sobre coisa nenhuma. Considerando coisa nenhuma as coisas pequenas que compõem os meus dias e fazem a minha vida.
Este estado letárgico e indefinido, inverno e verão, a que chamamos primavera deixa-me sempre nostálgica e com menos energia.
Os dias têm sido difíceis com a laringe tomada por algo que me tolhe a voz e me impede de respirar quando uns sinistros ataques de tosse me fazem levantar como um autómato e quase cuspir as entranhas.
Apesar disso, prossigo sem hesitação o meu plano. Mudo. Mudo mesmo. Recupero um amor antigo. Passaram vinte anos.
Mudo de casa, habito outro espaço. Faço-o com vontade. Passo a partilhá-lo com outra pessoa porque gosto e quero. Com compromisso. Tiro daqui, trago dali, rearrumo, refaço, sem parar. Não vou decidir tudo sozinha como nos últimos vinte anos.
Escrevo isto com estranheza, confirmando que sou eu.
Estamos na primavera. O ar sufoca ao almoço e gela ao vento da noite.
O Benfica ganhou e o meu Sporting não. Fico triste. Mas realmente, só quero ter saúde. Não aguento os festejos exagerados. Onde anda esta gente quando é preciso manifestar-se por outros temas? Onde metem a solidariedade, a força e a vinda prá rua?
Volto à Ana Cristina Leonardo que escreveu na revista do Expresso deste sábado que apenas "há quatro décadas, 25,7% da população era analfabeta – milagres, só o de Fátima..." Pois.
Mudo entusiasmada. Olho a casa onde vivi os últimos 34 anos com uma melancolia feliz. Revejo o bairro onde vivi tantos anos como as histórias de M Train ou a Ilha do Farol. Posso lá ir a qualquer momento!
Mudo. Sou muito apegada às coisas. Às paredes, aos livros, aos móveis, aos quadros, às cadeiras. Trago parte, uma grande parte...
Mudo com a sensação de que vou ser capaz de construir uma nova vida, tal como a Patti Smith diz que é capaz de escrever sobre coisa nenhuma desde que tenha algo a dizer sobre tal.
O mundo continua imparável. A primavera vai chegando. O meu clube joga bem mas não vence. O meu filho está um homem. Que pena o trabalho pago escassear.
Fico à frente do computador e quero escrever mas não sai. É por estar feliz? Não sei.
Mudo. Daqui vejo o céu todo, o rio azul, o mar ao longe. Uma gaivota sentada no telhado. Gosto de gaivotas.
Mudo de bairro, de zona, de espaço. Não conheço as farmácias. Mal a papelaria. Não existe nenhum Sr. Joaquim da fruta. Há turistas e eléctricos.
Mudo. Não estou sozinha. Volto a viver a dois. Nunca esperei que isto voltasse a acontecer. Não queria. Agora quero. Tanto que fui capaz de mudar.
Como sou teimosa, custa-me reconhecer que estou melhor assim.
Que existe até a possibilidade de ser feliz.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Sábado com sol.
Sábado com sol, eu sei. Não apetece falar de morte nem de guerra.
Em geral, apetece que se lixem as chatices, apetece sair e sentir o ar quente.
O meu sábado passou num ápice. Arrisquei não pôr despertador e acordei tarde, com um ataque de tosse para juntar aos da noite em que fui acordando sufocada. Nunca mais estou bem. Preciso de energia, força para as minhas andanças.
Faço um plano de acção para o dia. Como sempre, com coisas a mais do que a realidade permitirá.
Ainda não saí e sei da morte de Paulo Varela Gomes. Já me perguntara como se estaria a aguentar, a escrever e a publicar. Ando a ler o Hotel dele. Li há um ano o seu texto na Granta com a emoção impossível de evitar.
E a esperança na possibilidade de fintar a morte... mas depois da morte do António, em Janeiro, sei muito melhor como não há fuga ao cancro, quando é bera.
Nos cenários de guerra que nos cercam também não se consegue fintar a morte. Todos os dias, surge uma nova destruição, um Aleppo, um drama, uma dor que esquarteja a alma. Não todas.
Passo por aqui (Facebook), revendo o que agita as gentes. Publiquei algumas coisas sobre os bombardeamentos em Aleppo, um ou dois "likes", três, quatro.
Ah, se eu dissesse o que penso dos taxistas, publicasse mais uma foto de viagem ou da infância, da minha mãe ou do animal de estimação que não tenho... quantos seriam?
Sábado com sol, eu sei. Apetece curtir, sair, esquecer. Afinal, pouco podemos fazer por esses desvalidos. Os doentes fatais ou os viventes da guerra.
O dia esteve lindo. Está vento, agora. Prevê-se muito calor para os próximos dias. Há que aproveitar a saúde mesmo quando vai falhando aqui e ali. O nosso mundo, o que afinal podemos dominar.
Temos que continuar, não é? Quem sobrevive. Apesar disto tudo, de tudo o que dói!
Amanhã é dia da Mãe. Maio promete acontecimentos radicais para mim.
Como escreveu o Paulo Varela Gomes,
«A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida.»
— Excerto de «Morrer é mais difícil do que parece», o texto de Paulo Varela Gomes para o número da Granta dedicado ao tema «Falhar melhor»
Em geral, apetece que se lixem as chatices, apetece sair e sentir o ar quente.
O meu sábado passou num ápice. Arrisquei não pôr despertador e acordei tarde, com um ataque de tosse para juntar aos da noite em que fui acordando sufocada. Nunca mais estou bem. Preciso de energia, força para as minhas andanças.
Faço um plano de acção para o dia. Como sempre, com coisas a mais do que a realidade permitirá.
Ainda não saí e sei da morte de Paulo Varela Gomes. Já me perguntara como se estaria a aguentar, a escrever e a publicar. Ando a ler o Hotel dele. Li há um ano o seu texto na Granta com a emoção impossível de evitar.
E a esperança na possibilidade de fintar a morte... mas depois da morte do António, em Janeiro, sei muito melhor como não há fuga ao cancro, quando é bera.
Nos cenários de guerra que nos cercam também não se consegue fintar a morte. Todos os dias, surge uma nova destruição, um Aleppo, um drama, uma dor que esquarteja a alma. Não todas.
Passo por aqui (Facebook), revendo o que agita as gentes. Publiquei algumas coisas sobre os bombardeamentos em Aleppo, um ou dois "likes", três, quatro.
Ah, se eu dissesse o que penso dos taxistas, publicasse mais uma foto de viagem ou da infância, da minha mãe ou do animal de estimação que não tenho... quantos seriam?
Sábado com sol, eu sei. Apetece curtir, sair, esquecer. Afinal, pouco podemos fazer por esses desvalidos. Os doentes fatais ou os viventes da guerra.
O dia esteve lindo. Está vento, agora. Prevê-se muito calor para os próximos dias. Há que aproveitar a saúde mesmo quando vai falhando aqui e ali. O nosso mundo, o que afinal podemos dominar.
Temos que continuar, não é? Quem sobrevive. Apesar disto tudo, de tudo o que dói!
Amanhã é dia da Mãe. Maio promete acontecimentos radicais para mim.
Como escreveu o Paulo Varela Gomes,
«A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida.»
— Excerto de «Morrer é mais difícil do que parece», o texto de Paulo Varela Gomes para o número da Granta dedicado ao tema «Falhar melhor»
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| Paulo Varela Gomes |
Sábado, 30 de abril de 2016
terça-feira, 19 de abril de 2016
ARRUMAÇÕES.
Continuam as arrumações. Esta noite foi uma gaveta da cómoda do quarto de que não tirava tudo há muitos mas muitos anos. Tanta descoberta e recordações. E constatações. Como a de que sempre fiz listas e anotações do dia-a-dia desde sempre.
No fundo da gaveta, tinha várias sebentas (quem se lembra das sebentas?) com linhas feitas por mim e todos os gastos listados desde o ano em que casei, 1982.
Depois comecei a listar numas folhas do banco. Já tive dificuldade em perceber os gastos em escudos.
Também encontrei as agendas todas desde 1982. É só perguntarem o que fiz, por exemplo, a 19 de Abril de 1986, precisamente há 30 anos?
Fui ver. Está lá: 9h30m Cinevoz, 19h casa.
Mais reencontros no fundo da gaveta. Umas fotos que não sabia onde andavam. Como esta, da minha primeira ida aos Açores.
Agosto de 1978. Dezoito anos. Fui sozinha. Na altura, o aeroporto internacional era em Santa Maria e a viagem para S. Miguel feita num pequeno avião a hélice.
Percorri a ilha à boleia. Raramente passava um carro no caminho para as Sete Cidades mas não me lembro de não chegar a todo o lado.
Fui feliz nesses dias. A minha paixão pelos Açores dura desde aí.
No fundo da gaveta, tinha várias sebentas (quem se lembra das sebentas?) com linhas feitas por mim e todos os gastos listados desde o ano em que casei, 1982.
Depois comecei a listar numas folhas do banco. Já tive dificuldade em perceber os gastos em escudos.
Também encontrei as agendas todas desde 1982. É só perguntarem o que fiz, por exemplo, a 19 de Abril de 1986, precisamente há 30 anos?
Fui ver. Está lá: 9h30m Cinevoz, 19h casa.
Mais reencontros no fundo da gaveta. Umas fotos que não sabia onde andavam. Como esta, da minha primeira ida aos Açores.
Agosto de 1978. Dezoito anos. Fui sozinha. Na altura, o aeroporto internacional era em Santa Maria e a viagem para S. Miguel feita num pequeno avião a hélice.
Percorri a ilha à boleia. Raramente passava um carro no caminho para as Sete Cidades mas não me lembro de não chegar a todo o lado.
Fui feliz nesses dias. A minha paixão pelos Açores dura desde aí.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Medicina interna.
Quis ir a um médico generalista, ou seja, a um médico de medicina interna.
Mostrar todos os exames que fiz e os resultados das consultas dos especialistas.
Tinha esperança que me explicasse porque sinto o corpo divido ao meio, na vertical, o lado direito cheio de mazelas, o esquerdo leve que nem uma pena. Podia até voar. Se não fossem as dores que me assolam do outro lado, da zona lombar ao pé, mais o ombro e o cotovelo. Ah e o pulso e as pedras nos rins. Etc.
Não quero nada com a direita, isso está mais que confirmado.
Só vou a médicos pontuais. Como este. Um senhor que já me salvou algumas vezes com o seu saber e calma confiante. Já tem uma certa idade. Setentas e?
Mas não tanta idade como o meu dentista que já fez 85.
Pela primeira vez, a semana passada, senti alguma insegurança ali, de boca aberta, exposta ao ataque da broca.
São ambos homens altos e magros, cuidados, aparentam muito menos idade. E as consultas são a horas. Ou eram. Porque, nas últimas duas visitas, esperei quase uma hora. Enfim, perdoo-lhes porque os estimo e considero. Gosto deles.
Aprecio que trabalhem apesar da muita idade. Não se encostaram. Pensam bem. Gostam do que fazem.
A minha mãe também continua operacional, faz a sua vida, presta-nos os mais variados serviços, participa em peças do Canal Q com o neto, mantendo momentos de adrenalina imprescindíveis à vida!
Saí da consulta, depois de muito perorar, com a quase certeza de ter uma hérnia (ou duas?) e dores para a vida. Já não bastavam as centenas de pedras nos rins que ameaçam os Verões dos anos pares. 2016 é par.
Mais um TAC para fazer. Coluna lombossagrada. Para confirmar.
Tudo bem, depois marco.
O resto já sei. Perder peso. Não comer bolos. Fechar a boca. A fome aperta.
O médico deixou de comer bolos há 20 anos. Tal como pão.
Isso não sou capaz, respondo, sou algarvia. Não concebo a vida sem pão!
É uma questão de força de vontade, como deixar de fumar, responde o senhor no seu corpo sequinho.
É verdade, penso, determinada.
Mostrar todos os exames que fiz e os resultados das consultas dos especialistas.
Tinha esperança que me explicasse porque sinto o corpo divido ao meio, na vertical, o lado direito cheio de mazelas, o esquerdo leve que nem uma pena. Podia até voar. Se não fossem as dores que me assolam do outro lado, da zona lombar ao pé, mais o ombro e o cotovelo. Ah e o pulso e as pedras nos rins. Etc.
Não quero nada com a direita, isso está mais que confirmado.
Só vou a médicos pontuais. Como este. Um senhor que já me salvou algumas vezes com o seu saber e calma confiante. Já tem uma certa idade. Setentas e?
Mas não tanta idade como o meu dentista que já fez 85.
Pela primeira vez, a semana passada, senti alguma insegurança ali, de boca aberta, exposta ao ataque da broca.
São ambos homens altos e magros, cuidados, aparentam muito menos idade. E as consultas são a horas. Ou eram. Porque, nas últimas duas visitas, esperei quase uma hora. Enfim, perdoo-lhes porque os estimo e considero. Gosto deles.
Aprecio que trabalhem apesar da muita idade. Não se encostaram. Pensam bem. Gostam do que fazem.
A minha mãe também continua operacional, faz a sua vida, presta-nos os mais variados serviços, participa em peças do Canal Q com o neto, mantendo momentos de adrenalina imprescindíveis à vida!
Saí da consulta, depois de muito perorar, com a quase certeza de ter uma hérnia (ou duas?) e dores para a vida. Já não bastavam as centenas de pedras nos rins que ameaçam os Verões dos anos pares. 2016 é par.
Mais um TAC para fazer. Coluna lombossagrada. Para confirmar.
Tudo bem, depois marco.
O resto já sei. Perder peso. Não comer bolos. Fechar a boca. A fome aperta.
O médico deixou de comer bolos há 20 anos. Tal como pão.
Isso não sou capaz, respondo, sou algarvia. Não concebo a vida sem pão!
É uma questão de força de vontade, como deixar de fumar, responde o senhor no seu corpo sequinho.
É verdade, penso, determinada.
Desci a Avenida da Liberdade em direcção ao Rossio. O ar estava frio, o vento forte arrefecia apesar do sol.
Mas o tempo é de Primavera. A agitação das ruas impressiona. Até o outrora sisudo Restauradores ressuscitou cheios de turistas e esplanadas.
Tinha fome e a tentação de comer um bolo era grande. Venci-a caminhado rapidamente para o metro, aspirando chegar à calmaria da minha rua e da minha casa onde bebi água e comi uma gelatina...
Mas o tempo é de Primavera. A agitação das ruas impressiona. Até o outrora sisudo Restauradores ressuscitou cheios de turistas e esplanadas.
Tinha fome e a tentação de comer um bolo era grande. Venci-a caminhado rapidamente para o metro, aspirando chegar à calmaria da minha rua e da minha casa onde bebi água e comi uma gelatina...
domingo, 10 de abril de 2016
Estranhezas*
Confesso que me custa suportar o caminho que o mundo toma. De regressão.
Pelo menos, é o que percepciono. Apesar de todos os fantásticos avanços tecnológicos que, como a Inteligência Artificial, vão rivalizar connosco no desempenho do dia-a-dia.
Olhando só para a minha vida, até podia não me ralar tanto a cada má notícia e seguir o meu percurso, entre as coisas boas e as menos boas. Viver o dia-a-dia mais afastada da vida dos outros. Que não conheço. Não consigo.
Sinto-me no mundo e não quero viver à parte dele, numa redoma egocêntrica.
Custa demais sentir as mãos atadas. Ou sentir-me como tal. Poder fazer muito pouco. Demasiado pouco.
Os acontecimentos dignos de indignação, de comentário, de aflição, dignos de acção sucedem-se tão rapidamente que se torna praticamente impossível apreender todos.
A internet veio dar a possibilidade de fazer alguma coisa a partir do sofá. Assinar uma petição da Amnistia Internacional, partilhar documentos e artigos, exprimir a nossa revolta. Ter opinião pública. Para o bem e para o mal. Ficar com a sensação de dever cumprido sem o ser.
É insuficiente. O que mais me chateia nestes tempos é a dificuldade de acreditar que podemos mudar o mundo. Aos poucos essa crença no poder das massas se unirem e lutarem contra a desigualdade, a injustiça, pelos direitos humanos básicos, foi-se reduzindo. Colectivamente.
É preciso alguma dose de auto-confiança para persistir na possibilidade que os povos, as pessoas comuns sem poder, a grande maioria anónima pode determinar o seu destino e o dos seus países ou regiões.
O poder do dinheiro, o desenvolvimento dum capitalismo desenfreado e desumano (considerando que antes era mais moderado), o crescimento das desigualdades entre ricos e pobres, o aparecimento de movimentos fascistas e ditatoriais em nome de seitas e religiões, a descriminação das mulheres, o abandono das crianças, o crime, a morte sem pudor de inocentes, a fome, a guerra, a morte arbitrária, têm vindo a não deixar grande margem para o optimismo num mundo livre e mais igualitário.
Talvez seja pessimista e sejamos apenas vítimas do conhecimento global. Antes não se sabia da matança de parte do mundo.
Não sei. Sinto o mundo como sinto o meu corpo actualmente. Dividido ao meio.
No último livro de Salmon Rushdie "Dois anos, oito meses e vinte e oito noites", que acabei de ler há dias, a mensagem é a de que os homens se podem tornar razoáveis quando perceberem que a narrativa do conflito em que sempre vivem pode ser alterada e que as diferenças de raça, local, língua e costumes, crenças podem deixar de os dividir.
No livro, esta possibilidade de felicidade e razoabilidade só acontece depois de uma brutal destruição da sociedade, depois de muito sofrimento e morte.
Depois de muita degradação e desgraça. Da perca em massa de vidas humanas.
Depois da destruição do mundo a que chamaram um tempo de estranhezas.
Estamos lá?
* termo utilizado por Salmon Rushdie no seu último livro
Pelo menos, é o que percepciono. Apesar de todos os fantásticos avanços tecnológicos que, como a Inteligência Artificial, vão rivalizar connosco no desempenho do dia-a-dia.
![]() |
| Robot em 2016 |
Sinto-me no mundo e não quero viver à parte dele, numa redoma egocêntrica.
Custa demais sentir as mãos atadas. Ou sentir-me como tal. Poder fazer muito pouco. Demasiado pouco.
Os acontecimentos dignos de indignação, de comentário, de aflição, dignos de acção sucedem-se tão rapidamente que se torna praticamente impossível apreender todos.
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| A fome e a guerra na Síria |
É insuficiente. O que mais me chateia nestes tempos é a dificuldade de acreditar que podemos mudar o mundo. Aos poucos essa crença no poder das massas se unirem e lutarem contra a desigualdade, a injustiça, pelos direitos humanos básicos, foi-se reduzindo. Colectivamente.
É preciso alguma dose de auto-confiança para persistir na possibilidade que os povos, as pessoas comuns sem poder, a grande maioria anónima pode determinar o seu destino e o dos seus países ou regiões.
O poder do dinheiro, o desenvolvimento dum capitalismo desenfreado e desumano (considerando que antes era mais moderado), o crescimento das desigualdades entre ricos e pobres, o aparecimento de movimentos fascistas e ditatoriais em nome de seitas e religiões, a descriminação das mulheres, o abandono das crianças, o crime, a morte sem pudor de inocentes, a fome, a guerra, a morte arbitrária, têm vindo a não deixar grande margem para o optimismo num mundo livre e mais igualitário.
Talvez seja pessimista e sejamos apenas vítimas do conhecimento global. Antes não se sabia da matança de parte do mundo.
Não sei. Sinto o mundo como sinto o meu corpo actualmente. Dividido ao meio.
No último livro de Salmon Rushdie "Dois anos, oito meses e vinte e oito noites", que acabei de ler há dias, a mensagem é a de que os homens se podem tornar razoáveis quando perceberem que a narrativa do conflito em que sempre vivem pode ser alterada e que as diferenças de raça, local, língua e costumes, crenças podem deixar de os dividir.
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| Passagem final do livro de Salmon Rushdie que refiro. |
No livro, esta possibilidade de felicidade e razoabilidade só acontece depois de uma brutal destruição da sociedade, depois de muito sofrimento e morte.
Depois de muita degradação e desgraça. Da perca em massa de vidas humanas.
Depois da destruição do mundo a que chamaram um tempo de estranhezas.
Estamos lá?
* termo utilizado por Salmon Rushdie no seu último livro
terça-feira, 5 de abril de 2016
Offshore humano.
Li ontem algures no Facebook que íamos ver o que a imprensa escolheria face a dois terríveis acontecimentos do mesmo dia, 4 de Abril.
Os documentos do Panamá e a deportação dos refugiados.
Dois offshores repugnantes, um financeiro, outro humano. Não é disso que trata o acordo EU - Turquia?
Dando uma volta rápida pelos media, nacionais e internacionais, dominam as notícias sobre o caso do Panamá.
Até nisto aqueles desgraçados abandonados e reenviados para o cenário de morte de que fugiram têm azar.
Os documentos do Panamá e a deportação dos refugiados.
Dois offshores repugnantes, um financeiro, outro humano. Não é disso que trata o acordo EU - Turquia?
Dando uma volta rápida pelos media, nacionais e internacionais, dominam as notícias sobre o caso do Panamá.
Até nisto aqueles desgraçados abandonados e reenviados para o cenário de morte de que fugiram têm azar.
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