Li ontem algures no Facebook que íamos ver o que a imprensa escolheria face a dois terríveis acontecimentos do mesmo dia, 4 de Abril.
Os documentos do Panamá e a deportação dos refugiados.
Dois offshores repugnantes, um financeiro, outro humano. Não é disso que trata o acordo EU - Turquia?
Dando uma volta rápida pelos media, nacionais e internacionais, dominam as notícias sobre o caso do Panamá.
Até nisto aqueles desgraçados abandonados e reenviados para o cenário de morte de que fugiram têm azar.
terça-feira, 5 de abril de 2016
Do Panamá.
Primeiro domingo de Abril.
De repente, ao fim da tarde, somos invadidos (e bem) pela divulgação dos Papéis de Panamá.
11 milhões de ficheiros que revelam onde grande parte dos muito ricos do mundo escondem os seus milhões, os seus esquemas, as suas corrupções que lhes permitem fugir a impostos, gozar com os pobres e tolos que somos nós, os tolos que trabalham e ganham um salário de merda e pagam impostos.
A escala é demasiado grande para ser logo absorvida. Quase que não dá para acreditar que isto é revelado. Que é mesmo assim. Como suspeitávamos. No mundo. O capitalismo na sua podridão máxima.
Fui espreitar vários jornais e meios como a Forbes ou o The Guardian e todos publicaram a mesma história, à mesma hora. A que o Expresso publicou e partilhei.
Dados, factos, nomes, poder e corrupção. Dinheiro.
Há muito que não se via jornalismo de investigação a este nível. Ou talvez nunca tenha havida esta conjugação de esforços global envolvendo tanta gente.
Mesmo que não haja capacidade / poder para punir os trafulhas donos do mundo estas denúncias já valeram. Terão sempre consequências.
Sempre li os livros de John Le Carré com a sensação que os seus casos eram reais. Mas a realidade supera em muito aquelas histórias.
Nos últimos anos, a desigualdade no mundo aumentou brutalmente, com a concentração da riqueza numa percentagem de ricos cada vez mais ricos.
Como? Já podemos perceber melhor.
Dinheiro. Há dinheiro, tanto dinheiro. Que podia salvar toda a gente da pobreza, da fome, da guerra, da morte.
Os valores envolvidos nestes offshores correspondem aos PIB dos Estados Unidos e Japão juntos. Triliões!
O mundo podia ser fantástico, igualitário, bom mas cada vez o é menos. O que chateia é que a maioria, a grande maioria das pessoas, podia impedir este pequeno número de donos do mundo de o ser. Se quisessem.
terça-feira, 8 de março de 2016
Das Mulheres.
"We are not for sale" é a frase que tenho sobre a imagem de fundo do meu perfil do facebook.
A imagem dos olhos de uma jovem africana, talvez uma dessas adolescentes sem direito à vida, à liberdade, aos direitos básicos de um ser humano. Porque nasceu mulher.
Faz quase dois anos que lá a coloquei a propósito do rapto de 300 jovens mulheres na Nigéria. Não se sabe delas. Abandonadas à sua sorte, violadas, escravizadas, mortas.
Como elas, muitas outras ali ou noutros pontos do mundo continuam a sofrer apenas por serem mulheres.
Neste dia, infelizmente cada vez mais necessário para chamar a atenção para a desigualdade, a exploração, a escravatura a que são sujeitas milhões de mulheres no mundo e não para celebrar a igualdade de direitos, não consigo deixar de lembrar as mulheres refugiadas.
Que fogem da guerra, desesperadas com os filhos pequenos ao colo, ao seu cuidado. Que sofrimento será esta vivência.
Olho à volta neste 8 de Março e sinto que regredimos. A sociedade toda.
Mesmo no mundo ocidental civilizado, onde supostamente teríamos uma situação profissional e pessoal idêntica à dos homens, parece clara uma paragem do progresso encetado há mais de 150 anos por mulheres como as da foto.
Revejo, releio uma nota minha de há um ano atrás neste blogue. Mantém-se: metade das mulheres do planeta ou mais, não podem existir como seres humanos.
Os factos conhecidos, divulgados por organizações independentes assim o confirmam: falta de acesso à educação, excisão, falta de acesso ao trabalho igual ao dos homens, falta de liberdade para vestir, guiar, andar sozinha na rua, etc.
Não é só no Islão, também fora dele. Não tenho nada contra o Islão que não tenha contra outras religiões.
As religiões têm sido a base da falta de direitos das mulheres.
Há excepções, como em todos os casos. As mulheres kurdas são mulçumanas e lutam, de igual para igual contra o ISIS, cara destapada e armas na mão.
São as excepções que nos dão esperança e confirmam que é possível a igualdade.
Defendo a liberdade total, ou seja, a liberdade de pensar, ser, escolher, viver para todos os seres humanos, homens e mulheres, e isso, estamos longe de ter no mundo actual, apesar de todo o progresso.
Uma coisa sei. Não podemos desistir nunca!
Devemos isso a todas as mulheres que, até hoje, lutaram pela igualdade, se afirmaram pelo valor do seu trabalho, não se deixaram mandar, bater ou escravizar, a todas as mulheres que pensam por si e são livres.
Devemos isso a todas as pequenas atitudes que fizeram a diferença para chegar às grandes mudanças.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Umberto Eco
A obra de Eco fez parte da minha vida e, desde há uma semana, quando soube da sua morte, pensei escrever alguma coisa sobre isso.
Houve até um dia em que fui à estante procurar todos os livros seus que li e os fotografei para depois ilustrar essas palavras. Mas acabei por não ter oportunidade.
O que afinal queria dizer, disse-o com a assertividade e a mestria habituais a Ana Cristina Pereira Leonardo na revista do Expresso: "(...) o seu desaparecimento significa o empobrecimento do mundo, e não enquanto frase gasta de retórica, mas porque é mesmo um mundo que desaparece: um mundo povoado ainda pelo que restava da figura intelectual do século XX, culto, interventivo, universal e estimulante".
Sempre gostei de Eco, de o ler, quer fosse romance histórico ou outros escritos, como a semiótica.
Citando ainda a Ana Cristina Leonardo, "(...) a resistência à imbecilização do mundo ficou mais difícil com a sua morte".
E o mundo já está muito difícil.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Tio Victor
Há bocado estava a começar uma reunião e, de repente, quando escrevi a data no caderno, lembrei-me que era o dia de aniversário do querido tio Victor.
Que saudades! Faria 91 anos se estivesse vivo.
Foi como um segundo pai para nós. O tio solteirão que todas as crianças querem ter. Sempre disponível.
Quando éramos crianças, o tio Victor vivia em Lisboa e nós em Faro. A sua chegada para passar as férias do Natal eram um acontecimento. Levava duas malas, uma muito grande com presentes para nós e outra pequena com a roupa dele.
Esteve sempre na nossa vida, para o bem e para o mal. Sempre connosco.
Quando o meu filho nasceu, fê-lo sócio do Sporting dois dias depois. A quantos jogos o João foi com ele a Alvalade?
Há dias, na homenagem ao António, realizada em Freixo de Espada à Cinta, perguntaram-me se sabia quem era "o tio Victor" pois uma das pessoas ali presente encontrara, num alfarrobista no Algarve, uma 1º edição do "Boas Fadas Que Te Fadem", assinado pelo autor, com uma dedicatória a um tal tio Victor.
Que coincidência. E emoção. Não sei como o livro foi parar ao tal alfarrobista mas certamente o tio Victor o emprestou ou deu a alguém.
Há pessoas que marcam as nossas vidas só com o bem. Felizmente!
Que saudades!
26 de Fevereiro de 2016
Que saudades! Faria 91 anos se estivesse vivo.
Foi como um segundo pai para nós. O tio solteirão que todas as crianças querem ter. Sempre disponível.
Quando éramos crianças, o tio Victor vivia em Lisboa e nós em Faro. A sua chegada para passar as férias do Natal eram um acontecimento. Levava duas malas, uma muito grande com presentes para nós e outra pequena com a roupa dele.
Esteve sempre na nossa vida, para o bem e para o mal. Sempre connosco.
Quando o meu filho nasceu, fê-lo sócio do Sporting dois dias depois. A quantos jogos o João foi com ele a Alvalade?
Há dias, na homenagem ao António, realizada em Freixo de Espada à Cinta, perguntaram-me se sabia quem era "o tio Victor" pois uma das pessoas ali presente encontrara, num alfarrobista no Algarve, uma 1º edição do "Boas Fadas Que Te Fadem", assinado pelo autor, com uma dedicatória a um tal tio Victor.
Que coincidência. E emoção. Não sei como o livro foi parar ao tal alfarrobista mas certamente o tio Victor o emprestou ou deu a alguém.
Há pessoas que marcam as nossas vidas só com o bem. Felizmente!
Que saudades!
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| Na foto, eu e a minha irmã com o tio Victor numa dessas férias de Natal, eu teria uns 7 anos e a minha irmã 5 |
26 de Fevereiro de 2016
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Dois anos e dois dias.
Passaram dois anos sobre o início do Tripolar. Pus-me a reler textos dessa altura. Gostei. Muito melhor do que os últimos. Vivia num período com muito mais disponibilidade. Que é necessária.
Hoje falta-me tempo. Ou será desculpa? Apenas opções? Prioridades. Talvez.
Releio "Transitados" e revejo-me:
(...) quando me atrevi a criar este blogue (...) foi principalmente por gostar de escrever. Gosto e é algo que me apetece fazer.
No entanto, tenho a noção das enormes lacunas literárias que uma vida absorta num trabalho de gestão operacional não ajudou a colmatar, apesar de sempre ter lido bastante. Mas tenho enormes falhas nos clássicos, especialmente, nos russos.
Outra razão é porque me alivia as irritações várias. Como não toco bateria nem dou murros num saco de boxe, escrevo o que me vai na alma. E sinto-me melhor depois.
Ando uns tempos com um assunto na cabeça e há um momento em que tem que ser e torna-se a minha prioridade.
A vontade de escrever mantém-se. Cada vez mais. Se pudesse fazer o que me apetecia, sem preocupações em sobreviver, seria escrever e fotografar. Mas as preocupações existem, não se alteraram.
E olho para estas palavras de "O vazio atrai o cheio" com nostalgia pela leveza optimista dessa época:
O vazio não aconteceu. O vazio está a ficar cheio. Esse cheio é um recheio que tem evoluído e mudado amiúde, num caminho entre a confusão e a clareza. Afinal, só passaram três meses.
Nestes últimos dias, comecei a pensar como me tem provocado um enorme gozo interior saber se vou ou não (ainda não duvidei que sim) ser capaz de concretizar novas coisas, diferentes.
Dou por mim, a caminhar com um sorriso nos lábios, feliz. Sem medo apesar do medo que acho devia ter. E algum tenho. Mais por obrigação porque não o sinto realmente. Nunca fui muito de medos, é certo.
Dois anos depois, o vazio encheu-se, sim. Muitas coisas novas aconteceram. Muitas diferentes das imaginadas ou planeadas.
O caminho parece mais definido, não sei se mais tranquilo. A ver vamos.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
DEZ MIL
10.000 de 26.000 crianças que chegaram à Europa sozinhas estão desaparecidas, diz a policia num primeiro relatório sobre os refugiados.
O numero é tão elevado que não dá para imaginar.
Se fossem crianças em escolas portuguesas, quantas escolas cheias seriam?
Só de imaginar - ou lembrar, porque houve reportagens junto dos refugiados que entrevistaram crianças a viajar sozinhas, os pais que morreram na guerra ou pelo caminho - arrepia.
Uma criança de 5 ou 7 anos, ou 10 ou 14, a caminhar sem protecção, sem falar a língua, sem comida, ao frio e entregues à sua sorte, está sujeita a todos os males. Quem tem filhos o que sente?
Os canalhas que dirigem a Europa, que gerem organizações, que estão à frente de grandes instituições financeiras, não sentem? Não lhes treme a alma ao ouvir estas notícias?
Ou estão tão longe da realidade, entretidos nos jogos do dinheiro e do poder, que não dão por nada? Entretidos a discutir orçamentos e milhões virtuais.
Há espaço e riqueza mais que suficientes para partilhar.
Do conjunto, só vejo Merkel dizê-lo. Caramba, logo ela que nos habituamos a odiar, com razão. Dos dirigentes europeus, tem sido a única voz a erguer-se em defesa destes desgraçados, ainda assim ameaçada pelos correlegionários.
Vivemos tempos que nunca pensei viver.
O mal banaliza-se a cada noticia. O mal pequeno e individual e o mal colectivo. A indiferença fomenta, permitindo que se espalhe o ódio.
Quanto a esta notícia das crianças refugiadas, não ouvi nada pelos responsáveis europeus. Nada!
Vai repetir-se a história. Como é possível?! Como é possível não impedir este sofrimento?!
Existem muitas pessoas e organizações de solidariedade que, felizmente, ajudam no terreno a dar algum conforto a quem chega mas sem poder fazer muito mais.
Também outras globais como a UNICEF ou a Cruz Vermelha mas precisam do apoio dos países, dos governos, dos decisores. Os mesmos que não hesitam em se mobilizar em torno dum mosquito.
O numero é tão elevado que não dá para imaginar.
Só de imaginar - ou lembrar, porque houve reportagens junto dos refugiados que entrevistaram crianças a viajar sozinhas, os pais que morreram na guerra ou pelo caminho - arrepia.
Uma criança de 5 ou 7 anos, ou 10 ou 14, a caminhar sem protecção, sem falar a língua, sem comida, ao frio e entregues à sua sorte, está sujeita a todos os males. Quem tem filhos o que sente?
Os canalhas que dirigem a Europa, que gerem organizações, que estão à frente de grandes instituições financeiras, não sentem? Não lhes treme a alma ao ouvir estas notícias?
Ou estão tão longe da realidade, entretidos nos jogos do dinheiro e do poder, que não dão por nada? Entretidos a discutir orçamentos e milhões virtuais.
Há espaço e riqueza mais que suficientes para partilhar.
Do conjunto, só vejo Merkel dizê-lo. Caramba, logo ela que nos habituamos a odiar, com razão. Dos dirigentes europeus, tem sido a única voz a erguer-se em defesa destes desgraçados, ainda assim ameaçada pelos correlegionários.
Vivemos tempos que nunca pensei viver.
O mal banaliza-se a cada noticia. O mal pequeno e individual e o mal colectivo. A indiferença fomenta, permitindo que se espalhe o ódio.
Quanto a esta notícia das crianças refugiadas, não ouvi nada pelos responsáveis europeus. Nada!
Vai repetir-se a história. Como é possível?! Como é possível não impedir este sofrimento?!
Existem muitas pessoas e organizações de solidariedade que, felizmente, ajudam no terreno a dar algum conforto a quem chega mas sem poder fazer muito mais.
Também outras globais como a UNICEF ou a Cruz Vermelha mas precisam do apoio dos países, dos governos, dos decisores. Os mesmos que não hesitam em se mobilizar em torno dum mosquito.
sábado, 30 de janeiro de 2016
O cancro.
Já não posso ver nem ouvir a frase "perdeu a batalha contra o cancro", a cada vez que alguém morre por causa desta doença.
Qual batalha? Não há batalha nenhuma, nem uns que lutam mais que outros.
O cancro é uma doença de merda. Uma morte anunciada. Que sabemos que é quase certo que nos vai calhar, mais dia menos dia.
Como se vive com esta doença? Como se vive com o olhar de compaixão dos outros? Sincero mas, ainda assim, de compaixão. Como é quando é connosco?
Não sei, ainda não sei. Mesmo tendo estado muito próxima, nunca deu para falar abertamente com um doente. Evita-se o tema. Quem se atreve a perguntar?
Ainda se foge da palavra, domina o medo.
No início, aposta-se tudo na esperança.
Contam-se os dias, de tratamento em tratamento, sabendo que o prazo de validade existe. Aguenta-se como se estivesse tudo bem.
Quando os tratamentos começam a falhar, já não dá para perguntar nada porque só se deseja ter tempo. Mais tempo. Tempo com aquela pessoa de quem gostamos e que sabemos que vai partir.
Agarramos-lhe a mão e sentimos um calor bom, a vida ainda tão presente.
Quem está doente age com esperança, uma esperança imensa de sobreviver.
Cada vez mais débil, cada vez com mais dificuldade, cada vez pior, mas sempre procurando uma salvação.
Todas as pessoas próximas que perdi foram heróis. Morreram de pé.
Continuaram firmes sem desistir da vida. Até ao último minuto. Não sei como.
Não sei como.
Quando for comigo, prometo a mim mesma, nos meus pensamentos íntimos, não vou resistir.
Não me vou tratar, não vou entregar-me às experiências dos médicos, nem ficar sem cabelo por causa da quimio, nem deixar-me ficar prostrada, sem capacidade para ler ou escrever ou passear e apreciar a paisagem.
Quando for comigo e sentir que o meu corpo morre todos os dias um pouco mais, acabo com a vida.
Todos me dissuadem quando digo isto, avisando-me que, depois, quando somos mesmo nós a ter a doença, o instinto de sobrevivência agarra tudo.
Serei como os outros. Batalharei pela vida contra o cancro. Mesmo sabendo que perderei.
Nos últimos anos, morreram muitos dos meus melhores amigos, das "minhas" pessoas preferidas, com cancro.
Perdi grandes referências. Perdi grandes exemplos.
Perdi pessoas que marcaram a minha vida. Que a influenciaram. Que a determinaram, pessoal e profissionalmente.
Sinto uma falta imensa delas. Todos os dias.
Um telefonema que já não posso fazer. Uma opinião que já não posso ouvir. Uma partilha que já não tenho com quem partilhar. Um livro ou um filme que já não tenho com quem discutir. Um almoço ou um café que fica por tomar. Um abraço ou um beijo que já não posso dar.
O cancro é uma doença de merda que mata sem tréguas os bons, os melhores.
Não espera que fiquem velhinhos e sós, não. Ataca quem está no auge da vida, cheio de planos e afazeres. Interrompe sem cerimónia e destrói tudo.
Destrói a pessoa e os outros que amam essa pessoa. Os outros não conseguem ajudar, salvar, nem adiar nada. Assistem impotentes. Assistem com a alma a chorar e um sorriso de carinho nas conversas que sabem derradeiras. Com uma ligeira esperança no olhar de que talvez naquele caso a morte não aconteça. Pelo menos já. Mas acontece e é uma merda.
Espero a minha vez sabendo que a cada ano somado à vida me aproximo mais dele.
Onde vai ser e quando?
Não tenho especial medo. Só não quero sofrer tanto como todas estas "minhas" pessoas sofreram.
Sei que a ciência evoluiu muito. Que há casos de sucesso. Há, eu própria conheço alguns. Que se caminha para a cura, para uma solução.
Mas hoje a sensação que fica, quando se contacta de perto com a doença, do ponto de vista do doente, no terreno, é a imensa impotência perante a força avassaladora destas células.
O que fica é a imensa solidão do doente.
A imensa impotência da família e dos amigos.
O que fica é a promessa certa do fim.
O cancro é mesmo uma merda!
Qual batalha? Não há batalha nenhuma, nem uns que lutam mais que outros.
O cancro é uma doença de merda. Uma morte anunciada. Que sabemos que é quase certo que nos vai calhar, mais dia menos dia.
Como se vive com esta doença? Como se vive com o olhar de compaixão dos outros? Sincero mas, ainda assim, de compaixão. Como é quando é connosco?
Não sei, ainda não sei. Mesmo tendo estado muito próxima, nunca deu para falar abertamente com um doente. Evita-se o tema. Quem se atreve a perguntar?
Ainda se foge da palavra, domina o medo.
No início, aposta-se tudo na esperança.
Contam-se os dias, de tratamento em tratamento, sabendo que o prazo de validade existe. Aguenta-se como se estivesse tudo bem.
Quando os tratamentos começam a falhar, já não dá para perguntar nada porque só se deseja ter tempo. Mais tempo. Tempo com aquela pessoa de quem gostamos e que sabemos que vai partir.
Agarramos-lhe a mão e sentimos um calor bom, a vida ainda tão presente.
Quem está doente age com esperança, uma esperança imensa de sobreviver.
Cada vez mais débil, cada vez com mais dificuldade, cada vez pior, mas sempre procurando uma salvação.
Todas as pessoas próximas que perdi foram heróis. Morreram de pé.
Continuaram firmes sem desistir da vida. Até ao último minuto. Não sei como.
Não sei como.
Quando for comigo, prometo a mim mesma, nos meus pensamentos íntimos, não vou resistir.
Não me vou tratar, não vou entregar-me às experiências dos médicos, nem ficar sem cabelo por causa da quimio, nem deixar-me ficar prostrada, sem capacidade para ler ou escrever ou passear e apreciar a paisagem.
Quando for comigo e sentir que o meu corpo morre todos os dias um pouco mais, acabo com a vida.
Todos me dissuadem quando digo isto, avisando-me que, depois, quando somos mesmo nós a ter a doença, o instinto de sobrevivência agarra tudo.
Serei como os outros. Batalharei pela vida contra o cancro. Mesmo sabendo que perderei.
Nos últimos anos, morreram muitos dos meus melhores amigos, das "minhas" pessoas preferidas, com cancro.
Perdi grandes referências. Perdi grandes exemplos.
Perdi pessoas que marcaram a minha vida. Que a influenciaram. Que a determinaram, pessoal e profissionalmente.
Sinto uma falta imensa delas. Todos os dias.
Um telefonema que já não posso fazer. Uma opinião que já não posso ouvir. Uma partilha que já não tenho com quem partilhar. Um livro ou um filme que já não tenho com quem discutir. Um almoço ou um café que fica por tomar. Um abraço ou um beijo que já não posso dar.
O cancro é uma doença de merda que mata sem tréguas os bons, os melhores.
Não espera que fiquem velhinhos e sós, não. Ataca quem está no auge da vida, cheio de planos e afazeres. Interrompe sem cerimónia e destrói tudo.
Destrói a pessoa e os outros que amam essa pessoa. Os outros não conseguem ajudar, salvar, nem adiar nada. Assistem impotentes. Assistem com a alma a chorar e um sorriso de carinho nas conversas que sabem derradeiras. Com uma ligeira esperança no olhar de que talvez naquele caso a morte não aconteça. Pelo menos já. Mas acontece e é uma merda.
Espero a minha vez sabendo que a cada ano somado à vida me aproximo mais dele.
Onde vai ser e quando?
Não tenho especial medo. Só não quero sofrer tanto como todas estas "minhas" pessoas sofreram.
Sei que a ciência evoluiu muito. Que há casos de sucesso. Há, eu própria conheço alguns. Que se caminha para a cura, para uma solução.
Mas hoje a sensação que fica, quando se contacta de perto com a doença, do ponto de vista do doente, no terreno, é a imensa impotência perante a força avassaladora destas células.
O que fica é a imensa solidão do doente.
A imensa impotência da família e dos amigos.
O que fica é a promessa certa do fim.
O cancro é mesmo uma merda!
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