quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Eleições.


Mais uma vez, os portugueses optaram pelo conservadorismo, pelo garantido e conhecido, não arriscando mudar. 

Faltam só dez anos para voltarem a ter outra oportunidade. Muitos não votam. Nem neste nem naquele, marimbam.
 
A campanha e o dia das eleições só é vivido por mais ou menos metade.


A tangibilidade de Marcelo conquistou. Trabalhada e consolidada ao longo de anos através da televisão, foi entrando nas nossas vidas sem pedirmos, o homem com defeitos e qualidades. Como nós.

Antes teria sido possível mas, depois destes annus horribilis feitos de gelo, indiferença e desprezo, foi muito mais fácil ganhar com este perfil. 


Quem poderia realmente vencer Marcelo? Guterres? Ou apenas Tony Carreira como alguém escreveu por aqui?


A campanha foi desprovida de interesse apesar de alguns personagens participantes parecerem figuras de banda desenhada e outros terem mais conteúdo. Que tentaram vender. Mas realmente, quantos querem saber, conhecer o conteúdo?


Voltamos às nossas vidas. Realmente, ninguém está demasiado chateado. 

A imprevisibilidade do eleito vai animar os dias até assentar e verificarmos que tudo ficará mais ou menos na mesma. 

Apesar de tudo, sem Cavaco. O que já é muito nos dias que correm.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Perdas.

Acordo mais cedo, está nevoeiro e chove. Foi assim toda a noite. O sono não foi profundo, fui ouvindo a chuva cair, bater algures.

O tempo combina com a tristeza destes dias. Feitos de perdas.


O cancro, o maldito cancro, continua no seu caminho de destruição. Cada vez que me ligo, há mais uma morte de gente conhecida. 


Outros, ilustres, não resistem à idade avançada,mas aí é a natureza a funcionar.
Não há vida eterna por aqui.


O que chateia realmente é ter a sensação que a morte só leva os bons.
A morte cada vez mais banalizada no mundo. Quando não é próxima. Mais um ataque contra jovens, contra a educação, contra a liberdade, levado a cabo por assassinos talibans, no Paquistão. Mais um.


Estou a ler Submissão, do Michel Houellebecq. Está lá tudo. Esta sociedade...


Em Davos, os ricos minoritários donos disto tudo, terão batido palmas a Leonardo Di Caprio quando discursou ontem? Ouvirão as palavras de Francisco para não esquecerem os pobres?


Quem pensaria, há poucos anos, que estaríamos, no século XXI, a discutir a desigualdade, qual Idade Média?

domingo, 17 de janeiro de 2016

15 Janeiro 2016

Mais um ano que passou. Veloz e cheio de acontecimentos que, mais uma vez, mudaram a minha vida. 

O "núcleo duro" manteve-se, como atesta a foto tirada ontem à noite. Que assim seja por muito tempo.
Não foi assim para todos. O António partiu nesta mesma semana de Janeiro, deixando uma saudade imensa e um vazio nas nossas vidas. 
Que o tempo, sempre o tempo, ajudará a apaziguar, esperamos, ou sabemos. 


Por enquanto, ainda não é assim. Fizemos um esforço para sorrir para a fotografia.
Quem a tirou, reentrou na minha vida este ano, inesperadamente, alterando-me os planos de independência e, devagarinho, criando-me a esperança na possibilidade de uma vida a dois, tranquila e feliz. 


Vamos ver o que este 2016 nos reserva depois dum começo tão doloroso.
O estado do mundo não anima e eu não sei viver sem sentir as aflições dos outros, sem me revoltar com as injustiças ou seguir indiferente face à miséria, ao totalitarismo, à guerra, ao mal. 
Não consigo estar optimista. 

Resta desejar muito e agir para que a vida dos que estão à nossa volta seja boa, haja tolerância e progresso. Resta recomeçar.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Mais um ano.



Há dois meses que não escrevo aqui. Todos os dias, ou quase todos, me lembro de assuntos e componho frases que incluiria num texto sobre o tema do momento mas que depois não consigo concretizar, por falta de disponibilidade para o fazer ou... simples falta de tempo... ou talento.

O tempo. O tempo que corre sempre e que não conseguimos parar. O tempo que não dá para tudo e não volta atrás. Quem não o sabe?

Há alturas em que sentimos mais essa voracidade, a velocidade do tempo, indiferente à vida. Indiferente às vidas que se vão ou se anunciam ir.

O tempo. Chegamos aqui, último dia de 2015. Já?! Como foi este ano? Caramba, foi um ápice! O tempo correu muito mais veloz ainda. Convinha que fosse mais lento. No mínimo.

O tempo do ano. É dia 31 de Dezembro e a tristeza habitual do dia invade-me. 
Sempre me invadiu, desde que me lembro. A sensação de infelicidade à meia-noite, a obrigação de brindar e sentir-me alegre, a beber champanhe e a comer passas, ambos de que não gosto. 

Esta tristeza está reforçada este ano por uma perda anunciada que me dilacera a alma e faz ter ainda menos vontade de festas e festejos. 

O tempo que não volta. O tempo que não volta para usufruir com as nossas pessoas queridas. E não era nada disto que queria escrever. 

2015 foi tão cheio de acontecimentos e, no entanto, releio o que escrevi exactamente há um ano e tudo se mantém não só actual como pior (refugiados, guerra, terrorismo). 

No meu mundo restrito, foi um ano marcante, de definição da minha situação profissional, de consolidação, de reencontro com um amor antigo que me tem permitido viver momentos muito felizes mas também um ano marcado pela dor da perda...

Cada vez mais, me importam as coisas simples do dia-a-dia. Ter saúde, as pessoas que amamos e nos fazem bem, o meu filho, os amigos féis, os valores humanistas e da luta contra a desigualdade, contra a guerra e a crueldade, pela justiça e pela paz.

É tudo tão simples, tão dito e redito, mas tão difícil de alcançar. Bom Ano Novo!




sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Letargia outonal.


O Outono na natureza é lindo. Ainda tenho os olhos cheios das cores douradas dos castanheiros que bordejam os estreitos percursos de camponeses e pastores do vale de Loriga. A romper por entre o verde fechado da vegetação, um sol ténue quase aquece os corpos competindo com o aquecimento provocado pelo esforço das subidas - e descidas - acentuadas daquelas paragens.

Foi apenas há uns dias. 

Não chegou para cortar a tristeza do fim das tardes de Outono na cidade. Ainda que recorra à varanda para inspirar os restos do ar morno do dia. Há sempre um filtro que reduz a luz, um cinza claro no ar, uma falta de definição.

Quando o dia é em casa, piora. Mesmo num dia sem nuvens, às cinco e pouco é preciso acender a luz. Lá fora está tudo esbatido, o sol que já se foi, a noite que ainda não veio. Vai aumentar a conta da electricidade. Tento aguentar ao máximo sem candeeiros acesos mas não dá. Fica frio. E tenho trabalho. 

Resisto à melancolia que se demora. Oxalá venha já a noite, a hora do jantar, o serão e a cama para chegar rápido a outra manhã, a outro recomeço. Apesar de tudo, poderá ter algum sol.

Vou fazendo o trabalho, assegurando o principal. Sem falhar o essencial. Penso em como nunca me baldei. E se fosse hoje? Estou quase a acabar "Flores" do Afonso Cruz. Já o podia ter acabado mas faço render com medo do vazio que se vai seguir.  

Volto à questão. Porque não me deito no sofá a ler? Ninguém precisa de saber. 
A não ser o meu sentido do dever. 
Que raio! Incutido desde tão cedo. Nunca páro na execução de alguma coisa. Há sempre uma tarefa, uma missão.  

Em miúda, nunca dormi até tarde porque havia sempre compromissos, os escuteiros ou as amigas, ou brincar, ou estudar. Depois, os anos da política, depois a faculdade e o casamento. Com filhos já não dá. E depois trabalho e trabalho. Agora, há que andar para não engordar mais. Agora há que andar porque gosto. 

O mundo não está para sofás. Tanto sofrimento e perdição. Nada me faz desacreditar na possibilidade de conseguir melhorá-lo. Não dá para não intervir. Nunca me convenceram que a força não se faz da união de muitos. 

Quando a tristeza do escuro cai, penso como seria se estivesse a caminhar, esgotada e gelada, pés na lama, contra a morte e o fim, com fome, sem chá de roibos para acalmar o estômago, nem casa de banho para ajudar, nem água por causa das pedras nos rins, sem abrigo nem futuro. E calo-me.



O mundo não está para sofás nem longe nem por aqui. 

Respondo a um inquérito online. Se sou feliz ou infeliz, onde estou de 1 a 10? Clico no 8. Mas hesito. Devia ser 6 ou 7... Penso no sofrimento à minha volta. Não só no distante mas também no próximo, dos nossos, dos que amo e fazem parte da minha vida. 
É possível o nosso eu ser feliz apesar do mundo. Sim, parece que sim. 

Já é noite cerrada. Felizmente tenho que sair. No aeroporto, esta letargia incómoda passa-me. Tanto movimento. Tantas luzes. Tanta gente. Tanta mistura. Nada de melancolias. Uma animação muito mais próxima da agitação política destes tempos.

O meu amor regressou bem. O carinho dum beijo e dum abraço acalmam estes males.
Afinal, sou tonta por ousar a tristeza quando sou mais que privilegiada. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Fazendeiros.

O Facebook tem disto. Nem sei como, por acaso, fui ter a um post meu de Abril de 2013. Parece tão distante este tempo. Passaram dois anos e meio. O que a minha vida mudou neste tempo. Nada é nunca definitivo. Todos sabemos mas, às vezes, esquecemos.

O foco dos dias de hoje está longe, longe destes outros dias passados numa vila de gente do campo, fazendeiros. Ficará sempre a memória boa, boa, boa da casinha que tive, do sítio que habitei e fiz meu. 



A 8 de Abril de 2013 escrevia:
Noutro mundo, aqui tão perto mas tão longe, gente simples numa vila do vale do Tejo, celebra de dois em dois anos a Festa dos Fazendeiros. Não conheço outra igual. Volta-se ao passado agricola e rural, vivido por toda a gente da terra. Enfeitam-se as portas e janelas, abrem-se os portões de adegas escondidas, veste-se como há cem anos, come-se caspiada. Montam-se os cavalos e põem-se chapéus antigos. Há foguetes. As crianças brincam felizes. Os de fora fotografam perdidos de tanto ver. Encontram-se velhos conhecidos, convidam-se os amigos. Para a próxima o farei. Há dois anos fui surpreendida com este dia. Este ano decorei a porta e vim para a rua. Para a próxima, estão todos convidados. O sol aqueceu esta explosão de vida. Foi uma tarde boa em que a recordação de tempos mais simples fez sonhar com a possibilidade de ser feliz.

domingo, 11 de outubro de 2015

Assumir.

Ainda não apetecem os dias cinzentos, de chuva e vento. Talvez por estarem demasiado quentes. O que se transpira!

No entanto, apetece rever a roupa do Inverno passado, relembrar casacos e camisolas, comprar coisas novas (para quem pode), mais da moda. 

Ah, e os sapatos da estação? Igualzinhos aos dos anos 70, ou 80, ou 90. Porque não os guardei?

Guardo sim, há muitos anos, uns 20, peças de roupa que foi especial, de excelente qualidade, para um evento particular, que vesti duas ou três vezes. Todas as estações as olho, não experimento e continuo a guardar. Para um dia em que volte a ter cintura fina e menos uns largos quilos. 


A semana passada recuperei umas camisas sedosas do início dos anos 90 que, na época, me ficavam larguíssimas mas agora estão óptimas e na moda. 

Foi neste contexto que resolvi experimentar as tais peças muito boas que andam a ocupar os armários há anos e anos. De que nunca me desfiz. 

Finalmente, resolvi assumir que vai ser difícil voltar a ter menos 10 ou 15 quilos. Que tenho que usar medida L e não M ou S. Que se voltar a acontecer será muito provavelmente por estar doente. Que não sou suficientemente vaidosa para prescindir de  uma boa refeição e um copo de vinho. Ou dois. 

A maior parte das coisas não passava nos braços, no peito, na cabeça, tendo corrido o risco de ficar entalada na minha própria roupa. Meti tudo num saco para dar e ganhei espaço nos armários.

Um recomeço. Lembrei-me da política e dos partidos. É melhor assumir que nada será como antes. 

Vivemos no meio de novas análises e prognósticos, dominados pelos vaticínios de fim deste e daquele como se tudo estivesse igual, como se nada tivesse mudado. Mas não é assim.

A sociedade e os interesses das pessoas mudaram e impõem estruturas diferentes. Situações diferentes. Alternativas. 

Não vai mais haver espaço para as organizações tradicionais, os partidos como foram até hoje. Tal como eu tenho andado a fugir da mudança do meu próprio corpo, muitos protagonistas parecem andar ainda em fuga. 

domingo, 4 de outubro de 2015

A Catarina.

A Catarina era mãe de uma grande amiga minha. Morreu. A sua morte era esperada, serenamente esperada, depois de muito sofrimento do corpo e da alma. Não devia ser possível que o fim fosse tão doloroso, já basta o próprio fim.

Eu gostava da Catarina, ríamos juntas. O sentido de humor é uma característica daquela família, daquelas mulheres, mãe e filha. 

O humor ajuda muito a superar as adversidades. Sei isso pelo meu pai. Rirmos de nós e da nossa situação. Sobretudo quando é agreste e rir é ainda mais difícil. Alivia.

A Catarina nunca se queixava apesar dos anos de diálise, braços furados, veias inchadas, dores fortes no corpo, mau estar... E a terrível dependência para os rins funcionarem. Tudo suportado com um sorriso. Sem dúvida que para tal contribuiu a minha amiga e a sua capacidade de dar, cuidar, rir e fazer dum momento de angústia uma festa. 

A Catarina não ficava em casa. Apoiada numa bengala ou numa cadeira de rodas, havia sempre programa organizado pela filha.

Há meses, no começo do Verão, a minha amiga juntou família e amigos mais próximos, num domingo luminoso de Junho, sobre o pretexto duma caracolada para a mãe. 

Realmente, foi uma despedida mas ninguém no momento se lembrou disso. 

A Catarina lá estava, sentada à sombra duma frondosa árvore, rodeada de amigos.
A minha amiga conseguiu empurrar a cadeira de rodas da mãe e dar voltas ao jardim, brincando como se de uma criança se tratasse. 

A Catarina refilava mas alinhava, sabemos que cheia de dores.

Tempos depois desistiu da diálise, não querendo suportar mais aquele tormento. Fui vê-la, conversámos. Rabujou dizendo que a filha estava cada vez mais endiabrada. Ela, muito afeliada (um termo do nosso Algarve comum). Nesses dias só a morfina permitia aguentar.

Por fim, a Catarina morreu. Durante a noite. Sem ruído, com o seu belo sorriso de mulher bonita, pequenina, do Sul. 

A Catarina teve a melhor filha do mundo, a minha amiga. Não conheço mais dedicação e atenção, mais altruísmo, mais bondade. Melhor fim de vida. 


No velório, lá estava a Catarina, sossegada. A minha amiga com o seu olhar e sorriso doce, enternecida com a mãe. Também ali. Rodeada de mulheres.

Era um domingo de Agosto. Dois meses depois do outro domingo, também este foi de sol e calor abrasador. Fiquei na sombra da porta da capela a observar enquanto rezavam um terço sob a vigilância de uma imagem de outra mulher imaginada santa. 

Eu não rezo e, nestes momentos de emoção, não me assalta qualquer fervor religioso antes repenso sobre a injustiça de Deus e da sua doutrina.

A minha amiga tem uma fé inabalável e acredita que encontrará a mãe mais tarde, um dia, no reino dos céus ou noutro espaço qualquer belo e tranquilo.

A vida destas mulheres é um exemplo de afecto e vontade que contradiz o comportamento da sociedade actual para com os velhos, os pais e os familiares ou amigos na hora da doença, do sofrimento, da morte. 

Não tenho a capacidade de dar da minha amiga mas quero muito seguir o seu exemplo quando um dia for necessário. Serei capaz?