Pela hora do almoço, talvez pelas duas, o ar começa a ficar cheio de flocos de algodão dos choupos. Como há algum vento, esta "neve" entra por todo o lado, cobre a rua, a varanda, prende-se nas plantas, corre pelo chão. Não dá para tomar café na varanda.
Parece que são duas a quatro semanas disto. É Primavera.
É bom morar rodeada de árvores. Ainda por cima, árvores que vi crescer.
Envolvem o prédio, dum lado e doutro, ultrapassando-o em altura. Cada estação tem as suas coisas, sombra demais no Inverno, frescura e mosquitos no Verão, pólens na Primavera, folhas douradas no Outono.
Às vezes, os ramos dos pinheiros crescem batendo nas janelas e temos que esperar meses pela autorização municipal de corte. Quando há vento forte, convém não deixar o carro por perto.
A Primavera traz coisas, à semelhança dos pólens. Há uma descompressão quando acabam os dias escuros, frios e molhados do Inverno. Há sempre algo novo.
Há bocadinho, tocaram à porta. Era um vizinho dos antigos, de sempre, com o envelope de papel almofadado da revista Granta na mão. "Estava ontem na sua caixa de correio meio a sair, alguém podia tirar, resolvi guardar, aqui está".
Agradeci, feliz. Renovei a assinatura apesar dos cortes do último ano e meio. Entre gastar numa roupa qualquer e receber os quatro números da Granta, optei por esta.
Receber um novo número é sempre um momento feliz. Foi mesmo antes do almoço. O que permitiu leitura fresca. E que leitura!
O tema do nº 5 da revista é "Falhar melhor", uma expressão de Beckett. Como diz Carlos Vaz Marques, o director, esta expressão "é de tal modo poderosa, que corre o risco de vir a banalizar-se".
Revendo as palavras do escritor irlandês que serviram de mote para os textos desta revista: "Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor".
Mesmo a calhar. Tentar outra vez é comigo. Agora. Falhar também.
Durante o almoço, leio o primeiro artigo, num ápice. E com um nó. "Morrer é mais difícil do que parece", do Paulo Varela Gomes. A situação dele. Agora. Que texto incrível, forma e conteúdo. A força de alguém na disputa entre a vida e a morte. A realidade do autor.
Fico a pensar, durante o café, enquanto olho os flocos de algodão na rua. Incontornáveis. Como a morte.
A vida está em pleno na força da rapariga que vem limpar a minha casa uma vez por semana. Despede-se e parte de bicicleta. Comprou uma das minhas bicicletas. Acordámos um valor, pago em serviço durante umas semanas.
Sorrio perante a alegria dela. Fico com a sensação de a ter influenciado nesta opção. E assim, vou revendo a bicicleta que estava parada, sem uso.
Recomendo cuidado, repito instruções. Vejo-a pedalar rua abaixo.
Volto à cozinha. Na TSF, oiço os Sinais do Fernando Alves. Voz boa, temas acutilantes.
Sento-me para escrever. Hoje é o dia em que o Acordo Ortográfico se torna obrigatório. Não me passa pela cabeça aplicá-lo. Pelo menos, na minha escrita privada.
A rua está coberta de branco. Penso em tentar outra vez sabendo que falhar de novo é sempre certo. Sabendo também que há sempre a hipótese de resultar.
Mesmo a propósito, faz hoje 50 anos que foi gravado (I can't get no) Satisfaction.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Lá fora.
![]() |
| Desenho de José Mateus |
Lá fora a minha rua está branca de algodão que o vento espalha.
Tomo café sentada na sala e espanto-me com o manto branco que cobre tudo. Estamos em plena primavera e as árvores em plena vida.
Há quem espirre sem fim, eu só me aflijo com a hipótese do interior da casa ser também colonizado pelos farrapos de algodão branco que os plátanos espalham.
O dia está morno, a passar de azul para um cinzento triste.
Tão triste como a notícia da morte. A morte duma pessoa conhecida, de quem gostava, duma mulher que admirava. Um choque quando soube. Tinha deixado de a "ver" no Facebook. Como outras pessoas que desaparecem do nosso ângulo de visão e na voracidade dos dias, nem reparamos. Só tarde demais.
Sempre o mesmo raio de doença que parece seleccionar os bons, só os bons. Que merda!
Fiquei muito triste, a tarde ficou estranha. Senti um arrepio profundo, um alerta. Um alerta para não desperdiçar a vida.
Horas antes, tinha recebido uma mensagem desesperada duma amiga. Uma mensagem de desistência perante a impossibilidade de conseguir trabalho. O optimismo e a alegria tão seus a definharem, a darem lugar à tristeza, à impotência.
A impotência para fazer algo, um nó em procura duma solução, de ajuda, o que fazer?
A tarde cada vez mais nublada. Uma dor no peito. Uma revolta isolada.
| Fotografia de cat |
Somos o que escolhemos ser, diz o primeiro-ministro numa biografia de si.
Tornou-se um homem feio, grosso. Nem o fato de Verão, cinza claro, ajuda. Inauguração de época. Troca com o azul escuro do Inverno. Mau corte.
Penso numa velha questão. A aparência reflecte o ser, o comportamento, a atitude, a postura? Nem sempre mas quase sempre. Neste caso, sem dúvida.
Penso na quantidade de sacanas que detém o poder neste país e noutros, indiferentes ao sofrimento de tantos, defendendo que o país está melhor, ainda que cheio de pessoas com a vida desfeita.
Ignoram os factos do alto dos seus fatos. Ou será tudo fato agora?
Cada vez conheço mais pessoas com a vida destruída, pessoas honestas, que querem apenas trabalhar, ganhar para comer, para ter o mínimo, pessoas capazes de dar, que alguém contabilizou como destinada a não receber.
No outro dia à noite, numa cerimonia de prémios para jovens talentos, mais de um terço dos vencedores estava fora do país. Nas várias categorias. A sua ausência do palco reflecte o suposto país melhor. O trabalho e a criatividade destes jovens fazem acreditar na capacidade humana de resistir e encontrar caminhos alternativos.
Mas há sempre os que não são excepcionais, ou apenas não tiveram a oportunidade de o ser. A maioria. Que não se ouve.
Somos o que escolhemos ser: um empresário corrupto, um político indigno, um subserviente arrogante, um inculto sem espelho, um mentiroso militante, um gestor sem escrúpulos. São estes os modelos que o poder defende?
Tudo indica que sim.
Lá fora a vida continua, o ar branco, nem frio nem quente, indiferente a quem passa.
Uns espirram, alergia ao rubro.
Outros sucumbem, face à desesperança.
Outros morrem, simplesmente.
sábado, 25 de abril de 2015
Viva o 25 de Abril! Viva a Liberdade!
Mais do que nunca, esta data traz à memória a felicidade colectiva da esperança numa vida melhor, o gosto da liberdade e a imensa oportunidade da democracia que este dia trouxe.
Tenho no meu quarto um poster com o quadro de Helena Vieira da Silva, "A poesia está na rua".
Bem de frente para a cama, deixo-me dormir com esta imagem que representa a felicidade da liberdade. Para recordar, nos momentos mais negros, que é sempre possível lutar.
Como canta Zeca Afonso, "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não".
Talvez, mais do que nunca, passados quarenta e um anos sobre o dia 25 de Abril de 1974, é necessário lembrar e dizer aos mais novos, que nasceram depois, como era o dia-a-dia antes.
Quem o viveu, saboreou a tristeza da ditadura, a opressão individual e colectiva, a prepotência, o pensamento único, a pobreza do povo, a desigualdade, a estratificação social, a proibição de livros e música, a proibição!
Quem o viveu, não pode deixar de sentir, hoje, um imenso retrocesso.
Parece ser possível voltar à indignidade desses tempos.
Está nas nossas mãos impedi-lo! Está nas nossas mãos dizer não!
Viva o 25 de Abril! Viva a liberdade!
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Meritocracia só para mulheres?
Muitas vezes ouvi a resposta “se tiver o mesmo mérito” quando questionei
gestores de empresas sobre o facto de apenas os homens "subirem" e
acederem a lugares de topo.
Nada me deixa mais indignada pois é uma falácia.
Provem o que provem, tenham desempenho muito acima da maioria dos homens,
na hora da verdade, as mulheres não passam das chefias intermédias.
Lembro sempre o que uma colega me disse, há mais de vinte anos, quando eu,
ainda jovem, não reflectia seriamente sobre o tema: só haverá igualdade quando
muitas mulheres medíocres estiverem nas administrações, como acontece com os
homens.
Durante muito tempo pensei nisto como sendo um exagero. Mas, à medida que
fui evoluindo na minha carreira profissional, percebi que é absolutamente
verdade.
A prática da chamada meritocracia como método que,
supostamente, igualiza as oportunidades de todos numa organização, promovendo
as pessoas com base nas suas capacidades e no seu desempenho, e não pela
posição social, género ou grupo de influência, foi uma tendência na gestão nas
últimas décadas.
Aos poucos, tornou-se cada vez mais um palavrão, apenas usado nas
ferramentas de avaliação de desempenho, sem consequências.
No caso da mulher, a meritocracia tem sido sobretudo um pretexto para
evitar a sua promoção para os mais altos cargos, tal como para rejeitar a
introdução de quotas que obriguem a criar igualdade entre homens e mulheres nas
organizações.
De repente, passados todos estes anos, que pareciam de ascensão no caminho
para a paridade, os últimos números mostram um imenso retrocesso.
Em Portugal, serão precisos setenta anos para se chegar à igualdade de salários entre homens e mulheres. 70 anos! Quase mais
um século!
Parece que actualmente, não se vêem mulheres convidadas para falar em
conferências, seminários, debates ou eventos de negócio, de topo. E quantas
comentadoras de economia aparecem nos canais de informação? As poucas que
existem são excepções. Que me lembre, são quase sempre jornalistas, como é o
caso de Helena Garrido, directora do Jornal de Negócios.
A realidade parece estar pior para todos os que não são alinhados, que não
pertencem a nenhum grupo, ou lobby, que são independentes, que só
vivem do seu trabalho, do seu percurso e do seu desempenho.Tudo piora quando,
neste grupo, se é mulher.
A actual situação das empresas e da sociedade empurra cada vez mais pessoas
para outros modelos de trabalho. Como trabalhar de modo autónomo, criando o seu
próprio negócio, como freelance.
Por cá não existem números mas, nos Estados Unidos, sim, relativos a 2014.
Estes mostram que há mais mulheres (53%) do que homens a trabalhar e a ter
sucesso como freelance. Muito interessante.
Como se escreve no artigo "Why are more women than men freelancing?", de Sara
Horowitz para a Fast Company, a maioria das mulheres chega à
conclusão que a estrutura de trabalho tradicional simplesmente não lhes
interessa, com as suas mais de 40 horas semanais, os clubinhos, as disparidades
na remuneração e nas oportunidades.
Por isso, começam a abandonar os modelos tradicionais e a procurar novas
formas de se afirmarem no mundo do trabalho, montando os seus próprios
negócios. Tirando todo o partido das tecnologias disponíveis, podem gerir a sua
agenda, do modo mais conveniente para conciliar trabalho, casa e família,
e concentrar-se no trabalho que consideram gratificante, determinando a sua
própria remuneração. Segundo este artigo, estas mulheres estão a viver o futuro
agora.
Ao ler isto, senti que também em Portugal esta é a tendência. Talvez por
ser a minha opção e a de muitas outras mulheres que conheço.
Esta é também uma maneira de dar a volta a um sistema que não reconhece o
valor das mulheres no trabalho. E de à falsa meritocracia, só para mulheres,
dizer não.
sábado, 4 de abril de 2015
Trilhos urbanos.
Sexta-feira santa.
O bom num feriado à sexta-feira é que acordamos com aquela sensação de férias. O tempo morno aumenta a noção de lazer. Abrir a janela e não estar nem vento nem frio nem calor.
Quando era miúda, e em parte da adolescência, estes três dias eram tramados por causa da morte de Cristo.
Na altura, as três da tarde da sexta-feira santa eram um momento de temor.
Fazia-se silêncio lá em casa. A minha mãe e avó rezavam ou recolhiam-se com ar grave. Era supostamente a hora em que Jesus Cristo morreu na cruz.
Para mim, tudo estava associado ao roxo e, por sua vez, à morte e ao medo. Era como se uma nuvem muito escura passasse por ali, ameaçadora. Julgo que era apenas o meu medo do veludo roxo que o Senhor levava na procissão dos passos, as lágrimas de sangue, a coroa espetada na carne, os olhos de dor.
Para este estado de alma, muito contribuía o facto de esta ser uma época em que só se podia comer peixe o que, para mim, nessa idade, era um grande tormento. Peixe, roxo, morte, medo.
A religião a dominar pelo medo grande, pelos medos pequenos.
No sábado, respirava-se. Jesus morto e sepultado já não ameaçava ninguém. Podia-se brincar sem problemas.
No domingo, ressuscitava e havia almoço festivo, amêndoas, folar de canela com ovo, feito pela tia Zézinha, tão bom. Nunca mais comi igual.
Não me lembro de alguma vez ter sido muito convicta com a cena da ressurreição. Nunca percebi como Jesus acordava dois dias depois, todo fresquinho, vestes lavadas e brancas e ascendia ao céu. Que pai (Deus) tão estranho, lembro-me de pensar.
Depois, perdi a fé, deixei de praticar e estes dias, à conta da religião dos outros, foram durante muitos e muitos anos, de férias na praia, no Algarve, de sol e mar, de primos, de intervalo. Essenciais para aguentar até ao Verão.
Hoje, continuo descrente, talvez muito mais. Por isso, estes dias são de lazer e fazer.
De manhã, peguei na bicicleta e saí para uma volta pequena. Pensei ir até ao Saldanha e voltar para trás mas acabei por ir andando, descobrindo isto e aquilo. Um dia destes dou-me mal por tanto olhar à volta...
Apesar do tempo nublado, a vista do Parque Eduardo VII é sempre magnífica. O Jardim Amália Rodrigues estava cheio de gente. Um casal italiano pediu-me para lhes tirar uma foto.
Tinha realmente saudades de pedalar, levemente. Para além de ver a cidade, pedalar é muito bom para pensar.
Depois do dia de ontem, em que morreu o Manoel de Oliveira, aos 106 anos, e o economista José Silva Lopes, aos 82, duas personalidades marcantes para o nosso país, cada um na sua área, pensei em como viver mais de cem anos é uma excepção que confirma a regra.
A longevidade de Oliveira sempre me lembrou Saramago quando, no seu "As Intermitências da Morte", se pára de morrer. Não estamos preparados para tal acontecimento. Gostaríamos de não morrer?
Na história de Saramago, foi o caos quando as pessoas deixaram de morrer.
Toda a sociedade, a vários níveis, está organizada para o fim. Deixar de existir esse ponto final seria muito complicado, como se percebe no livro, um dos meus preferidos.
Na febre dos comentários à morte de Manoel de Oliveira, algumas pessoas disseram que não imaginavam a morte do realizador. Como não?
Fui pedalando e pensando nestas coisas e nos acontecimentos que marcam os nossos dias.
Ontem, morreram 148 jovens numa universidade no Quénia, indiscriminadamente atingidos a tiro por um grupo islamita. Tantos como as pessoas mortas no avião feito despenhar nos Alpes por um louco suicida.
Ontem, o mundo conseguiu um grande feito para a paz, com a assinatura do acordo sobre o programa nuclear do Irão, prevenindo o uso de armas nucleares. Assinado entre os Estados Unidos e o Irão, algo improvável. Deve-se e Obama, que resiste à pressão de Israel.
Na luta entre o mal e o bem, o homem morto na cruz há dois mil anos, pela salvação dos homens, não parece ter alcançado esse objectivo mas antes contribuído para o seu contrário.
Voltei para casa por caminhos novos, trilhos urbanos.
O bom num feriado à sexta-feira é que acordamos com aquela sensação de férias. O tempo morno aumenta a noção de lazer. Abrir a janela e não estar nem vento nem frio nem calor.
Quando era miúda, e em parte da adolescência, estes três dias eram tramados por causa da morte de Cristo.
Na altura, as três da tarde da sexta-feira santa eram um momento de temor.
Fazia-se silêncio lá em casa. A minha mãe e avó rezavam ou recolhiam-se com ar grave. Era supostamente a hora em que Jesus Cristo morreu na cruz.
Para mim, tudo estava associado ao roxo e, por sua vez, à morte e ao medo. Era como se uma nuvem muito escura passasse por ali, ameaçadora. Julgo que era apenas o meu medo do veludo roxo que o Senhor levava na procissão dos passos, as lágrimas de sangue, a coroa espetada na carne, os olhos de dor.
Para este estado de alma, muito contribuía o facto de esta ser uma época em que só se podia comer peixe o que, para mim, nessa idade, era um grande tormento. Peixe, roxo, morte, medo.
A religião a dominar pelo medo grande, pelos medos pequenos.
No sábado, respirava-se. Jesus morto e sepultado já não ameaçava ninguém. Podia-se brincar sem problemas.
No domingo, ressuscitava e havia almoço festivo, amêndoas, folar de canela com ovo, feito pela tia Zézinha, tão bom. Nunca mais comi igual.
Não me lembro de alguma vez ter sido muito convicta com a cena da ressurreição. Nunca percebi como Jesus acordava dois dias depois, todo fresquinho, vestes lavadas e brancas e ascendia ao céu. Que pai (Deus) tão estranho, lembro-me de pensar.
Depois, perdi a fé, deixei de praticar e estes dias, à conta da religião dos outros, foram durante muitos e muitos anos, de férias na praia, no Algarve, de sol e mar, de primos, de intervalo. Essenciais para aguentar até ao Verão.
Hoje, continuo descrente, talvez muito mais. Por isso, estes dias são de lazer e fazer.
De manhã, peguei na bicicleta e saí para uma volta pequena. Pensei ir até ao Saldanha e voltar para trás mas acabei por ir andando, descobrindo isto e aquilo. Um dia destes dou-me mal por tanto olhar à volta...
Apesar do tempo nublado, a vista do Parque Eduardo VII é sempre magnífica. O Jardim Amália Rodrigues estava cheio de gente. Um casal italiano pediu-me para lhes tirar uma foto.
Tinha realmente saudades de pedalar, levemente. Para além de ver a cidade, pedalar é muito bom para pensar.
Depois do dia de ontem, em que morreu o Manoel de Oliveira, aos 106 anos, e o economista José Silva Lopes, aos 82, duas personalidades marcantes para o nosso país, cada um na sua área, pensei em como viver mais de cem anos é uma excepção que confirma a regra.
A longevidade de Oliveira sempre me lembrou Saramago quando, no seu "As Intermitências da Morte", se pára de morrer. Não estamos preparados para tal acontecimento. Gostaríamos de não morrer?
Na história de Saramago, foi o caos quando as pessoas deixaram de morrer.
Toda a sociedade, a vários níveis, está organizada para o fim. Deixar de existir esse ponto final seria muito complicado, como se percebe no livro, um dos meus preferidos.
Na febre dos comentários à morte de Manoel de Oliveira, algumas pessoas disseram que não imaginavam a morte do realizador. Como não?
Fui pedalando e pensando nestas coisas e nos acontecimentos que marcam os nossos dias.
Ontem, morreram 148 jovens numa universidade no Quénia, indiscriminadamente atingidos a tiro por um grupo islamita. Tantos como as pessoas mortas no avião feito despenhar nos Alpes por um louco suicida.
Ontem, o mundo conseguiu um grande feito para a paz, com a assinatura do acordo sobre o programa nuclear do Irão, prevenindo o uso de armas nucleares. Assinado entre os Estados Unidos e o Irão, algo improvável. Deve-se e Obama, que resiste à pressão de Israel.
Na luta entre o mal e o bem, o homem morto na cruz há dois mil anos, pela salvação dos homens, não parece ter alcançado esse objectivo mas antes contribuído para o seu contrário.
Voltei para casa por caminhos novos, trilhos urbanos.
sábado, 28 de março de 2015
O prazer do pequeno-almoço.
Não me lembro quando começou a ser um dos melhores momentos dos meus dias. Mas certamente há muito, muito.
O pequeno-almoço é um momento de absoluto prazer.
De preferência, sozinha. A ler ou a escrever. Ou só a olhar a rua, em frente, e a pensar.
É assim. Acordo sempre esfomeada. Basicamente, o meu primeiro pensamento do dia vai para o café e as torradas, sentada na mesa da cozinha, a ler.
Só prescindo deste momento em casos excepcionais. Uma viagem de madrugada em que é preciso apanhar um avião às cinco da manhã, o que evito. Ou uma pressa extraordinária. Ainda assim, não saio sem comer alguma coisa, sem beber café.
Fico furiosa quando alguém me interrompe. Despacho a pessoa, seja querida ou não, com uma desculpa qualquer para voltar ao meu lugar e continuar o pequeno-almoço.
Quando tinha a casinha, ficava à mesa, lá fora, ao sol, a mesa por levantar, a preguiçar.
Em Lisboa, o meu tempo matinal, para me arranjar e sair, tem que contar sempre com meia-hora para o pequeno-almoço sentado.
Tem que haver harmonia visual na mesa posta. Guardanapo a combinar com a loiça. Tem que haver estética.
Tenho uma chávena fixa. Escolhida para combinar tacto, sabor e quantidade. Depois outra para o segundo café. Sim, porque bebo sempre dois.
Na minha frente, nos actuais dias de semana, o ipad, onde navego pelas notícias do dia, respondo a mails leves e passeio pelo facebook.
Nos fins de semana, um livro. O livro do momento. Ou o jornal. Geralmente, ao domingo, a revista do Expresso que não tive tempo de ler no sábado.
Nos fins de semana, posso demorar sem culpa. Quando a minha mãe liga, já muito depois das dez, e pergunta o que faço, respondo "ainda no pequeno-almoço". Ela já sabe que é para desligar.
Hoje é sábado. Tenho programa, horas, o que já cria alguma pressão.
Ainda assim, há bocado, bebia o segundo café a ler "O planeta do Sr. Sammler" de Saul Bellow, o tempo a passar, e, de repente, pensei, quase com urgência: podem tirar-me tudo menos isto!
O pequeno-almoço é um momento de absoluto prazer.
De preferência, sozinha. A ler ou a escrever. Ou só a olhar a rua, em frente, e a pensar.
É assim. Acordo sempre esfomeada. Basicamente, o meu primeiro pensamento do dia vai para o café e as torradas, sentada na mesa da cozinha, a ler.
Só prescindo deste momento em casos excepcionais. Uma viagem de madrugada em que é preciso apanhar um avião às cinco da manhã, o que evito. Ou uma pressa extraordinária. Ainda assim, não saio sem comer alguma coisa, sem beber café.
Fico furiosa quando alguém me interrompe. Despacho a pessoa, seja querida ou não, com uma desculpa qualquer para voltar ao meu lugar e continuar o pequeno-almoço.
Quando tinha a casinha, ficava à mesa, lá fora, ao sol, a mesa por levantar, a preguiçar.
Em Lisboa, o meu tempo matinal, para me arranjar e sair, tem que contar sempre com meia-hora para o pequeno-almoço sentado.
Tem que haver harmonia visual na mesa posta. Guardanapo a combinar com a loiça. Tem que haver estética.
Tenho uma chávena fixa. Escolhida para combinar tacto, sabor e quantidade. Depois outra para o segundo café. Sim, porque bebo sempre dois.
Na minha frente, nos actuais dias de semana, o ipad, onde navego pelas notícias do dia, respondo a mails leves e passeio pelo facebook.
Nos fins de semana, um livro. O livro do momento. Ou o jornal. Geralmente, ao domingo, a revista do Expresso que não tive tempo de ler no sábado.
Nos fins de semana, posso demorar sem culpa. Quando a minha mãe liga, já muito depois das dez, e pergunta o que faço, respondo "ainda no pequeno-almoço". Ela já sabe que é para desligar.
Hoje é sábado. Tenho programa, horas, o que já cria alguma pressão.
Ainda assim, há bocado, bebia o segundo café a ler "O planeta do Sr. Sammler" de Saul Bellow, o tempo a passar, e, de repente, pensei, quase com urgência: podem tirar-me tudo menos isto!
terça-feira, 17 de março de 2015
Chuva.
Algo que nós, simples pessoas, já sabemos há muito e fomos dizendo no meio da turbulência dos muitos últimos anos.
Mas não deixa de ser divertido, se não fosse trágico para as nossas vidas, acordar com esta noticia das declarações do FMI.
Até parece que, apesar de toda a propaganda concertada do poder, os factos e os credores vão tirando o tapete e revelando as fragilidades que sabemos.
No mesmo noticiário, um qualquer rapaz secretário de estado, assim para o aflito, apelava à participação das empresas nos concursos a novos fundos europeus destinados aos velhos e vazios chavões "inovação, empreendedorismo e competitividade" não percebendo a moribundidade do sistema.
Esperamos que não aconteça mas prevejo que, à semelhança do passado, não tenhamos capacidade para utilizar devidamente esse dinheiro.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Domingo ateu.
Esta tarde fui a um debate sobre a liberdade de expressão e o trabalho dos cartoonistas, no Salão Ideal, por ocasião da estreia do filme "Os cartoonistas - soldados de infantaria da democracia", de Stéphanie Valloatto.
Não vi o filme, apenas ouvi o debate moderado por José Vítor Malheiros com a participação de António, André Carrilho, Luís Afonso e Sofia Branco.
Gostei muito de os ouvir, ali tão próximo, num primeiro andar no centro de Lisboa, porta aberta para qualquer um. Não ouve desacordos acalorados e os presentes deviam ser todos contra qualquer limite à liberdade de expressão. A religião e o ateísmo dos cartoonistas foi discutido como condição necessária para o sentido crítico do seu trabalho.
O que gostei mais foi da simplicidade e da abertura com que falaram. E de ter tido acesso a estes artistas pois, no fim, foi possível falar com eles.
Saí dali a pensar como as redes sociais facilitaram o acesso a estas pessoas, outrora impossíveis de alcançar para quem estivesse fora do meio.
Resolvi ir espreitar a vista de Santa Catarina para o rio e a cidade, no Adamastor.
O céu continuava cinzento mas mais claro e havia, como sempre por ali, muita gente na rua. Também muito lixo e muitas cagadelas dos queridos cãezinhos que toda a gente tem mas cujos resíduos não limpa.
Lá me safei, com dificuldade, de pisar "minas" e fiz as fotografias que a zona provoca. Por muito que se passe nos mesmos sítios de Lisboa, nunca é demais olhar, rever, descobrir, captar para guardar.
O céu do fim da tarde no inverno. O rio, sem vento, ao contrário de ontem. A margem de lá, tão nítida. A ponte, os barcos, os telhados, as ruas, os pombos.
De regresso à Rua do Loreto, decidi experimentar um pastel de nata na Manteigaria e descer até à Sá da Costa, agora alfarrabista ou algo parecido.
Não encontrei o que procurava, a Poética de Aristóteles. Mas trouxe um livro apropriado ao momento que vivemos e à tarde.
Que tem muito a ver comigo.
"Porque não sou cristão" do Bertrand Russell, uma edição de 1970, da Brasília Editora, por 5€.
O livro reúne textos escritos pelo filósofo, ao longo da sua vida de 97 anos, em que manteve as mesmas convicções hostis à ortodoxia religiosa.
Logo no prefácio, gostei de ler frases como estas:
"O problema da veracidade de uma religião é uma coisa e o da utilidade outra. E estou tão convencido da nocividade das religiões como estou da sua falsidade".
"O mal causado pelas religiões é de duas espécies: uma depende do género de crença que exige e outra dos dogmas particulares que a compõem".
Há dias em que as coisas vêm ter connosco, quase adivinhando a sua pertinência naquele momento.
Continuei a descer a caminho do Rossio, encontrei uma pessoa amiga que não via há que tempos. Foi uma conversa boa.
Apeteceu-me voltar para casa, sem cumprir o plano de passear mais pela baixa, e ficar o resto do dia com as minhas coisas, embrenhada nos meus pensamentos.
Que domingo perfeito.
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