sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Já passou um ano?


Já passou um ano desde que iniciei o Tripolar.

Na altura, escrevi que marcava um recomeço. O meu recomeço, um novo modo de vida.

Assim foi. Ajudou-me muito a seguir em frente. O Tripolar pôs-me à prova. 

Escrever regularmente é muito mais difícil do que eu pensava. Transmitir uma ideia, partilhar um sentimento, exprimir um pensamento. Ter leitores. Não foram assim tantos. 

Claro que, quando escrevemos, gostamos de ser lidos. Ninguém escreve só para si. Mas as audiências não são o meu objectivo. Para tal, teria que escrever outro tipo de coisas.

Hoje quero apenas agradecer a todos os que me leram, apoiaram, incentivaram. Os que leram e voltaram. Espero que continuem!





sábado, 7 de fevereiro de 2015

Da liberdade.


Finalmente, hoje podia caminhar. Sol e frio, bela junção para um sábado. 

Saí quase à uma. De casa até à Avenida de Roma. Apetecia-me uma omelete mista nos Frutalmeida e fazer os poucos quilómetros para lá e para cá, compensando uma semana sedentária e alguns doces a mais.

Gosto de caminhar, olhar à volta, fotografar isto e aquilo, um detalhe, um momento. 

No jardim do Campo Grande, naquela zona nova onde agora há campos de ténis e um bar, não se avistava ninguém. À sombra, o vento gelava. O sol aquecia redimindo todas as desventuras.

Fotografei umas palmeiras atacadas pelo maldito escaravelho vermelho, encandeada pelo sol a pique. 

Quando retomei o caminho, reparei num homem sentado num banco ao sol, a pele queimada, uma velha mochila ao lado, a fumar um cigarro gasto, um certo porte que me pareceu familiar. 

Confirmei ao passar por ele. O senhor não costuma estar no Museu do Oriente? Eu sou da CASA, das quartas-feiras, olá! Sim, como está? Como passou com tanto frio? Arranjei um cantinho abrigado, só às vezes é que o vento entra por lá. E veio até tão longe? Vim, passear e ouvir música (estávamos junto ao bar de apoio ao ténis e ouvia-se o som em fundo). Então até quarta!

Gostei tanto deste encontro. 
Fiquei a pensar na liberdade de quem não tem casa. Apesar do frio e da chuva e de todas as outras coisas. 

Penso nisto muitas vezes. Viver sem nada. Como na canção do Caetano, "sem lenço, sem documento". O despojamento total. Que liberdade. Ou não?

Tem-me apetecido escrever sobre liberdade. Já comecei e recomecei, desistindo sempre.
Há dias em que construo frases perfeitas quando vou no metro, que tiro notas, assento tópicos, lembro-me de querer referir isto e aquilo.

Depois, leio tanta coisa em que me revejo, bem escrita, bem dita, bem pensada, apoiada em estudos e conhecimento, que perco a vontade. O que posso acrescentar? Nada.

A liberdade faz parte de mim. Desde sempre. Desde miúda. Não sou de estar agrilhoada. Quando começo a sentir-me presa, estrebucho até me sentir livre outra vez.

É certo que não há liberdade individual sem liberdade geral. Num momento em que a liberdade sofre tantas ameaças, sinto ainda mais a sua importância.

Gosto de ter liberdade de dizer, de fazer, de decidir, de dar ou não dar contas, de vestir, de sair, de caminhar, de guiar, de partir, de ficar, de estar só ou acompanhada, de opinar, de protestar, de marimbar, de lutar, de cuidar, de escrever, de ler, de fotografar, de ser.

Faz hoje um mês que assassinos, em nome duma lei-religião contra a liberdade, entraram pelo Charlie Hebdo e mataram cartoonistas e jornalistas, indignando parte do mundo. Não todo.

Só passou um mês. Da emoção de ser Charlie à excitação de ser grego. 

Ainda há causas nesta sociedade que parece adormecida, tranquila na suposição da sua liberdade adquirida. 

Todos os dias, temos perdido um bocadinho dela, aqui e ali. Daqui a perdê-la completamente pode ser apenas meia dúzia de passos.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Revisão.


Por acaso, uma noite destas, fui ter a este texto escrito no último dia de 2013 ou talvez já no primeiro de 2014, não sei bem.

Ainda não existia o Tripolar, por isso, certamente que o publiquei no Facebook ou então, guardei-o, simplesmente, não me lembro.

Agora, mais de um ano depois, releio-o. Continua a fazer tudo sentido. 
Podia tê-lo escrito hoje. O futuro 2014 confirmou-se.



Há um ano atrás, a minha intuição fazia-me pressentir que 2013 não seria um ano bom. 

Como não gosto de números ímpares, com excepção para o cinco, atribuí às minhas superstições parvas essa sensação de perda... Infelizmente, foi um ano bera, pessoalmente e na sociedade em que vivemos. A perda aconteceu mesmo.

A desumanização da sociedade, das empresas, a falta de valores, o desprezo pela cultura, pela diferença, pelos mais velhos, a descriminação, o egoísmo extremo dos poderosos, aos seus diferentes níveis, a opção pelo superficial, pelas aparências, aconteceu demais... 

O medo cresceu. O pequeno medo individual e o grande medo colectivo (um dia, se escrever, há-de ser sobre o medo). 

Para mim foi um ano em que o mal dominou e ganhou. Claro, que o contraditório de tudo isto existiu permitindo-nos sobreviver e viver, apesar de.

Talvez, de tudo, o que mais me custou suportar, retirando daqui a dor imensa da perda de pessoas queridas, foi confirmar como a mesquinhez do ser humano, a inveja, a falta de integridade, a pequena sacanagem, a falta de solidariedade, o pequeno medo acontecem muito mais vezes e muito mais perto de nós.

Como coisa boa, em sentido contrário, a confirmação dos amigos que sempre estão nas horas difíceis, sem falhas, sem medos, para o que der e vier!

Por isso, apesar de ter sido um ano difícil para mim, acabo-o com uma sensação boa, positiva, uma certa esperança no futuro. Encerrei um período da minha vida e vou ter que recomeçar de novo. O medo existe mas, numa escala de 0 a 10, está no 4. Na mesma escala, a felicidade anda pelo 7.

Porque a sensação de liberdade pessoal que sinto ainda é dominante em relação ao medo.

2014 é número par e isso, nas minhas superstições primárias, dá- me uma certa confiança. Apesar de tudo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Saudades sempre.



Já passaram 17 anos sobre a sua morte, incrível! 

Esta foto, que certamente já partilhei outras vezes, continua a ser a minha preferida com o meu pai. 

Foi no Verão de 94, já estava doente, paralisado do lado esquerdo pelo avc, triste. 


Mas ainda conseguimos sair, ir jantar fora a um dos seus restaurantes preferidos, com dificuldade no processo, por ser tão alto, as pernas quase não cabiam no carro, nas manobras de passagem para a cadeira de rodas e vice versa, lembro-me tão bem. 

Queríamos fazer tudo como dantes mas, a jantar, foi quando ele, e nós, percebemos que já não conseguia estar bem à mesa, comer sem ajuda, o vinho de que tanto gostava não apetecia, o tempo demorava a passar, impaciente para voltar para o seu canto. 

Foi num fim de dia quente de Julho e lembro-me deste abraço, do seu cheiro e da dor triste que as constatações acima tinham provocado.


Ainda hoje, tantos anos depois, não consigo recordar este momento sem emoção e um enorme aperto... e saudades, sempre imensas saudades!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O incómodo dos velhos.




Vinha agora no carro a ouvir as notícias das 14h e a notícia atingiu-me em cheio. 

Afinal, o problema da falta de camas e do caos nos hospitais é todo causado pela chatice dos velhos. 

Estão a tentar passá-los rapidamente para lares de apoio aos hospitais mas não estão a conseguir despachá-los. Porque o governo fechou quase todos estes estabelecimentos na sofreguidão da redução cega de custos.

Esta conversa mete nojo. 


Tinha acabado de deixar a minha mãe e a sua amiga Lurdes na Alexandre Herculano, para uma visita ao médico. Ambas saudáveis, nos seus 79 e 88 anos, respectivamente. Ambas a viverem nas suas casas com o apoio e carinho dos filhos. Rimos de qualquer coisa banal no caminho. Rimos dos tutoriais em que participaram para o Canal Q e como deviam voltar a repetir a experiência.


A minha mãe proibiu-me de ficar no médico e entrar com ela na consulta. Porque a seguir vão beber um chá, fazer um programa.

Ontem partilhei aqui um texto delicioso do blog do Guilherme Duarte, uma sátira às urgências que poderia parecer um exagero, qual Charlie Hebdo tuga.


Mas não é. Os factos provam cada vez mais o exercício de uma política de extermínio dos velhos. Que só atrapalham o sistema. Na saúde, na segurança social, nas passadeiras, nas casas.


Eles, os velhos, sentem-no na pele, entre a tristeza de se sentirem um fardo e a superior indiferença do desprezo por gente que um dia destes também será velha...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Londres.


Há uma semana atrás estava em Londres quando tudo acontecia em Paris. 

Era estranho, logo naquele fim-de-semana estar out, fora dos acontecimentos ou do conhecimento deles.

Em Paris, mais de três milhões de pessoas, manifestavam-se contra o terrorismo em prol da liberdade de expressão. Eu passeava por Kings Road, numa espécie de despedida dum tempo que não vai voltar.

Apesar da razão da minha ida ser profundamente triste, como é a perda de um grande amigo, esse facto não me tirou o prazer que sinto naquela cidade.

Talvez este meu amor por Londres tenha precisamente a ver com a vivência que fui tendo ao longo dos anos. Graças a este amigo, e a outras pessoas que lá tinha, conheci a maneira de viver da classe média alta londrina, lugares, restaurantes, sofisticação, exposições, cultura, numa mistura fascinante que tem a ver com os meus gostos e que consolidaram a minha preferência.

Gosto. Gosto mesmo. Mesmo muito... mas haverá quem não goste?

Era isso que pensava no sábado passado enquanto tomava o pequeno-almoço e observava a vida à minha volta, no Murriel’s Kitchen, South Kensigthon, em frente a Old Brompton Road.

Esqueci-me do adaptador de corrente e fiquei sem bateria no smartphone, o que aumentou a minha sensação de estar desligada do mundo e dos acontecimentos.

Enquanto bebia um café expresso (como o café está na moda por lá, beber bom café deixou de ser problema) e comia umas torradas, tirava notas no meu caderninho, recuperando um gosto antigo. 

E se voltássemos atrás? Se voltássemos a escrever sem a existência de qualquer device por perto? Se ficássemos horas sem espreitar as redes e as últimas notícias?

O céu estava azul e o dia pouco frio apesar do vento. 

Saí dali e subi a Exhibition Road, entre os museus de História Natural e da Ciência e o Albert & Victoria, até Hyde Park. Um caminho conhecido e reconhecido. Ainda nem eram 11h.

Comprei o The Guardian, pesada a edição de sábado, mais o adaptador, e fui até casa carregar o telefone. Comecei a ver os muitos suplementos (que só acabei de ler ontem) enquanto na televisão se repetiam as notícias em torno do Charlie Hebdo e da perseguição aos autores dos crimes.

O almoço foi uma homenagem ao Zé. Um almoço com a mulher e amigos. De partilha de memórias, recordando coisas só suas e que faziam dele um gentlemen. Acho que falámos sempre no presente. E bebemos vinho, claro. Nem podia ser doutra maneira.

Quando acabámos, escurecia mas o céu estava límpido como só deve numa tarde de sábado... e refrescava.

Fui até à Tate Modern. Vou sempre. Gosto daquele espaço. Gosto do caminho junto ao rio. Gosto de atravessar a ponte pedonal até St. Paul, ver The Shard e a Tower Bridge não muito longe.

Gosto de regressar à beira-rio, até Westminster, com o vento a gelar o corpo, e sentir que este é um passeio familiar.

No domingo de manhã fui a dois sítios que não visitava há muitos anos, ao British Museum e a Convent Garden.

Caminhar por Londres, sozinha com os meus pensamentos, sabendo que o Zé partiu mas está ali, nas muitas recordações daquela cidade, tranquilizou-me.

Foi difícil deixar a casa dele, aquele conforto feito dos seus livros, dos seus posters, do seu cinzeiro, da sua mesa, da sua cadeira...

A angústia imensa que me tinha envolvido por não ter chegado a tempo de o abraçar, de agarrar a sua mão, de falarmos ainda, a angústia por não ter uma despedida física e que me levou a ir à mesma, apaziguou-se com esta visita. 

A turbulência no mundo continuou, feroz, mas eu regressei com vontade de ficar sossegada no meu canto, aninhada nestas memórias.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O indizível.

"O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos donde vem"
Vergílio Ferreira, Pensar


O ano acaba hoje.
Tal como toda a gente, também fiz listas e pensei balanços.
Depois, deparei-me com as palavras de Vergílio Ferreira e achei que diziam tudo sobre o ano: “O indizível. O flagrantemente presente e que não acaba de se esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos donde vem”.
O indizível caracteriza aquilo que, para mim, marcou o ano com uma imensa dor. 
A revelação do horror e da violência extrema, sem qualquer valor pela vida do outro.
Do Exército Islâmico. Dos bombardeamentos de Gaza. Do rapto e violação de jovens mulheres na Nigéria e em tantos outros lugares. Da escravização das mulheres. Do racismo. Da intolerância. Dos milhões de refugiados e deslocados. Da guerra.
O ano de 2014 afirmou o mal e a barbárie sem pudor. Sem vergonha. Perante a impotência do bem e da defesa dos direitos humanos mais básicos. Parece uma luta perdida. Com vitórias pontuais. Como Kobane.
Leio António Guterres, na entrevista ao Público, “todos perdemos”. As guerras deixaram de ter vencedores e vencidos. Assim parece.
É nesta estranheza global, perturbante e violenta, que em Portugal o ano passa ainda mais indizível que antes.
Outro tipo de estranheza, de violência, de dor. A frase de Vergílo Ferreira resume-a tão bem: “O flagrantemente presente e que não acaba de se esclarecer”.
Foram assim os nossos dias. Tantos os casos, em pioria ascendente, que vivemos em apatia colectiva, sem capacidade indignatória.
Faço um esforço por compreender esta falta de revolta organizada, para perceber o outro, para ver um caminho. Tenho dificuldade.
O ano também confirmou como o carácter dos homens faz toda a diferença nas organizações. Como a vontade de fazer diferente, afirmando valores adormecidos em minorias, pode motivar e envolver maiorias.
É o caso de Francisco. Que espantou mais do que o esperado. Que anuncia querer voltar à prática dos valores do cristianismo. Queremos ver.
Francisco leva-me ao tema do papel dos media e da comunicação, cada vez mais determinante na passagem de valores e mensagens.
A publicação da verdade ou da mentira. O rigor ou a falta dele. A qualidade da informação ou a mediocridade da mesma. A defesa da liberdade ou a traição a esta.
Há tempos li José Victor Malheiros em “Os ricos são pessoas mas os pobres são estatísticas”: 
“O discurso mediático é, de forma crescente, o discurso dos poderosos e cresce o número dos sem-voz, dos marginais transformados em estatísticas. De forma crescente, nos media, os ricos são pessoas e os pobres são estatísticas.
É tempo que os jornalistas recuperem o lema de “dar voz aos que não têm voz” e multipliquem aquilo que, por agora, continuam a ser histórias esporádicas de incidentes ocasionais para nos fornecer um retrato realista de toda a sociedade”.
Está em causa  a liberdade.

Para mim, este foi um ano de afirmação de liberdade. Diria condicionada.
Ainda assim, liberdade. De recomeçar e refazer. De viver diferente. Com mau e bom, como em tudo. Com desafios e medos. Foi preciso prescindir de muito. Pessoas e bens.
Olho para trás e tenho que fazer esforço para me lembrar do início do ano, rebuscar notas, rever fotos. Há um até ao Verão e um depois. Até na saúde.
Trabalhei muito, aventurei-me na escrita, ensaio sem estreia, por enquanto. A ver vamos. Sinto necessidade de escrever. Sempre funcionou como terapia. Espaço para expandir a revolta. Preferia tocar bateria, faria o mesmo efeito e com uma componente física que deve manter os músculos nos braços, ponto fraco das mulheres em envelhecimento.
O que se passa no mundo e na sociedade, aqui e fora, está sempre comigo.
A indignação faz parte de mim. Sempre fez. Em tempos mais definidos, com mais clareza nos caminhos. Não quero nunca abandonar os meus valores. Não quero nunca baixar os braços. Mesmo se não tiver companhia. Mesmo que custe muito. Já aguentei até aqui.
Gostava era de ser capaz de pegar em armas e ir para a linha da frente. Só não sei em qual frente, sendo tantas.
À minha escala, quero lutar (será esta a palavra? nos dias de hoje parece ridícula, simplesmente) por uma sociedade melhor, com menos desigualdade, menos violência, menos injustiça. Basicamente, o mesmo que queria há quarenta anos, aos 14.
É esse apenas o meu desejo para o futuro. Não ficar calada. Nem parada.

Todas estas fotos estavam disponíveis na net. Foram trabalhadas com filtros.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

És muito mais feliz lá fora.


Parece que está na moda despedir em nome da felicidade.
Há gestores que, na hora de dispensar colaboradores, invocam as excelentes qualidades dos mesmos para demonstrar como poderão encontrar a felicidade fora da empresa, sem trabalho e sem salário.
Eles, dispensadores, também poderão, resolvida a contenda, jantar e fumar o seu charuto em paz.
Perante a contestação dos visados, que têm família para sustentar, contas para pagar e um futuro para viver, insistem na explicação desse mood fantástico que é poder dar largas à liberdade sem ter que aturar chefes ignorantes e caprichosos ou cumprir objectivos impossíveis.
“Vais ver que és mais feliz lá fora, o dinheiro não é assim tão importante”. Pois não. A convicção das palavras faz pensar que o desejam para eles próprios, qual nirvana.
Na hora do despedimento, este tipo de argumento é dispensável porque não ajuda em nada o funcionário, apenas causa mais dor e indignação.
A narrativa destes gestores é fortemente influenciada pelas sessões de coaching pessoal, pago a peso de ouro, em que tentam atingir um estado de liderança que não lhes é natural, nem nunca lhes será característico.
Podemos considerá-la uma conversa da treta pois, quando chega a hora de discutir valores e condições, a libertação prometida vai-se para vir, então, ao de cima a mesquinhez do pensamento “tudo para mim, nada para os outros”, destruindo em segundos a prometida felicidade.
A fraqueza de muitos dos nossos gestores de sucesso vê-se na dificuldade de partilhar valor.
Passam anos a dissertar sobre a importância das pessoas na organização. O valor da empresa está nas pessoas. Foco nas pessoas.
Estas, imbuídas de crença neste discurso e fé nas suas capacidades, trabalham anos e anos, prescindindo de si e dos seus, com máximo empenho, contribuindo para os resultados, com o sonho de serem um dia ressarcidas desse esforço.
Nada mais falso.
Todos sabemos que não há empregos para sempre e que as empresas procuram, mais do que nunca, a inovação na renovação, associada à juventude e aos baixos salários.
Em Portugal, muitas empresas, apesar de investirem em formação e em programas que visam dar voz aos colaboradores, praticam o contrário. Na hora da saída, humilha-se, aproveitando o momento de fragilidade e incerteza do visado.
Nessas alturas, partilhar algum do valor acumulado, para o qual o colaborador contribuiu, não lhes passa pela cabeça. Apenas despachá-lo rapidamente, envolto numa conversa inútil que visa simplesmente deixar o gestor de consciência limpa.
Seria preferível contratar alguém como o personagem de George Clooney em “Up in the air”, para despedir sem apelo nem agravo. Sem emoção nem envolvimento. Sem promessas dum mundo melhor. Apenas um golpe rápido, em nome da crise e da redução de custos, qual número na engrenagem. Como a realidade.