Estes dias têm sido
estranhos.
Apenas porque os
acontecimentos passam como se não fizessem parte da minha vida. A velocidade
das coisas não deu tempo para ficar a pensar na sua essência, nos porquês e nas
consequências.
Vendo bem, não pensar muito na
causa das coisas tem sido uma opção para prosseguir. Sobretudo, não avaliar
culpas e culpados. Para seguir em frente, como se diz agora.
O fim-de-semana marca o fim
duma fase, duma história, dum percurso.
Quando, por fim, paro de
labutar, fico no sofá a olhar, de pijama, manta nas pernas, jornais à volta,
televisão ligada, comida uma sopa e uma maçã para cumprir função, sem
entusiasmo.
Não é um dia de semana. É
sábado à noite e uma amiga telefona com um simpático convite para jantar na
casa dela, com outras amigas, para comer castanhas, conversar, beber um copo. Agradeci
e recusei com a desculpa verdadeira do cansaço e do pijama já vestido.
Queria estar sozinha.
Preciso. Há uma ingratidão nisto porque os amigos são quem nos salva nas
dificuldades, nos momentos difíceis. E gosto dos amigos, dos que tenho, de
saber que os tenho. Gosto do dar e receber que os verdadeiros amigos implicam.
Já recusara com dificuldade
um convite para um café durante a tarde, feito quando desembrulhava copos e
outras coisas trazidas da casinha para a casa e tentava arrumá-los com êxito
muito duvidoso. Sozinha. Não queres ajuda? Não, obrigada.
Stacey Kent cantava
demasiado bem “What a Wonderful World”.
Apetecia-me assim. Sem
interrupções. Sem questionários. Mas consegues fazer tudo sozinha? Vê lá, já
não tens vinte anos. Eu sei. Dói aqui e ali, quando tento puxar um vaso
pesadíssimo com uma oliveira que trouxe para a entrada de casa. Mais outro com
um cacto gigante e outros tantos que os homens das mudanças deixaram mais ou
menos no espaço mas a que falta dar um jeito.
Não me despeço da casinha. Às
oito e pouco da manhã estava lá. Abri o portão e o pátio estava ensopado,
brilhava ao sol repentino depois da imensa chuva anterior.
A casinha é agora
uma vastidão de caixas num desmantelamento que não dá margem para romantismos.
A salamandra já foi vendida, não tem fogo e está tapada por caixas e coisas
prontas a levar.
Há humidade fria quando abro
a porta. Ainda bem, de facto, rapava-se um frio do caraças naquela casa.
Enquanto os homens carregam a chaise longue amarela, sítio de tantos sonos e
leituras, juntam-se vizinhas e vizinhos em bons-dias curiosos. Ah, vão-se
embora? Como se já não soubessem que as notícias correm rápidas por ali.
À noite, recostada no sofá,
a consumir as enormidades avassaladoras das notícias na televisão, tenho ideias
para escrever revoltas muitas com tudo o que se passa pelo país e pelo mundo.
Mas falta-me a força para ir buscar um caderno e apontar as ideias, sabendo que
de manhã será difícil relembra-las exactamente da forma luminosa como surgem.
Na SIC, Marques Mendes, que
evito ver e ouvir porque me enerva muitíssimo, braceja e agita as mãos pequenas
como todo ele, afirmando repetidamente a sua inocência no caso dos vistos
dourados. A jornalista, bem, pergunta então porque não saiu da sociedade JMF se diz já não estar activa desde 2011? Sem resposta.
São todos inocentes até
deixarem de ser.
Nunca pensei, em toda a
minha vida, que Portugal seria um desses países cheio de corruptos que
associava às ditaduras da América do Sul. Mas vejo agora como a corrupção sempre
medrou como a merda.
Antes e no Estado Novo. E
depois. Agora de modo mais descarado porque fomentada a impunidade.
Os medos
pequenos que fazem o dia-a-dia das pessoas comuns estão cheios da noção do
poder da corrupção. Não só no numerário ganho num favor feito mas na moral
perdida nesse favor. Quem aldraba pequeno, aldraba grande. A teia constrói-se.
A amargura é maior porque
confirmada a cada desilusão, a cada descoberta, a cada suspeita.
Vejo uma mulher na sua
sabedoria feita pelos muitos anos, responder, na rua com mais casos de legionella,
que ainda não bebe água da rede. Mas pode, diz o jornalista. E pode confiar? Não. Não confia. Beberá mais tarde, quando passar o tempo que confirme
por si a confiança nessa água dita boa pelas autoridades.
Até a este nível a confiança
está perdida.
Tomo o pequeno-almoço, bem
dormida. No céu há esperança de um dia azul e com sol. Que não se confirma. Já está cinzento.
Sinto urgência para
escrever. Tomo notas dos tópicos que a noite relembrou: corrupção, ética,
jidahistas, Kobane, guerra, Gaza-Palestina, Boko Harum, as raparigas raptadas e violadas que não
voltaram, as mulheres que são esterilizadas na Índia, Putin que abandona o G20 sem responder e afirma que precisa de dormir (?).
Tantos
filhos da puta e maldade a denunciar…
“Uso a palavra para compor meus silêncios”, leio no
poema de Manoel de Barros “O apanhador de desperdícios”. Magnífico.