sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Outro tempo.


Tenho saudades do tempo em que o colectivo fazia parte da vida. Da vida do dia-a-dia, naturalmente.

Pelo menos, a memória que tenho dos tempos da minha juventude é a de toda a gente ter causas, ideologia, preocupação com a sociedade e com a construção do futuro, com os outros. Diferentes causas. Mas colectivas, naturalmente.

O colectivo estava lá, em cada decisão e em cada acção. A intervenção social fazia parte do viver e afectava o individual. Sem peso. Sem obrigação. Era geral. Com divergências e conflitos. Sem medo.

Apesar de a globalização, na altura, não ser facilitada pelos vastos meios tecnológicos e de comunicação dos dias de hoje, a curiosidade com o mundo acontecia. 
Os acontecimentos lá fora eram consumidos e vividos, acompanhados com entusiasmo.

Agora, dá-se o contrário. O individual domina, naturalmente. Com o seu egocentrismo. Sem foco. Sem entusiasmo. Com medo. Com indiferença. Com ignorância.

Não gosto. Não vejo o mundo melhor. Existem demasiadas situações terríveis em que a dignidade humana é desprezada, em que a violência extrema acontece perante a passividade da maioria

Há excepções. Há sempre.Também houve no passado quando se viveram situações semelhantes. E, depois, também foi tarde demais. 


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Tips, Steps & Tops!


Não se aguenta, nas redes sociais.
A maioria dos conteúdos são apresentados como dicas, passos e listas.
Para ter sucesso. Para ser CEO. Para ser colaborador. Para ser comunicador. Para criar conteúdos que todos vão adorar. Para ser mais visto que os outros. Para ter o melhor networking. Para ser magro. Para ser gordo. Para ser digital… Porque não vegetal?
Frases de autores conhecidos, ou não, ficam à frente nos gostos. Fiz a experiência. Partilhei uma frase de Eugene O’Neill, é certo que uma frase interessante, mas foi a primeira vez que o fiz no Linkedin. Passados dois dias já era o top dos meus conteúdos partilhados. No Facebook é comum e dominante.
A crer nos inúmeros artigos que já li com passos e dicas a seguir para ter sucesso, já devia ser CEO duma grande empresa e ter ganho milhões. Eu e todos os outros que por aqui convivem.
O que leva a esta moda em que se opta pelo facilitismo e generalizações absurdas, para não dizer superficialidades?
A velocidade dos dias? A voracidade de informação? A preguiça da facilidade? O nunca parar para aprofundar?
Não havendo tempo a perder para experimentar, fazer, errar, voltar a fazer, arriscar, espera-se que gurus, uns mais que outros, nos indiquem uma receita já testada para atingir um determinado resultado.
Mas onde estão os resultados de quem seguiu à risca estes conselhos?
O estranho é que, supostamente, vivemos a época da inteligência emocional. Supostamente, esta é determinante para o sucesso.
Revejo um artigo publicado no The Huffington Post (Brasil), mais um com uma lista: 14 sinais de que você tem inteligência emocional.
Possuindo todos estes sinais parece pouco provável que não cheguemos longe, pessoal e profissionalmente.
Na realidade, não acontece assim. No terreno, o universo empresarial / profissional continua dominado por critérios que nada têm a ver com os conselhos que enchem os artigos que todos os dias podemos ler.
Numa entrevista que li recentemente, Richard Branson, o célebre fundador do grupo Virgin, a propósito do seu livro “The Virgin Way”, defende que aprender é deitar as mãos ao trabalho com total dedicação, tentar, falhar, tentar novamente.
Concordo. Haja oportunidade de o fazer. Haja gente capaz de funcionar num registo que não seja “usar e deitar fora”... Depois dos 5 passos e das 10 dicas para chegar rapidamente ao top 20.

domingo, 21 de setembro de 2014

Será o Outono?




Há muito que não tinha um domingo assim. 

Acordar tarde, de repente, ai, que horas são? Sensação de reparação. 

Almoço tardio em casa da minha mãe, as duas apenas, sem miúdos à volta, a comer "S" com o café. São biscoitos de manteiga, será que engordam? ;)

Brincar com auto-fotos nos espelhos de casa da "mummy" vagueando de divisão em divisão. Estar sentada na varanda a olhar o céu até uma abelha obrigar à retirada.

Uma preguiça desculpabilizada a levar-me de volta para casa com o plano único de acabar de ler os jornais. O que ainda não fiz. Pensei dar uma volta de bicicleta mas pus-me a arrumar aqui e ali, compondo detalhes caseiros. Planeando mudanças nas paredes. Experimentando.

O fim do dia, cada vez mais cedo, está dourado. 

A rua está dourada de folhas e o céu ténue, não dá para perceber se nublado ou se é a noite que chega... O céu persiste luminoso, entre o laranja e o rosa. Verifico a luz. Está fraca mas lindíssima. Serena. Menos luz a cada vez que espreito.

Oiço o Leonard Cohen "First we take Manhattan, then we take Berlin". Faz hoje oitenta anos.

Apetece aninhar, abrigar, ficar. 

O céu insiste numa luz magnífica, verifico. Será o Outono? 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A responsabilidade.

Fui educada na e para a responsabilidade.
Ou seja, assumir a responsabilidade por erros e asneiras. Ter humildade para pedir desculpa. Ser capaz de recomeçar. Nunca deixar de assumir a responsabilidade por um erro de pessoas da minha equipa ainda que nem soubesse de nada, o que quer que fosse.
Foi assim que sempre agi e conduzi a minha vida, pessoal e profissional.
Algumas vezes, paguei pelos erros de outros que chefiava mas sempre achei e acho que é o que faz sentido.
No entanto, parece que os tempos são outros.
A frase mais ouvida pelos membros deste governo é "eu não me demito". O exemplo vem do primeiro-ministro, primeiro responsável. Seguiram-se os outros.
Recentemente foi a vez da ministra da justiça pedir desculpa pela brutal falha do sistema judiciário. Este pedido veio cheio de falta de sinceridade, deve ter resultado de pressões nos bastidores... Falta de humildade e omissão da verdade/realidade, dominantes neste governo. Sem grandes disfarces. Ou preocupações de imagem.
As palavras não existem sem a expressão do rosto, o olhar ou a atitude geral. Neste caso, toda ela dizia o contrário. Trata-se apenas de um transtorno.


É evidente a teimosia e a arrogância. Claro que uma boa dose de resiliência é necessária para levar a cabo uma reforma desta dimensão. Mas não ouvir e não ser rigoroso estraga tudo. A ministra foi avisada no início do mandato do estado periclitante do sistema informático da Justiça, da necessidade de o mudar. Não ouviu.
E os fornecedores? Onde andam? O que têm a dizer? Devem estar obrigados ao silêncio e ser também muito incompetentes. Porque migração de dados, com esta dimensão, não é propriamente uma novidade.
É nos momentos, em que se dá a cara pela mudança, arriscando tudo, que tem também que se assumir a responsabilidade pela falha, colocar o lugar à disposição, já que não se tem perspectivas de solução eficaz.
Este é só um exemplo da crise de valores e princípios éticos que dominam a sociedade actual.
Neste caos de empurras (24h depois o ministro da educação pediu desculpa e culpou um seu director que, este sim, apresentou demissão), afirma-se, desmente-se, volta-se com a palavra atrás, continua-se haja o que houver.
A excepção extrema são os treinadores de futebol, sempre dispostos a assumir as derrotas com a saída do cargo.
Longe vão os tempos de uma Leonor Beleza ou dum Jorge Coelho. Goste-se ou não, assumiram as suas responsabilidades pelos erros dos ministérios que comandavam. Ou o caso fresco do líder do governo escocês que, tendo assumido a luta pela independência da Escócia e perdido, se demitiu, apesar do aumento da votação no sim.
A gravidade da desresponsabilização dos dirigentes tem a ver, acima de tudo, com os valores que passam para os mais novos, para quem se está a formar. Os valores, ou a ausência deles, que vão ser os dos futuros responsáveis do país e das empresas.
Não sei se ainda é possível corrigir alguma coisa. Temo bem que não...

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

48 horas.



Dois dias fora, com acesso condicionado à informação. Apenas. Dois dias noutro mundo. Num paraíso. Se fosse possível ficar por ali, sem saber nada do mundo, inspirando a natureza, sem programa que não seja viver, sem profissão nem obrigação, sem pressão, seria capaz de continuar? Não sei. 

Tenho dificuldade em estar desligada, em não saber o que se passa por cá e por lá, o que é tudo a mesma coisa... má. 

Tenho dificuldade em não saber. Preciso sentir, opinar, reagir e agir, falar, barafustar, indignar-me. 

Mas que soube bem, muito bem, soube. Que apetecia mais. Que me passou pela cabeça mudar radicalmente de vida. Dar o passo. Romper. Arriscar. Sair definitivamente do sistema. Marimbar no mundo. Fugir. Ficar parada à espera do sol. Esperar o Inverno e depois a Primavera. Curtir o Verão. Com ou sem sol.

Dois dias sem acesso. A rede não suportava downloads nem grandes conversas. 
No café mais próximo, no sítio onde um cruzamento de caminhos converge as gentes que habitam aquelas terras, só existe o célebre Correio da Manhã. 
Sim, há televisão. Em todo o lado. Em casa também mas não a oportunidade de a ver. Ainda bem.

A família estava primeiro. O objectivo dos dias foi mesmo rever pessoas que gostamos. 
De quem temos saudades. De falar. De estar, simplesmente. 

À volta da mesa. Com generosidade de quem faz e serve. Com espaço, com copos, com comida boa. Com risos. Com recordações dos ausentes e doutros encontros que ficaram sempre. Lembraste daquela vez, em 84? 


Por muito que se prolonguem, estes momentos bons acabam. As viagens de regresso têm sempre um silêncio triste. Sabemos ao que vimos.

A segunda circular pareceu-me uma loucura, tal o movimento. Desabituei-me em 48 horas? 
As notícias, finalmente acedidas, trazem mais incerteza e dor. O mundo desaba. Continua o caminho incontrolável da violência sem soluções realistas para o parar, a não ser com mais violência...

O país piora todos os dias. Mais passos na desagregação do conhecido. Nada é estável. Nem a mediocridade do poder.

Sinto-me tonta. Não sei o que tenho.
Acordo cedo. Meto-me a caminho para a minha volta matinal pelo estádio universitário acreditando que a chuva vai esperar. Esperou. Desabou depois. 

Até na minha caminhada nada é estável. 
O estádio universitário não está com a tranquilidade desportiva habitual. Grupos de "corvos" humanos gritam, agitando bastões e palavrões. Jovens rapazes e raparigas, sentados no chão em subserviência total, ouvem o programa de imbecilidades e inutilidades que os espera. Aceitam. Estão ali, estupidamente. Uma das minhas indignações.

Regresso com os meus pensamentos. Vejo o caminho da manhã de ontem. Também chovia mas em liberdade.



domingo, 7 de setembro de 2014

Turista em Lisboa.



Esta tarde apeteceu-me fazer caminhos de turista em Lisboa. Para perceber o que se sente, o que fascina. 

O tempo estava húmido demais. Chuviscou mas até soube bem. Não havia vento. Caí na asneira de levar os meus Sanjo em vez dumas havainas ou umas sandálias. Os pés fervilhavam e o dedo grande esteve o tempo todo a querer romper os ténis. Fora isso e o suor que me ensopou o cabelo e escorria pela testa, fiz um passeio muito bom. 

Que confirmou o entusiasmo que existe pela cidade. 

Saí do metro na Baixa-Chiado. Fui até aos elevadores que levam à Costa do Castelo. Fotografei a vista do Chão do Loureiro e publiquei no Facebook, uns minutos abrigada duma chuvada maior.


No Castelo, não consegui entrar. A fila para os bilhetes devia ter umas 200 pessoas, sem exagero. Firmes no propósito da sua visita. 


Desisti e segui. Descobri ruelas e becos onde nunca tinha passado. Ou não passava há muitos e muitos anos. 

Sempre muita gente para um lado e para outro. Turistas de todas as idades e línguas. Cafés, esplanadas, petiscos, tuk-tuks, fotografias e selfies, risos e vozes, altos e baixos, famílias, jovens e velhos. Obras, restauros. Movimento. Gostei.

Pelo caminho do eléctrico, e não só, cheguei à rua da Voz do Operário e ao Panteão. Em vez de seguir, como a maioria dos transeuntes, para o miradouro da Graça. Não fora o aperto nos pés e teria lá voltado.


O mercado de Santa Clara ainda lá está e as velharias também. Tinha sido dia de feira. Havia vestígios de vendedores e outros começavam a arrumar as tralhas. Revi o sítio onde algumas vezes poisei para vender antiguidades lá de casa. Pelos dezasseis, dezassete anos. Sorri. Apetecia-me vaguear por ali. 

A tarde estava mais aberta. Mas começava a ter caibras como resultado de tentar andar sem colocar os dedos dos pés no chão. Ainda não consigo levitar. Desci as escadinhas do Hospital da Marinha e entrei em Santa Apolónia. Estação azul.

Os pés latejavam. Apanhei o metro para casa, certa de ter que voltar e voltar.

(tarde de sábado, 6 de Setembro)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

As mulheres que desaparecem.


"Disparition", foto de Bushra Almutawakel, ilustrando como as mulheres se podem tornar invisíveis, passo a passo, sob a pressão fundamentalista e o uso do niqab integral. 

Esta foto fala por si. É terrivelmente assustadora e triste. 

Não se pode ser mulher e ficar indiferente. Espero que sendo homem também não.

O que mais me arrepia é não saber de revolta alguma das mulheres que vivem sob esta lei.
O que passa é uma passividade total. Será possível? Duvido.

Desde o nascimento que são educadas para não ser relevantes, para obedecer ao pai, ao irmão, ao marido. Serem discretas, invisíveis. Apesar desta suposta anulação do seu ser, elas existem e são seres humanos que pensam e sentem. Podíamos ser nós.

Quando estive no Egipto, numa altura em que felizmente o fundamentalismo ainda não dominava como agora aquela zona do mundo, não consegui falar com nenhuma mulher egípcia. Lembro-me que um dos guias falava da mulher com entusiasmo, anunciando, perante a nossa curiosidade e ignorância, que em casa ela andava nua para ele. 

Um mundo de fantasias sexuais e prazer, aliás muito presente na propaganda destinada aos mártires da jihad.

Não quero entrar por aqui. Não conheço praticamente nada sobre as mulheres no Islão.

Apenas as histórias de algumas mulheres que conseguiram sair desse agrilhoamento mortal, que se tornaram mediáticas, escreveram a sua história ou trabalham em organizações mundiais.

Malala, a adolescente paquistanesa que sobreviveu e quer apenas estudar e lutar para que as mulheres tenham acesso à escola.

Ayaan Hirsi Ali que conseguiu fugir da Somália, da excisão e da violência brutal sobre as mulheres nos países africanos de cultura islâmica, estudar, tornar-se influente na política.

As mulheres anónimas do “Caderno Afegão” da Alexandra Lucas Coelho, ávidas de liberdade e igualdade. O horror dos talibãs que matam as mulheres não sem antes as violarem.

A grande massa das mulheres no mundo islâmico existe apagada na rectaguarda, dependendo a sua vida de ter ou não ter um homem e da sorte do sítio onde nasceu. Porque os países muçulmanos não são todos iguais e a dita sharia não é aplicada em todo o lado.

De qualquer modo, em metade, ou mais de metade do planeta, as mulheres não podem existir como seres humanos. 

Apesar de sem elas não existir vida, nem homens.

Não me imagino ali. Nem sequer me imagino a obedecer a um homem, aqui.

Não me imagino sem os mesmos direitos, sem liberdade, sem trabalhar, sem me sustentar, sem conduzir, andar de bicicleta, sem vestir o que quero, sem usar ou fazer o que me apetece.

A passividade perante esta crueldade deixa-me louca. 

A aparente aceitação desta condição pelas próprias mulheres nos locais onde se aplicam as mais radicais leis islâmicas da Idade Média dói.  Mesmo sabendo que foram formatadas desde o nascimento pela religião, tenho dúvidas que possam aceitar tal violência.

É assustador sentir a regressão do mundo. Na questão das mulheres e em todas as outras.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Os velhos.

Sempre gostei de velhos. Melhor dizendo, já que este termo pode ser considerado pejorativo, sempre gostei de pessoas idosas.

Adorava a minha avó Ana que viveu sempre connosco até morrer com mais de 90 anos. E as histórias dela e das irmãs que conheci, quase todas chegaram perto dos 100. Tenho uma fotografia delas a rirem muito, vestidas de escuro por serem viúvas, com os seus cabelos brancos e carrapitos.



Na minha vida tenho várias pessoas de muita idade, ou seja, idosos, que estimo muito. E respeito. E admiro. E de cujas histórias não me quero esquecer.

Durante anos, quando passava férias em Trás-os-Montes, os velhos dominavam vilas e aldeias, o Ti Zé Racha (lê-se txa) com o seu cajado sentado à porta de casa, o Ti coveiro, as tias já sem idade certa que ofereciam lanches de presunto e vinho fino nas tardes quentíssimas do Douro.

O mesmo em todos os locais, mais visível fora da capital.

Moro num bairro que só agora começa a ter velhos. Quando para cá vim viver, há 32 anos, éramos todos novos. Eu ainda estava na faculdade. E os outros habitantes de Telheiras, da EPUL, não a dos novos ricos que pertence a Carnide e era campo de pasto para rebanhos, também eram casais novos.
Havia ali em baixo, onde agora é o metro, uns restos de casas antigas, casas de zona saloia, de trabalhadores agrícolas das quintas que aqui existiam. Acho que havia alguns idosos, restos doutro tempo.

Vi envelhecer muitos vizinhos que na altura teriam mais uns 10 ou 15 anos que eu. Talvez menos. Há aquelas pessoas que conhecemos de vista desde sempre. Agora têm netos.

A mudança do meu dia-a-dia, nos últimos meses, permite-me viver muito mais o bairro, a cidade e também o campo. Aí, os velhotes continuam a dominar, sentados nos bancos, de bicicleta, a conduzir um tractor ou a apanhar azeitonas no caminho das oliveiras. E a nossa vizinha da casinha, cheia de dores, mas sempre bem e disposta a dar. Todos os dias dá almoço a um sobrinho. E oferece-nos pão e caspiadas feitos por ela no forno de lenha. Tem uma pensão de duzentos e poucos euros.

E os idosos modernos, bem de saúde felizmente, como a minha mãe que aos 78 anos se tornou actriz nas peças do neto, usa as novas tecnologias e também dá almoços e jantares ao neto, e a todos os netos, todos os domingos. E umas ajudas para isto e para aquilo.

Felizmente, por causa da mania da prática do desporto, a cidade, ou os bairros como o meu, possuem equipamentos e espaços verdes que permitem praticar alguns exercícios sem gastar um tostão. A que chamo ginásio. Lá estou eu, muitas vezes com um senhor muito idoso. Até tenho medo que se desfaça mas não. Resiste. E outros passam com carrinhos com bebés. E a meio da tarde, é ver pela rua avós e netos, perto das escolas.

Que seriam dos jovens pais de hoje sem os avós?!
Que seriam dos jovens de hoje sem os avós? Que seriam dos avós sem os netos?

E resistem estes velhos, os idosos, apesar dos degraus altíssimos dos transportes, apesar dos cortes, apesar da chuva e do frio. Têm um passado e um presente de trabalho, seja na cidade ou no campo. Continuam a trabalhar e a ser um activo na sociedade. A maioria. Há excepções, os doentes e os aldrabões, e os muito ricos com criados, mas são mesmo poucos e estão escondidos. A maioria anda aí a ajudar a família, duma maneira ou doutra, com dores físicas e dores na alma de ver os netos partir por não terem trabalho apesar dos estudos.

Por tudo isto e muito mais, esta doutrina de exterminação dos velhos que este governo fomenta me enoja. Felizmente, os velhos resistem à sua maneira.

Nas empresas, os velhos somos nós, os de cinquentas ou mesmo quarentas. Deixámos de servir. Temos saber e opinião e dizem-nos que seremos muito mais felizes cá fora... Precisamos resistir uns 15 ou 20 anos apenas até termos uma pensão que não sabemos se vai existir... 
Resta-nos aprender com os velhos a resistir para continuar a viver.