![]() |
| "Disparition", foto de Bushra Almutawakel, ilustrando como as mulheres se podem tornar invisíveis, passo a passo, sob a pressão fundamentalista e o uso do niqab integral. |
Esta foto fala por si. É terrivelmente assustadora e triste.
Não se pode ser
mulher e ficar indiferente. Espero que sendo homem também não.
O que mais me arrepia é não saber de revolta alguma das
mulheres que vivem sob esta lei.
O que passa é uma passividade total. Será possível? Duvido.
Desde o nascimento que são educadas para não ser
relevantes, para obedecer ao pai, ao irmão, ao marido. Serem discretas,
invisíveis. Apesar desta suposta anulação do seu ser, elas existem e são seres
humanos que pensam e sentem. Podíamos ser nós.
Quando estive no Egipto, numa altura em que felizmente o
fundamentalismo ainda não dominava como agora aquela zona do mundo, não consegui falar com
nenhuma mulher egípcia. Lembro-me que um dos guias falava
da mulher com entusiasmo, anunciando, perante a nossa curiosidade e ignorância,
que em casa ela andava nua para ele.
Um mundo de fantasias sexuais e prazer, aliás muito presente na propaganda destinada aos mártires da jihad.
Não quero entrar por aqui. Não conheço praticamente nada sobre as mulheres no Islão.
Apenas as
histórias de algumas mulheres que conseguiram sair desse agrilhoamento
mortal, que se tornaram mediáticas, escreveram a sua história ou trabalham em
organizações mundiais.
Malala, a adolescente paquistanesa que sobreviveu e quer
apenas estudar e lutar para que as mulheres tenham acesso à escola.
Ayaan Hirsi Ali que conseguiu fugir da Somália, da excisão
e da violência brutal sobre as mulheres nos países africanos de cultura
islâmica, estudar, tornar-se influente na política.
As mulheres anónimas do “Caderno Afegão” da Alexandra Lucas
Coelho, ávidas de liberdade e igualdade. O horror dos talibãs que matam as
mulheres não sem antes as violarem.
A grande massa das mulheres no mundo islâmico existe apagada
na rectaguarda, dependendo a sua vida de ter ou não ter um homem e da sorte do
sítio onde nasceu. Porque os países muçulmanos não são todos iguais e a dita
sharia não é aplicada em todo o lado.
De qualquer modo, em metade, ou mais de metade do planeta, as mulheres não podem existir como seres humanos.
Apesar de sem elas não
existir vida, nem homens.
Não me imagino ali. Nem sequer me imagino a obedecer a um homem, aqui.
Não me imagino sem os mesmos direitos, sem liberdade, sem trabalhar, sem me
sustentar, sem conduzir, andar de bicicleta, sem vestir o que quero, sem usar ou fazer o que me apetece.
A passividade perante esta crueldade deixa-me louca.
A
aparente aceitação desta condição pelas próprias mulheres nos locais onde se aplicam as
mais radicais leis islâmicas da Idade Média dói. Mesmo sabendo que foram formatadas desde o
nascimento pela religião, tenho dúvidas que possam aceitar tal violência.
É assustador sentir a regressão do mundo. Na questão das
mulheres e em todas as outras.









