terça-feira, 5 de agosto de 2014

Perto tão longe.

Para a Gisela.


Uns dias fora do sítio habitual fazem muito bem. 

Até podemos estar perto mas mudar de casa, de cidade ou aldeia, de terra, permitem que, aos poucos, nos distanciemos das coisinhas do dia-a-dia que tantas vezes nos atormentam sem necessidade.

À medida que os dias passam, um processo natural leva-nos a separar o trigo do joio, ficando apenas o que interessa e quem é importante.

No meu caso, essa sensação de leveza não surge logo mas acentua-se nos últimos dias antes de regressar quando um nó começa a apertar o estômago devagarinho já com saudades do tempo de lazer que ainda estamos a usufruir.

Nesses últimos dias, que antecedem o “voltar à caixa de correio”, como diz a minha amiga Manela referindo-se ao regresso de férias, é quando a sensação de bem-estar atinge o seu auge. É quando começo a gostar tanto daquela vida de “não fazer nada” que chego a ponderar como seria bom viver sempre assim.

O "não fazer nada das férias" é sempre uma azáfama de fazer muito mas sem relógio e com um gozo especial. 

Tomar o pequeno-almoço na varanda, sair para uma volta matinal, como ir ao mercado e ler o jornal numa esplanada, caminhar despreocupadamente até à praia ou caminhar por um sítio descobrindo coisas, detalhes, sem saber as horas, olhar a paisagem, os outros desconhecidos, observar a natureza, nadar no mar, olhar o céu e pensar desorganizadamente…

Não é preciso ter dinheiro extra. Apenas amigos ou familiares que funcionem como anjo da guarda e nos disponibilizem, a custo zero, uma casinha, um abrigo, um sítio. De preferência num local privilegiado. 

A Gi .
É o meu caso que tenho uma amiga que me obriga a ter a todo o ano a chave da sua casinha especial. Para mim, de férias. 

É a nossa casinha, não é minha, diz a Gi com ar afirmativo. Abre muito os olhos e ameaça cortar relações se eu deixar dinheiro, comprar papel higiénico ou limpar a casa durante os dias que lá passo. Claro que transgrido. Por causa das limpezas, raspei o cabo da vassoura no olho... 
Há poucas pessoas assim mas eu tenho a sorte de ter algumas na minha vida. 

A casinha dela é um must de modernidade e bom gosto no meio de um bairro de pescadores e alguma lumparia que, felizmente, a classe média que ainda tem dinheiro para férias desconhece.

A casinha.
A casinha tem tudo o que gosto. 

Que passa por não ser um condomínio fechado com piscina, muitos seguranças e muitos BMWs à porta.
   
Ali há vizinhos reais, velhotes que nos vigiam e dão por qualquer acontecimento fora do habitual. 

Há tascas de peixe, de antigos pescadores, que grelham e servem almoços buffet a 10€, tudo incluído, peixe delicioso vindo directamente do mar de manhã 

O Ivomar.
Há gente na rua de manhã até à noite mas também sossego para olhar o rio e o mar ao longe a ouvir música.

Dá para não mexer no carro e ir ao centro da cidade desde que queiramos andar umas centenas de metros a pé. E eu quero.

Desce-se o Viso, atravessa-se o Tróino, sempre entre ruas estreitinhas feitas de casario antigo e cheias de povo que fala alto e olha para nós com curiosidade, chega-se à baixa, onde há tudo. 

Volta-se pelo mercado do Livramento, um dos melhores que conheço onde a dificuldade é não comprar tudo, da fruta e legumes ao pão e ao peixe. Ai o pão! E as azeitonas!

Há homens em grupos à volta do mercado, de pé e nos bancos da avenida, em cafés e tascos. Não dá para não comparar com as cidades do mediterrâneo ou árabes que conheço.

As praias ali perto implicam transporte mas consegui reduzi-lo ao mínimo caminhando uns quilómetros largos todos os dias como gosto. 

As praias são de areia branca e limpa, montanhas verdes atrás e água transparente, muitas vezes fria. Gosto dali, gosto muito, traindo a minha origem algarvia e teimando que prefiro aquelas praias que também acabam por nos nos levar ao Sul.


Talvez todos os sítios sejam bons se gostamos, se nos identificamos, se estamos bem. 
Eu estive bem.

Quando cheguei a casa, centenas de mosquitos pequeninos tinham invadido a cozinha por causa dum kiwi esquecido que apodreceu. Foi a minha caixa do correio. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Embaralhado emaranhado.

Setúbal. Domingo de manhã cedo, o rio e o mar avistam-se como um espelho prometendo calor à tarde. 


Quando saio há uma neblina fresca que me dá jeito por causa do olho magoado. Sigo por uma rua desconhecida no percurso do Viso para o centro da cidade. 
Deparo-me com uma quadra popular de pobres protegidos por uma nossa senhora da saúde que encontro logo à frente. Sobe e desce de ruelas e becos que depois se tornam planos. 
Há qualquer coisa de Nápoles, ruas estreitas dominadas pela Camorra, e de Nice antiga, nestas ruas meio lúmpen. Mistura de casas restauradas e em degradação, roupa estendida, rádios ligados, conversas baixas que os homens dormem ainda. Estes, há os velhos engordados apesar do peixe e os novos tostados do sol, magros, muita tatuagem e pulseiras que denunciam maus caminhos passados e presentes. 
Ainda não são dez e pouca gente passa. Se fosse de noite, teria algum receio mas o truque é, tal como em Nápoles, fazermo-nos locais, havaianas e calções, nada no bolso ou nas mãos, que o tempo de Verão permite.
O centro está vivo de esplanadas e gente que vai e vem do mercado. Não está morta esta cidade. Dá gozo um passeio descobrindo cantos e encantos. Segui propositadamente pelas vias secundárias, menos cuidadas e mais pobres. No pensamento, a parecença com outras cidades do Mediterrâneo já percorridas. O mar está ali depois. Os montes verdes da serra ao longe ajudam a gostar-se.



27 de Julho

terça-feira, 22 de julho de 2014

Viajar é regressar

Viajar

Viajar es marcharse de casa,

es dejar los amigos
es intentar volar
volar conociendo otras ramas 
recorriendo caminos
es intentar cambiar.

Viajar es vestirse de loco

es decir “no me importa”
es querer regresar.
Regresar valorando lo poco
saboreando una copa,
es desear empezar.

Viajar es sentirse poeta,

es escribir una carta, 
es querer abrazar. 
Abrazar al llegar a una puerta
añorando la calma 
es dejarse besar.

Viajar es volverse mundano 

es conocer otra gente
es volver a empezar. 
Empezar extendiendo la mano,
aprendiendo del fuerte, 
es sentir soledad.

Viajar es marcharse de casa,

es vestirse de loco
diciendo todo y nada con una postal,
Es dormir en otra cama,
sentir que el tiempo es corto,
viajar es regressar”.

Gabriel Gárcia Márquez

Já tinha escrito um texto quando, ontem à noite, li este poema de Gabriel Gárcia Marquez publicado no Facebook por um português que é um grande viajante, Pedro Norton de Matos.

Li e reli, hoje pela fresca da manhã. Está lá tudo, magnificamente dito.

Por isso, abro a página com o poema e refaço o meu texto, reduzindo-o a umas notas pessoais sobre viajar e férias.

Viajar em férias é bom. Conheço quem não goste. Dá trabalho. Quantas vezes, o gozo maior não é a preparação. Imaginar itinerários, planear visitas, descobrir o desconhecido.

Para quem tem medo de andar de avião, como eu, quando chega a hora de partir, de fazer o raio das malas, de tentar levar pouca coisa sem conseguir, de organizar as tralhas, não esquecer nada, chegar a horas ao aeroporto, passar o check-in e a segurança, penso “porque me meti nisto que estava tão sossegada em casa”.

Mas depois, chegada ao destino, o descobrir e conhecer supera as questões logísticas. No regresso, as recordações são apenas as coisas boas.

Gosto de ir a sítios diferentes, com algum índice de dificuldade. Só por questões financeiras, de tempo e do pânico de estar demasiado tempo num avião, me impedem de ir mais longe. 

Também há destinos que não me atraem e outros que atraem muito. Não sei a razão.
Os países do Mediterrâneo, ou na fronteira do mesmo, sempre me atraíram tal como a arte islâmica feita de azul e verde, verde esmeralda, azul turquesa, mosaicos e torres esguias.

Há mais de uma década, assim que o meu filho chegou à adolescência, optei por viajar com ele em vez das tradicionais férias no Algarve, no sítio de sempre, nas praias de sempre.

Foi assim que fizemos algumas viagens inesquecíveis como uma a Nápoles e à costa amalfitana e outra ao Egipto, esta a mais memorável. Ainda bem que o fizemos pois agora seria pouco provável consegui-lo.

Permitiu-me mudar a opinião sobre as pessoas daqueles países que não são todas fundamentalistas islâmicas mas pessoas como nós, apenas com outra cultura e costumes.

Quando fiquei desempregada, este Inverno, a primeira coisa que pensei foi que teria que fazer uma viagem. Sair uns dias. Só longe, com pouco acesso à informação "tuga", de preferência num local com uma língua imperceptível, poderia cortar realmente com a situação vivida.

O plano era ir à Índia, destino que está, desde sempre, nos meus desejos.
Não deu porque convém que tal aconteça preferencialmente no nosso Inverno e as questões processuais do desempregado funcionam como uma prisão, com apresentações e inúmeras obrigações que tornam uns dias de afastamento do local de residência impossíveis.

Acabei por fazer algo que nunca fizera, por questões orçamentais, viajar em grupo, por uma agência. Destino Turquia. Istambul e um bocadinho do resto, que é imenso e rico.
Apesar de não ter usufruído da liberdade de vaguear pelos sítios sem limites, como gosto, o balanço foi muito positivo. Soube a pouco mas aconteceu. Fico feliz por ter conseguido concretizar.


Talvez as dificuldades ajudem a valorizar uma curta viagem de uma semana para um destino que merecia maior extensão e detalhe.

Penso na facilidade que ex-colegas e amigos têm em viajar, como eu já tive. A minha opção significou um mês a menos de subsistência, no pior cenário.

Esta viagem e o que conheci já ninguém me tira. A grande vantagem das viagens é essa. Podemos ficar sem-abrigo um dia mas as memórias dos sítios que conhecemos não nos podem ser roubadas.

Apesar de o afastamento funcionar mesmo bem para desligar do dia-a-dia, desta vez estive demasiado perto de cenários de guerra e destruição. Olhando o mapa, quer a norte, quer a leste ou a sul, há guerra.



Em Istambul, junto ao Bósforo, nos jardins que ladeiam os portos e outras zonas antigas da cidade, viam-se grupos de mulheres e crianças, alguns homens, sentados à sombra, com grandes sacos pretos de lixo carregando o nada dos seus haveres. Refugiados da Síria. Dos que ousaram não ficar nos campos de refugiados e tentam chegar à Europa em busca de uma vida… 

Crianças corriam e brincavam na relva, como todas as crianças do mundo, mas estas ranhosas e descalças, aproximavam-se de nós, muito timidamente, a pedir um euro. Não dá para não ver, para não pensar que podia acontecer connosco.


No dia do regresso, num excelente voo da Turkish Airlines em que deu para espreitar as neves permanentes dos Alpes, um pouco mais a norte, do outro lado do Mar Negro, um avião igual, era abatido por um míssil.

Na Palestina, também não muito distante, a destruição da Faixa de Gaza intensificava-se num terrível cenário de morte.

Pensei na nossa sorte, grata por voltar, sã e salva, ao meu país, à minha casa, à minha rua, aos meus, em paz, "valorizando o pouco"... 
Sonhando partir outra vez.


sábado, 5 de julho de 2014

Pessoas que não Pessoa.

Ontem à tarde, fui ao Chiado. Nunca li o Livro do Desassossego nem o tinha apesar de muito o querer. Mas nunca aconteceu, não sei bem porquê. Na Feira do Livro não deu para o comprar. 

Só gosto da edição da Tinta da China, de capa mole. Para mim, o grafismo, a tipo de letra, o papel e a impressão dos livros é essencial. O livro é um todo. Se o conteúdo for óptimo mas a edição / impressão for horrenda afecta-me a leitura.

Na véspera, tinha visto uma reportagem na televisão sobre um norueguês, Christian Kjelstrupapaixonado por Pessoa, que montou uma Livraria do Desassossego dentro da loja Casa Portuguesa, durante uns dias, só com o Livro do Desassossego à venda. O fruto das vendas vai para um projecto de solidariedade. Na reportagem, vi o preço, 15€. Até hoje, o valor mais baixo para este livro e logo na edição da Tinta da China. Só até domingo. Fiz contas à vida, pensei que  era esta a oportunidade para adquirir o livro.

Lá fui, a meio da tarde, directa ao alvo. De metro, claro. Gosto de andar de metro. Em Lisboa, onde moro, tenho a sorte de ter o metro perto, logo abaixo da minha rua.



Estação terminal e inicial. Sento-me. Gosto de observar as pessoas. 
Sinto inveja de quem lê no metro. Para mim, desde que tenho que pôr óculos para ler, torna-se complicado porque depois, se olhar em frente, tenho que os tirar. 

De modo que acabo por me limitar a observar as pessoas, os seus comportamentos, a ouvir as conversas, a imaginar como será a vida daquela pessoa, qual a sua ocupação, a família, onde viverá, presumo pela estação onde sai e pelo aspecto. Acertarei? Não sei.

Esta observação dos outros sempre foi um entretenimento se estiver num local público sem ocupação. Que vem de longa data e parece uma herança familiar.

Todos nós tínhamos este costume. Quando, nos anos 70 da minha adolescência, eu, o meu pai e a minha irmã, almoçávamos num restaurante, ficávamos a observar as pessoas das outras mesas. Ficávamos os três a olhar intensamente para as pessoas, sem dar por isso. Geralmente, coincidíamos no mesmo observado. Só quando um de nós sentia as pessoas já incomodadas perante a persistência do nosso olhar, acordava daquele estado, despertava os outros. Quantas vezes o meu pai dizia, no seu sarcasmo humorístico, “digno de um filme de Fellini”.

Olhar intensamente pessoas, muitas vezes nos olhos, sempre me caracterizou. Acho que pela simples curiosidade pelo outro, de me pôr no lugar daquela pessoa. Um exercício para momentos sem ocupação.

Ontem, quando entrei no metro do Chiado, carregada com dois sacos pesados de café, ao sentar-me, toquei levemente nos joelhos dum senhor idoso a quem pedi desculpa. Depois, frente a frente, foi impossível não o observar. Lembrei-me logo do meu sogro. Magro, muito branco, o mesmo tipo de vestuário, relógio antigo no pulso feito já só pele sardenta e osso, um rosto bonito, uma elegância mantida do passado. 
Tão frente a frente, desviei o olhar para não ser intrusiva. Quando saiu em Alvalade, o senhor disse-me boa-tarde. Estava certa.



À volta, muitas mulheres de cor, fortes, mais jovens ou menos jovens, mais ou menos bonitas, vestidas de cores garridas, unhas dos pés rosa ou azul turquesa, cabelo atado em carrapito. Quase todas de telemóvel ou smartphone na mão, teclando ou falando alto. Aliás, como quase todas as pessoas no metro. Ontem e todos os dias.

Outros, auscultadores nos ouvidos, centrados em si mesmos parecem não reparar em nada à volta.

Achei graça porque, sentada ao meu lado, uma senhora dos seus sessenta e muitos, a rebentar pelas costuras, tirou da mala um inesperado tablet e começou a ler o que presumo seria um livro. Espreitei discretamente. Letra pequenina que vi toda turva sem conseguir ler uma só palavra.

Também há quem leia livros, há que ser justo. Não tanto jornais como os viajantes de outros metros, noutros países, nomeadamente Londres, o que nesta matéria conheço melhor.

Ontem, na minha ida ao Chiado, curta, acho que demorei por lá apenas trinta minutos. Desassossego e Nespresso. Voltei rapidamente, apesar da beleza imensa da zona, de Lisboa azul, do rio ao longe, a marcar as nossas vidas.

Sentia-me invadida por uma apatia nostálgica que não me é habitual. Sei porquê. Há momentos em que temos que tomar decisões que preferíamos não tomar. E por muito fortes que nos façamos face aos outros, ou até o sejamos realmente, uma tristeza funda não nos deixa sentir alegres.

A observação dos outros foi uma boa terapia para os vinte minutos da viagem. 
Quando saí no meu bairro, a luz plena da tarde e o movimento da rua, aliviaram a minha letargia. Com a ajuda dum gelado!

O mais engraçado é que esta manhã, ao pequeno-almoço, leio um artigo de Júlio Machado Vaz sobre um estudo recente: 
"Meditar, sonhar acordado ou fazer introspecção durante alguns minutos, sem fazer mais nada, é algo difícil para a maior parte das pessoas, conclui um estudo norte-americano. Segundo os seus autores, a mania dos ecrãs seria disso uma consequência e não uma causa. (…) A maior parte das pessoas – a quem fora pedido para ficar sem fazer nada, numa sala vazia ou em casa, e para pensar durante seis e quinze minutos – declarou que a experiencia “não foi agradável e que teve dificuldades em concentrar-se”.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia.



Abri o volume da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen ao acaso.

É um livro que tenho na minha mesa de trabalho como outros preferidos.

Página 199, Ouve.





Ouve:
Como tudo é tranquilo e dorme liso;
Claras as paredes, o chão brilha,
E pintados no vidro da janela
O céu, um campo verde, duas árvores.
Fecha os olhos e dorme no mais fundo
De tudo quanto nunca floresceu.

Não toques nada, não olhes, não te lembres.
Qualquer passo
Faz estalar as mobílias aquecidas
Por tantos dias de sol inúteis e compridos.

Não te lembres, nem esperes.
Não estás no interior dum fruto:
Aqui o tempo e o sol amadurecem.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O sul tem o tempo.




Lá longe
Inventei o dia azul
E o desejo de partir
Pelo prazer de chegar
Ao sul
Cada um tem a sina que tem
Os caminhos são sempre de alguém
ao Sul *


O sul tem o tempo, disse a minha amiga com o seu tom filosófico, logo na primeira conversa de fim da tarde, sentadas ao sol fresco do fim do dia. Isto perante o meu inebriamento face à luz, a cor, os cheiros, a beleza envolvente, a calmaria sem horas.

O sul tem o tempo, o norte tem as horas. Repetia ela, acrescentando que não se lembrava de quem disse isto. Um pensador, um filósofo de que não se lembrava do nome. A minha amiga é de Filosofia.

Eu fiquei a pensar na poesia da expressão. O sul tem o tempo. Fiquei a pensar no significado da frase. Em como é assim, realmente. O sul é o tempo, o norte as horas.

O tempo. Um vagar azul rosado pairava no ar. Eu esforçava-me por estar quieta, sem fazer nada a não ser conversar, ouvir, olhar o horizonte, beber a limonada ácida. A pensar que se estivesse em Lisboa, estaria na hora do jantar, da televisão, dos telefonemas, dum compromisso qualquer.

Ali não.Queria absorver o tempo do sul.

Tinha saído de Lisboa precisamente com esse objectivo. Direcção Sul, Algarve. Não ía para perto do mar. Iria ficar antes, depois da serra, no barrocal.

Gosto de sair a guiar, sozinha, música escolhida, dia azul, compromissos deixados atrás, a liberdade de ir estrada fora…

Parei na estação de serviço de Grândola. Bebi um café. Voltei à auto-estrada. Os quilómetros até Almodôvar quase sem ninguém. À volta só havia planícies douradas. E cegonhas. Muitas cegonhas. Não me lembro de as ver por ali, dantes. Uma rasou o carro.

Foto de VLuís 
Como pude afastar-me tanto do sul? 
Fui passando por placas de sítios que lembraram o passado, anos longínquos, memórias de bocadinhos de vida boa quase esquecidos.

De repente, reparei que o António Zambujo cantava “Ao Sul”. Coincidência?

“Lá longe / inventei o dia azul / E o desejo de partir / Pelo prazer de chegar / Ao sul / Cada um tem a sina que tem / Os caminhos são sempre de alguém / ao Sul”

Gomes Aires, Almodôvar, gosto destes nomes, sempre gostei. Como seriam actualmente? Pensei que o regresso seria por lá, por dentro daqueles sítios, por dentro daquelas terras.

De repente, já estava na Serra do Caldeirão. Ao longe, por entre os montes, à direita, o maciço da Serra de Monchique, um recorte ténue mas firme.

Que saudades do sul. O desejo de partir inventado. O prazer de chegar anunciado. A minha sina. Cada um tem a sina que tem. Os caminhos são sempre de alguém. Sempre. 

Os caminhos são sempre de alguém
Olhei para a esquerda, os montes baixos do Caldeirão, aspros, secos. A estrada antiga de cujos cheiros me lembro. Tantas vezes paramos para eu vomitar, enjoada das curvas sem fim. Do Barranco do Velho para cima. Janela aberta para ver se passava o enjoo. O meu pai travava em cima da curva e o fumo do cigarro sempre aceso atingia-me em cheio. A janela aberta para inspirar o cheiro a eucalipto, a medronho, a mato. O cheiro da serra. Ainda não sabia que o tempo era do sul.

Nem agora, serra ultrapassada com a facilidade das três vias de auto-estrada, velocidade a mais, o carro segue embalado. A vida também seguiu embalada, rápida, nas horas do norte.

Repeti “Ao Sul”, a música desta viagem, por um acaso. Deste texto.

“Ao sul / à procura do meu norte / Subo as águas desse rio / onde a barca dos sentidos / Nunca partiu”.

De barranco em barranco, já passava o de Odelouca. O meu destino quase.
Demorou de menos esta descida. Cheguei cedo. Foi o carro que embalou, a estrada deserta, o céu azul, a terra é vermelha.


Saí do carro. Tudo era verde de tantas alfarrobeiras e figueiras à volta. O cheiro. O cheiro. Ah, quanto tempo. Mas isto é tão isolado, já não me lembrava deste barrocal em pleno, amiga. Desculpa mas não notas o cheiro, os cheiros?

A minha amiga ria-se. Estás espantada. Rimos. Estou espantada. Porque não vim antes? Não consegui encontrar resposta.
Isto foi antes de saber que o Sul tem o tempo.

Fora das horas do Norte, passei dois dias, com tempo. Noutro tempo, sem horas. Com outras pessoas, outras cores. Conversas com tempo à mesa, sem mesa, ao sol, com vento, no sul.

Dali não se vê o mar. Foi a primeira vez que fui ao Algarve e não vi o mar, pensei.

Foi preciso voltar. Custou. O Norte tem as horas. O Sul tem o tempo. E as bungavílias…

Decidi prolongar o Sul. Saí da auto-estrada em Almodôvar.



Meti pelo meio do Além Tejo, Alentejo, os pensamentos cheios, um turbilhão calmo de novas hipóteses, da possibilidade de outra vida.
A música e a voz do Zambujo. Ao Sul.



Castro Verde, planícies douradas, Aljustrel, minas fechadas, Ervidel, campos de girassóis, Ferreira do Alentejo, árvores que voltam e mais umas curvas, só paro no Torrão. O Torrão de barras azul forte. O Sul a ficar sem tempo. Alcáçer ainda é sul, apesar do sal.



Reentrei na auto-estrada. Voltei ao Norte com o Sul na alma.

* de João Monge e João Gil

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A discriminação silenciosa das mulheres.

Só posso falar do que conheço. Do trabalho das mulheres, quadros de empresas, com cargos de responsabilidade, chefias ou não. Do que vivi.

A discriminação é feita no dia-a-dia. E, sobretudo, nos níveis superiores, no topo, ou naquilo que é topo para as mulheres.

Como? Antes de mais, sendo sempre a opinião delas menos considerada ou até ignorada. Se é mania da perseguição? Não. No turbilhão do dia-a-dia, quase não notamos. Terá sido, afinal, apenas um mal-entendido, tendemos a pensar?

Quando paramos e olhamos para trás, reflectimos e analisamos objectivamente é que percebemos. 

Muitas mulheres, perante o protesto face a certas situações que acontecem por se ser mulher, acham que é exagero de pessoas fundamentalistas do género "lá estas tu com essas coisas". 

Pois é. As mulheres são fantásticas trabalhadoras mas não têm passado disso mesmo.

Os números referentes à participação de mulheres nas administrações de topo das empresas cotadas em bolsa são ridículos.

Dados de 2013, evidenciam que, apesar das mulheres serem 55% da população activa, só 7% se encontram em conselhos de administrações de empresas em Portugal. 

Nas empresas que compõem o PSI 20, ou seja, nas principais empresas cotadas em Bolsa, em 240 administradores só 15 são mulheres.

Na Administração Pública, onde parece haver mais paridade no acesso ao poder, apenas 21% exerce cargos de gestão. 

Não tenho números sobre o Ensino mas julgo que aqui o número será menos mau. Ou então o número será maior apenas em quantidade de professoras. 

Na última escola onde a minha mãe deu aulas, havia 20 mulheres professoras e um homem professor mas este é que era o director.

Nas áreas de engenharia, apesar do crescimento de licenciadas, o número é de apenas 5%.

Não falo aqui da grande maioria das mulheres que trabalham desalmadamente em trabalho não qualificado, indiferenciado, doméstico, no campo ou em fábricas, nos balcões, nos bares, em todo o lado. Afinal, são 55% da população activa. 


Nas empresas de áreas como a consultoria e as tecnologias de informação, que tiveram um grande crescimento nos últimos vinte ou vinte e cinco anos, geridas pela geração nascida nos anos setenta, pratica-se a meritocracia.

Essa é a resposta-tipo quando questionados sobre o pouco acesso das mulheres às decisões de gestão e aos cargos de topo. É uma treta. 
Nessas empresas, existem clubes de amigos que podem ter um mau desempenho infinitamente sem nunca ser penalizados. 

A meritocracia pressupõe uma avaliação com base no mérito, no desempenho, face a objectivos bem definidos e aprovados por ambas as partes. 

Inspirados pelos modelos americanos de progressão rápida, neste tipo de empresas, generalizou-se a ideia falsa de que seria possível ser reconhecido pelo mérito. Não é verdade e esse modelo tem vindo a demonstrar-se um logro.

Mas essa é a resposta preferida dos jovens gestores que ficam em pânico perante a perspectiva da presença das mulheres poder estragar o clube de comparsas cujo pico orgásmico são umas noitadas futebolísticas ou uma prova de vinhos exorbitantes acompanhados de umas charutadas num restaurante de luxo.

Confesso que, apesar de tudo, prefiro as empresas clássicas, também maioritariamente geridas por homens mas onde se sabe com o que se conta e onde um certo cavalheirismo dos mesmos permite que o ambiente seja mais afável. Ainda que existam, de vez em quando, uns assédios chatos que as mulheres, se quiserem, conseguem contornar.

Este parágrafo é suficiente para as velhas feministas se zangarem.
Tive o meu tempo de leituras inspiradoras como os livros de Naomi Wolf, por exemplo, que me marcaram.


Em todos os casos, sempre há uma excepção que confirma a regra intransponível. 

Na velha indústria, havia uma mulher directora de uma fábrica. Nas empresas modernas, sempre a inovar, arranja-se um exemplar para adornar o grupo e responder às cotas que a Europa começa a exigir. 


O problema é que estas excepções são em geral mulheres que adoptam o comportamento mais radical dos machos mais fundamentalistas, tornando-se mais papistas que o papa. E com requintes de malvadez.

Enquanto mulher independente, que dependo só de mim e do meu trabalho, fui vivendo a evolução das mulheres ao longo destes últimos 30 anos. 

Fui educada a não ser subserviente e a pensar por mim. 

A minha geração viveu a explosão da liberdade a todos os níveis, conquistas das mulheres, aqui e no mundo. Uma liberdade incrível. Uma curiosidade imensa. A descoberta de todas as possibilidades, de todas as utopias.

Vivemos a entrada em força no mercado de trabalho em suposta igualdade de condições. Vivemos o ser mãe sem restrições trabalhando ao mesmo tempo, sem complexos. 

Não me lembro de pensar numa carreira. As coisas iam acontecendo. A trabalhar por gostar. A construir. A aprender e a fazer. 

A obsessão com a carreira vem precisamente na geração seguinte, os nascidos nos anos 70. Com a implantação em pleno do capitalismo, com as suas empresas e mercados, as suas pseudo meritocracias e outras teorias do género, que foram encurralando silenciosamente o caminho histórico percorrido pelas mulheres. 

A vivência e a memória das conquistas obtidas pelas mulheres vão-se esbatendo à medida que as gerações mais velhas são postas de parte ou desaparecem.

Por isso, há quem não se indigne com as noticias sobre empresas que exigem que as mulheres não engravidem durante 5 anos. E outras humilhações e atentados aos direitos básicos.
Isto faz saudades do feminismo e dos anos 60 em que se queimavam soutiens em protesto contra estes, considerados símbolos de opressão.

A crise e a falta de emprego não podem ser desculpas para aceitar tudo. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

Futebol.

Ontem estive "fora de serviço" por causa duns exames médicos que fiz. Correram bem, tudo ultrapassado. Deitei-me com as galinhas e hoje espero voltar a ter a energia habitual, trabalhar e dar conta do recado.

Durante o regresso do hospital, uns 15m de carro, a Alemanha meteu três golos. Em casa, televisão ligada, ainda vi o 4º golo, tal como a cena do Pepe e o péssimo jogo da selecção. 
Ainda durante o jogo, meia grogue, deixei-me dormir...

Sempre achei que Portugal não tinha hipóteses. Não falei antes disso aqui porque não falei do tema e nos últimos dias tive outras preocupações mais vitais.
Claro que desejava, como todos os portugueses, uma vitória, ou um empate, nem que fosse para chatear a Merkel, presente no estádio.

Mas tanta conversa em torno do deus Ronaldo, das toilletes dos rapazes, do bigode do Hugo Almeida, dos carros, da decoração dos quartos, do histerismo das fãs, de reportagens sobre o irreportável, advinhava pouca concentração no trabalhinho. 
Para que são pagos a peso de ouro. Por nós. 

Desculpem, mas naquele nível de profissionalismo, não é aceitável que o Pepe, essencial para a equipa, vá dar uma cabeçada ao Muller por um acesso de raiva do momento. 
Se compararmos com o trabalho de qualquer um de nós, não o poderíamos fazer ao primeiro colega que nos irritasse, certo?

Na equipa alemã, não há cortes de cabelo esquisitos, nem nada do resto. São todos iguais, branquinhos, da mesma altura, magrinhos, boring, mas profissionais. Tudo certo e limpo, sem espinhas.

Parece que a equipa dos EUA também não está nada mal e marcou no 1º minuto. Todos já vimos este “filme” mas insistimos em não aprender.

Fazer diferente. Eu gosto do Paulo Bento mas ontem não esteve bem como líder que deve ser. No meio da minha dormência, ainda ouvi o Tony falar no jornal da noite da SIC, muito bem. Vamos esperar que tomem juízo e invertam a situação. Que trabalhem em equipa. O futebol é um trabalho de equipa, caramba!

Porque a malta precisa de ânimo para continuar. E o futebol é um belo ópio para esquecer os dramas do dia-a-dia.

Enquanto isto acontece, no mundo cresce a guerra e dão-se factos preocupantes. E, neste nosso Portugal esfrangalhado, o governo insiste em medidas no caminho do aumento da desigualdade e da pobreza de quem já o é. E nós a ver futebol. E reportagens da treta.

Na noite de domingo para segunda, tive que estar acordada a beber uns litros dum remédio, até cerca das 4h e tal. Fui fazendo zapping pelos canais de televisão porque não conseguia concentrar-me para ler. 

Estive umas horas a ver uma excelente reportagem sobre o Brasil no canal Aljazeera. Daquelas em que aprendemos coisas, história, economia, situação actual. Muito bom. 
E uma excelente reportagem sobre os veteranos americanos que voltam do Iraque queimados, sem pernas e sem braços, sem orelhas, estropiados, com trinta anos ou menos e têm que continuar a viver. 

Os canais portugueses, pelo menos aí entre a 1h e as 2h, estavam todos no Mundial ou em telenovelas. Uma excepção para o Observatório do Mundo na TVI 24 onde vi a reportagem dos veteranos, pelas 4h.

Acabo de ouvir na rádio um dos nossos jogadores a dizer que têm que parar para reflectir. Pois acho que têm reflectido demais e o melhor é treinar muito e muito, já hoje.

Eu também tenho que recuperar o tempo perdido e trabalhar uma vez que dependo só de mim mesma. Bom mesmo é ter saúde para o fazer!