quarta-feira, 28 de maio de 2014

Refúgio.

Nos fins de semana, quando estou no campo, gosto de fazer passeios de bicicleta ou a pé. Apesar de estar perto de Lisboa em quilómetros, é como se estivesse muito longe.

A distância é suficiente para um estilo de vida diferente em que o tempo é passado quase todo ao ar livre. Ou à beira do fogo, lá dentro.
Há sempre coisas para tratar cá fora, num espaço meio pátio meio quintal. É abrigado por muros altos de cal que protegem do vento mas abafam nos dias de calor. Estes muros permitem estar bem ao sol nos dias de frio moderado.

É uma casinha numa travessa no centro duma pequena vila no Ribatejo que encontrámos por acaso num domingo de Inverno há três anos. 
Estava para alugar. Era a única na altura. Foi mesmo antes do anúncio da crise.

Era a possibilidade de concretizar um sonho que sempre tive. Muita gente herda algo assim e arranja. Mas eu não. 
Dependendo só de mim e do meu trabalho, só nesta altura surgiu esta hipótese.
Ter um espaço fora de Lisboa, tradicional. Rural, pequeno, abrigado, um refúgio. Onde pudesse descansar e receber os amigos.
Era na terra da família do Zé. E podia partilhá-lo e construí-lo com alguém.
A situação já era adversa mas sempre fui de avançar e avancei. 

Adoro fazer do nada. Adoro casas, imaginar como as transformar e pôr ao meu jeito. 
E foi assim. Pegámos naquela base e fizemos a casinha a que chamamos casalinho que é o nome da travessa onde se situa.

Um resumo possível.
Foram uns anos felizes. De pouco descanso e muito trabalho. De muito prazer e fazer acontecer. Uma salvação para a vida louca dos meus dias de semana. 

As memórias são todas boas. Quantas fotos e textos publiquei sobre o caminho das oliveiras percorrido quantas vezes. Com calor abrasivo, com frio de rachar, com chuva, quase de noite, a pé, de bicicleta.
Quantos petiscos criámos e vinhos bebemos?
Tenho o meu pinheiro e a minha serra que marcam a paisagem. O Montejunto é lindo e está sempre lá. Tudo seria diferente sem ele.
Os nossos telhados continuam a ser dos gatos que nascem, selvagens.

Gosto do casalinho, da casinha, dos vizinhos, dos caminhos, da terra e das terras, do Tejo e da lezíria. 

Podia ter mais dinheiro no banco que agora seria importante mas não teria vivido tudo isto. Talvez não possa continuar muito mais tempo. 
Mas valeu a pena. Mesmo.

(Não pensava escrever nada disto quando me sentei depois do almoço e após um começo de cólica renal inesperado, como todos, aliás. Precisava de algo leve para ver se a dor passava. Não passou completamente e o  tema complicou-se. Não sei porque o partilho...)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Fazer um bolo.

Esta minha nova vida vai-me surpreendendo. 

É assim. Nunca fui muito devota da culinária. Contrariamente à grande maioria das pessoas, especialmente das mulheres, cozinhar nunca me interessou. Comida mesmo fui e vou fazendo, ainda que sem grandes complexidades. Doces, é que não.

Felizmente, até há pouco tempo, podia comprar deliciosos bolos quando necessário. Para quê fazer eu?


Consegui passar toda a infância do meu filho sem fazer um único bolo, apesar de realizar as obrigatórias festas de anos em que era convidada toda a turma, umas dezenas de "pestinhas" que era preciso entreter e alimentar. 

Lá me fui safando com uns belos bolos de aniversário encomendados na clássica Versalhes. Mais uns salgados que a minha empregada, à época, tão bem fazia, e as sandochas miniatura com batatas fritas. Estava feito.

Felizmente, há vinte anos, as festas dos miúdos não exigiam animações encomendadas nem palhaços nem fadas. 

Alugava-se a sala do condomínio, fazia-se o lanche e a miudagem brincava em correrias entre o espaço interior e o exterior. Felizmente também, para mim, eram na maioria rapazes podendo, assim, parte da tarde ser ocupada com o jogo da bola. 

Para os adultos, o meu pai vinha de Faro especialmente, dois dias antes, e fazia o seu maravilhoso arroz de pato e outras iguarias, como lagosta fingida ou pratos que inventava. 

O meu ideal é sentar-me à mesa sem ter tido qualquer intervenção na refeição. Não quero ver programas na tv sobre "masterchefs" nem revistas de luxo com cozinhados e cozinheiros. Quando em acções de team building, fica tudo muito animado com hipóteses de programas em que se cozinha, fico gélida e faço tudo para o evitar. 

Atenção, isto não quer dizer que não cozinhe bem. E gosto de fazer entradas, pratos com molhos e muitos temperos, escolher queijos e vinhos e, claro, comer!

Voltando ao tema de hoje, os bolos.

Quando fiz um ano, a minha mãe iniciou um ritual familiar que a levaria a fazer quase 200 bolos de bolacha nos últimos 54 anos. Julgo que 189 mais exactamente mas com uns extras, acho que chega aos 200. Sempre no mesmo formato e no mesmo prato. O último foi este de Outubro passado, quando a minha irmã fez 51 anos.


Havia uma superstição, de um eventual azar acontecer na família, se, por exemplo, nos meus anos, em Janeiro, não houvesse o bolo de bolacha da minha mãe. Fosse em restaurante ou não, tinha que ser. Comido em casa ou transportado para o restaurante. 

Até que este ano, decidimos acabar com a tradição.
O ano de 2013 foi bera, coincidência de vários azares, apesar do bolo. 
Por isso, ousámos romper com a coisa. Sobrevivi já 5 meses, vamos ver como corre o resto do ano.

Eis senão quando, agora no início de Maio, nos anos do meu filho, comemorados a meias com os 92 anos da outra avó, me deu uma súbita vontade de aprender a fazer o bolo da bolacha, receita da minha mãe. 
E assim foi, embora acompanhado e feito na casa dela, conforme reportagem fotográfica junta. 


Hoje, atrevi-me a repetir, movida pelo desejo de surpreender o Zé nos seus 60 anos, inventando. Sozinha, aldrabando medidas e receitas. Porque o que me chateia nos bolos é aquilo das gramas e não poder ser a olho!

Sem a vigilância da minha mãe, pude ir roubando com o dedo bocados de creme. Tal como fazia com a massa dos bolos que ainda tentei fazer, no início de casada.

Coloco mesmo a hipótese de começar a fazer um ou outro bolo de vez em quando. Não achei assim tão doloroso... Reabilitei os materiais necessários, adormecidos há décadas na despensa. Até a batedeira moulinex, que me ofereceram quando casei, funciona. 
O perigo é grande.

Finalmente, o meu filho poderá ver satisfeito o seu desejo de ter uma mãe gorda mas que faz bolos, como ele tanto queria na adolescência, decepcionado com a minha falta de dedicação à culinária.

Com apenas dois bolos no curriculum recente, estou longe da perfeição do bolo azul mas, tal como noutras áreas da minha vida, convencida que vou conseguir fazer alguma coisa. Quem sabe, inovar?


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Ainda o medo.

"Do que tenho medo é do teu medo."
                                                                                 William  Shakespeare 


Não que tivesse dúvidas, mas os dias que se seguiram à publicação do último texto, sobre o Eixo do Medo, confirmaram o realismo do que referi.

Em mensagens privadas, colegas e amigos disseram-me que concordavam com o texto mas que não se atreviam a exprimi-lo publicamente.

Isto mostra bem como se vive sob ameaça na sociedade e no meio empresarial, sob a capa do informalismo camarada do tratamento por “tu”, que cria uma falsa intimidade/cumplicidade, e a implementação de marcas modernas e focadas nos benefícios para as pessoas.

Os gestores só mudarão o seu comportamento quando sentirem que essas tais pessoas, os trabalhadores (colaboradores) das suas empresas não têm medo, que ousam dizer o que pensam e são dignas de confiança porque são elas os profissionais que fazem o negócio acontecer e os números crescer.

Enquanto a maioria optar pelo silêncio e pelo “baixar de braços”, por achar que não vale a pena chatear-se pois basta-lhes ir cumprindo os dias e ganhar o salário ao fim do mês, usufruindo dos seus pequenos luxos, achando que a eles nada lhes acontecerá, nada realmente mudará e os que agem doutra maneira serão sempre os incómodos, que perturbam o grupo e “não vestem a camisola”.

As dinâmicas de grupo que levam os indivíduos a comportarem-se socialmente como o chefe, com medo da exclusão, são, no fundo, as mesmas das praxes, quantas vezes com os resultados extremos que conhecemos.

Esse medo entranhado leva as pessoas a atitudes que julguei impossíveis.

“As pessoas sem medo e felizes são muito incómodas. Porque espelham as limitações dos outros, mesmo só com a presença”, escreveu-me hoje alguém que vive fora de Portugal há muito e estuda a gestão e a comunicação nas empresas.

Será?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O eixo do medo.

"À medida que nos libertamos do nosso próprio medo a nossa presença liberta automaticamente os outros".                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Nelson Mandela

Na semana passada, preparava-me para escrever sobre o medo, o pequeno medo, quando me deparei com o texto de António Guerreiro, re-publicado no The Ressabiator de Mário Moura, sobre "a privatização do microfascismo”. Achei-o perfeito.
Incentivada por um amigo numa conversa de almoço, na véspera, tinha tomado notas para escrever especificamente sobre o pequeno medo que se vive no dia-a-dia no mundo do trabalho. Decidida a vencer o meu próprio medo de o fazer.
Ao ler o artigo de A. Guerreiro, achei que este abordava aquilo de que eu tanto queria falar. Fiquei meio perdida, sem perceber se poderia acrescentar algo a tão preciso e perspicaz conteúdo. Afinal,quem sou eu para acrescentar alguma coisa a um experimentado e qualificado jornalista? Li e reli as suas palavras, curiosa sobre se teria ele vivido isto ou o sabia apenas por estudo e observação.
Precisei duns dias para me reorganizar e, ainda assim, com algum medo, ousar escrever sobre o tema, tentando acrescentar alguma coisa.
Diz ele que “Na relação das empresas com os seus “colaboradores” (este novo nome para os trabalhadores vale como uma sintoma), o clima é friendly, o chefe não é um patrão, mas um líder, e a “cultura” empresarial que se constrói é sempre de colaboração e a-conflitual, orientada para uma “missão” e determinada por uma “visão”. Por trás, sustentando esta “cultura”, está o medo, não o grande medo inculcado pelo fascismo tradicional, mas os pequenos medos que o novo fascismo gere e multiplica”. Não me lembraria de lhe chamar assim, confesso.
Talvez por, apesar do meu “processo de libertação” em curso, estar afinal ainda refém do sistema. A empresa de onde saí e a que ainda me liga muitos anos de trabalho e empenho espelha o parágrafo acima com aflitiva exactidão. 
Uma coisa é certa, o medo individual e interior, o medo quotidiano, sussurrado na chamada “rádio alcatifa” (bares e espaços de convívio), entre colegas “amigos”, é terrível. E quem tenta não praticar o medo, ou seja, agir doutra forma, é fortemente penalizado.
A moda do foco na diferença do indivíduo não passa de uma treta. A realidade mostra que é compensado quem é graxista, quem não é frontal, quem não diz o que pensa, quem vai andando, discretamente, apresentando resultados mas sem dar demasiado nas vistas.
O enorme gap entre a prática dos gestores e a visão e valores que eles próprios definem para as suas empresas é inacreditável.

O investimento em consultores externos, desde especialistas em Comunicação e Design a qualificados Coachers nacionais e estrangeiros, bem como reconhecidos oradores que trazem o último grito da moda empresarial, seria melhor empregue no melhoramento das condições de trabalho, no aumento dos salários médios e na criação real de oportunidades de crescimento aos muitos jovens escolhidos para mão-de-obra barata.

Todo um sistema de padronização de valores é dado como exemplo pela gestão de topo. 
O foco está todo numa máquina de criação de luxo induzido. Carro topo de gama, últimos gadgets, casa na praia da moda, golfe e férias na neve, degustação de vinhos e leitura do resumo do último livro comprado na Amazon.

Para a maioria dos quadros destas empresas, que atingem o management pelos 30/35 anos, este é um universo aspiracional para o qual foram formatados e do qual ficam reféns. O único modelo de vida empresarial que conhecem num mundo de sucesso em que uma falha num processo pode deitar tudo a perder. Onde o medo dessa possibilidade é constante. Onde não fazer ondas é essencial.


A competitividade entre colaboradores, nunca trabalhadores como tão bem diz A. Guerreiro, é muita apesar dos valores vigentes, formalizados em Códigos de Conduta aprovados pelas administrações com solenidade, apelarem aos métodos colaborativos, à pareceria, ao bem, numa ideologia próxima dum cristianismo inexistente.

Todo este sistema empresarial se organiza em torno do estar permanentemente “sob suspeita”, criando “um pacto de segurança para a gestão de uma paz angustiante”, falsa, sentida por todos sob um silêncio colaboracionista, reforçado em tempos de crise com o medo do despedimento. 

Pratica-se a destruição permanente da auto-estima das pessoas com a acumulação de ausências do elogio sincero e profissional.

Todo o sistema perpétua, afinal, o medo com que fomos educados, muito por causa da religião judaico-cristã que tem por base o temor a Deus.

O poder político dos últimos anos, com a sua propaganda massiva, passa uma mensagem de falta de valores, rigor e ética, reforçando a possibilidade do “vale tudo” na sociedade e, logo, nas empresas.

Neste eixo do medo, existe um momento alto. 

O momento da avaliação de desempenho, que supostamente define os destinos de um colaborador. Apesar de tentativas permanentes de melhoria e de inclusão de objectividade, quando se quer excluir um trabalhador por razões não profissionais, o seu bom desempenho substanciado em anos de boas avaliações, projectos de sucesso e provas dadas, não interessa para nada. Nada vale.

O eixo do medo assenta na fragilidade das administrações/gestores, incapazes de confiarem e repartirem poder e lucros, na sua falta de profissionalismo e na falta de prática duma verdadeira democracia empresarial. 

A meritocracia tão apregoada, segundo o modelo americano de Silicon Valley, é talvez a coisa menos praticada no nosso universo de empresas de sucesso, apesar de estar inscrita na sua comunicação qual etiqueta de marca num produto de luxo.

Dirão muitos que o “medo constante e deliberado é um estímulo necessário ao empreendedorismo, à inovação, à iniciativa”.

De facto, muitas destas empresas tem tido sucesso com este modelo e celebram-no cheias de si mesmas.

No entanto, acredito que pode ser diferente. 

Que se pode funcionar noutro modo, em que a aparência e o comportamento estejam alinhados, a ética e o respeito sejam os valores praticados e não só anunciados e o trabalho se desenvolva em harmonia e felicidade para os trabalhadores, então sim, verdadeiros colaboradores.



domingo, 4 de maio de 2014

Amor.

Ser mãe é tramado. E fantástico.

Como li ontem, nenhuma mãe o quer deixar de ser.

Estes dias esgotam todas as palavras, recordam todos os poemas e oferecem todas as flores.

Esta semana, tive que ir à FNAC do Colombo. Mal entrei, vi logo uma banca de livros em promoção com capas cor-de-rosa e títulos que não fixei, dedicados às mães, em geral jovens, cheios de flores, ondas do mar e sorrisos de bebés.

Arrepia-me logo. Comercialmente, continua a dominar o conceito da mãe mulher dedicada em exclusividade aos filhos, boa cozinheira, boa lavadeira, boa ensinadora, boa esposa, sempre bonita e aprumada.

Li com interesse o artigo de Tolentino Mendonça na revista do Expresso de ontem. Sobre cuidar, escolheu o exemplo do artista e fotógrafo japonês Tatsumi Orimoto. Este decidiu dedicar a sua arte aos cuidados com a mãe, afectada por várias doenças de demência ligadas à idade, bem como a outros idosos, dando visibilidade a um mundo onde os direitos estão cada vez mais relativizados.

Orimoto criou mesmo um projecto chamada Art Mama, “onde reflecte sobre a maternidade, a doença, os laços familiares e sobretudo sobre as formas de relação com a alteridade quando o outro está como que perdido nos imperscrutáveis labirintos da dor e da memória” (Tolentino Mendonça).

Esta foto de Orimoto com a mãe diz tudo:


Continuo a transcrever Tolentino porque não o saberei dizer melhor:

“A intimidade concretizada no cuidado à mãe serve a Orimoto para desenvolver uma arte que é profundamente crítica em relação às prioridades, aos cânones de beleza, aos modelos de felicidade do mundo contemporâneo”.

O artigo, cujo objecto tem a ver com uma reflexão sobre a arte enquanto decoração/mercadoria versus a arte como levantamento de questões ligadas ao quotidiano, um reflexo de temas triviais, que teve o seu auge no movimento Fluxus, nos anos 60 e 70 do século XX, veio mesmo a propósito. 

O amor. O ser mãe e o ser filho. Um não existe sem o outro. Mas são diferentes na sua dimensão.

Quando se tem um filho, nunca mais somos as mesmas, nunca mais somos livres. Nunca mais se é apenas um. Somos dois ou três ou quantos filhos houver.

É algo incrível. Acho que não há mais nada assim.

Não se pode sentir a enorme felicidade de ser mãe sem a imensa dor de o ser. O medo da perda, o medo do futuro. Pelos filhos fazemos tudo mesmo.

Houve uma altura em que via imagens da Palestina, mães que, naquela guerra infindável, se dispunham a fazer de bomba-suicida porque tinham perdido os filhos mortos pelo inimigo. Aquele acto era a solução mais certa para aliviar a sua dor... Isto sempre me impressionou.
Que faria eu, naquelas circunstâncias?

Lembro-me imediatamente da canção de Chico Buarque “Pedaço de mim”, “Oh, metade arrancada de mim…” 

Este amor imenso não parece igualmente retribuído pelos filhos. Pelo menos, em fases como entre a adolescência e a idade adulta em que há um afastamento, uma vergonha social por receber cuidados e mimos das mães.
Em que os beijos são arrancados a custo.



Parece-me que o poema de José Luís Peixoto “Para a minha mãe” exprime na perfeição a mágoa dos sentimentos que não se exprimem.

“mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses  as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste  tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te  desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,  a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia  mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não  escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que  não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não  as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes”.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

Apesar de ambos sabermos, era bom que os nossos filhos fossem Orimotos e mostrassem o seu afecto. Era bom que não tivessem vergonha de o fazer. Depois, pode sempre ser tarde.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

1º de Maio

O 1º Maio assinalava os direitos dos trabalhadores, conquistados com suor, sangue e lágrimas. Direitos humanos básicos como ter descanso e dignidade. 





Hoje, onde é feriado, como ainda por cá, é só mais um dia de descanso para quem trabalha por conta de outrem. Para os outros, os dias são todos de trabalho ou da procura dele. Mas é, sobretudo, mais um dia de alheamento/fuga dos problemas para a maioria. 

Existe o futebol. E a praia ou o campo. Valha-nos o sol e o azul intensos que lavam almas. Já não sabemos usar o dia para mais.


Como não me identifico com nenhuma organização política, procurei acontecimento para me manifestar pela defesa dos tais direitos e dignidade mas só encontrei as velhas centrais sindicais em manutenção de antigos eventos que já não motivam ou não têm força, apenas isso.





Sinto inquietação por não encontrar percurso colectivo, digo melhor, alinhamento inovador que caminhe no sentido de fazer algo eficaz.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

1972. 1973. 1974.

Há dias que ando a escrever e a reescrever sobre o 25 de Abril. 
Tem sido difícil seleccionar o que dizer, principalmente porque quis relacionar acontecimentos diferentes passados nos mesmos anos setenta.


Aurélie de Sousa http://asousa.carbonmade.com

Não tenho nada a dizer sobre o golpe militar que acabou com a ditadura e instaurou a democracia. Sobre isso, nada a acrescentar.

Queria antes falar sobre a vida de uma adolescente no início daqueles anos setenta, antes de 1974. Tudo surgiu por causa do comentário do fotógrafo Luiz Carvalho sobre o facto de que quem tem hoje 50 anos já não se lembrar da ditadura… é bem verdade!

Por isso, é tão importante partilhar memórias de pessoas comuns.

Foi isso que fez Aurora Rodrigues, numa Aula Aberta da cadeira de Antropologia e Património, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde estive esta semana.

Estava a ouvi-la contar àqueles jovens estudantes de hoje como foi presa aos 21 anos, a idade deles, quando foi aluna na Faculdade de Direito de Lisboa, e como foram os meses seguintes, os dias e as noites de tortura a que foi sujeita.


Ficha entrada Caxias
Emocionei-me profundamente. Já tinha estado no lançamento do seu livro, há três anos, em Caxias, e ouvido o seu depoimento no programa da Antena 1, No limiar da Dor.

Mas ali, num ambiente mais próximo, ouvi-la, a descrever a violência brutal que sofreu em 1973, levou-me a comparar aquela com a minha vida no mesmo ano. Apesar dos oito anos de idade que nos separam.

A suposta “primavera marcelista” foi uma falsidade pois os anos 70 são marcados pela intensificação da repressão estudantil e pelo aumento da actividade torcionária da polícia política, PIDE-DGS, pressentindo certamente a insustentabilidade da continuação do regime.

Como disse, na mesma sessão, António Monteiro Cardoso, historiador e um dos coordenadores do livro "Gente Comum", juntamente com Paula Godinho, no início dos anos sessenta surgiu uma vaga mundial de lutas estudantis, cuja expressão mais visível foi o Maio de 68 em França, e que influencia uma nova atitude no movimento estudantil português unido por questões associativas e contra a guerra colonial.


1962_Cidade Universitária
A aula a que assisti esta semana foi a passagem dum testemunho oral da história não oficial feita de “empenhamento profundo em mudar a sociedade, mesmo à custa dos maiores sacrifícios” feita por gente comum.

Ouvia aquela história, feita de dor e resistência, e só pensava nas diferenças entre a minha vida e a desta mulher e de tantos outros estudantes universitários à época.

Nessa altura, eu tinha 13 anos e vivia numa pequena cidade de província, em Faro, onde nasci. Não havia universidade nem se sabia o que se passava, pelo menos por onde eu andava.


Talvez por frequentar um curso experimental, um ensino diferente, uma suposta "abertura" do ministro Veiga Simão. O mesmo que, nos mesmos anos 70, introduziu os vigilantes, chamados gorilas, nas faculdades.


Cartaz funeral Ribeiro Santos
A 12 de Outubro de 1972, um agente da PIDE matou a tiro um estudante de Direito, José António Ribeiro dos Santos, durante uma reunião de estudantes em Económicas, actual ISEG. 

Este facto contribuiu para que mesmo os mais “apolíticos” não pudessem deixar de tomar partido. O funeral de Ribeiro dos Santos foi uma enorme manifestação contra o regime, pela liberdade.


Claro que eu só soube de tudo isto depois do 25 de Abril.


Em Faro, onde não havia universidade, as três turmas deste curso experimental (que esteve depois na origem do modelo de ensino implementado após o 25 de Abril) funcionavam com uma imensa liberdade, percebo agora. Como algo entre parêntesis!


Havia mais atenção a disciplinas práticas como Educação Visual e Trabalhos Oficinais. Tínhamos Ciências Humanas, que misturavam História e Geografia. E as aulas de Ciências da Natureza eram feitas de saídas para a praia para apanhar moluscos e outros seres a estudar depois em laboratório. Trabalhávamos em grupo. Aprendemos a pesquisar.


Curso experimental
Fora da escola, para mim, os livros eram algo muito importante porque eram o suporte da imaginação, do sonho, eram o ser outro e o viajar impossível. Frequentavam-se as bibliotecas, trocavam-se livros, lia-se muito. Cada livro era apreciado e gostado. Marcava para sempre. Lembro-me que, pelos 12 anos, tive uma paixão pela cultura clássica grega, em especial a escultura, e lia tudo o que encontrava, até sabia umas palavras de grego.

Depois, brincava na rua, como toda a gente. Brincava-se na rua onde se morava, no meu caso na avenida (em Faro só havia duas avenidas, a minha era a 5 de Outubro, onde ao cimo estava o Liceu).

O brincar era feito de “ao apanha”, corridas pela avenida e ruas limítrofes, jogos de mini-golfe na Alameda e pela tentativa de imitar os Cinco, criando aventuras semelhantes às do grupo de amigos, o que significava entrarmos em casas abandonadas com lanternas e fazer vigias de desgraçados que nelas se abrigavam. 

Isto pelos 10,11,12 anos. A partir dos 13, comecei a descobrir outras realidades, sobretudo através duma prima que vivia em Lisboa e passava os meses de Verão na Ilha.



Para além de partilharmos o amor pelo Cat Stevens, com destaque para Sad Lisa e Morning Has Broken, descobrimos um outro José Afonso, o das canções proibidas. Na altura, para mim, não era claro o porquê da proibição... 


Até porque o meu pai tinha dois discos dele (LPs que ainda conservo), “Contos Velhos, Rumos Novos” (1969) e “Venham mais Cinco” (1973) e lá em casa falava-se dele pois era conhecido dos meus pais.


Enfim, no Verão de 1973, andávamos as duas primas em Faro, vestidas de camisa de xadrez de pescador, suportando um calor imenso, a cantar “A morte saiu à rua” ao pé de agentes da PSP, na tentativa de sermos presas. Mas não chegamos a ser. Presumo que, ou cantávamos mal, ou os polícias desconheciam a letra/música ou nem dava para perceber o que andávamos a fazer. Foi uma frustração.



Sabia que o meu pai “era do contra”, o que quer que isso fosse, que o meu avô Aragão Teixeira tinha sido da Maçonaria e que a mãe da minha prima fazia parte dum tal MDM (Movimento Democrático das Mulheres).

Não se podia namorar na via pública. Os meus primos, ligeiramente mais velhos, tinham que ir para o Liceu em passeios separados, conforme o sexo.
Para irmos a Ayamonte com a minha mãe, atravessar o rio para comprar caramelos e calças de bombazina, era necessária autorização da PIDE-DGS.

Mas não me lembro de mais... E tenho 54 anos.
Coisas como a minha mãe, por ser professora, para casar ter que pedir autorização a Salazar, apresentando o registo criminal do meu pai, soube depois, já com liberdade.

Na vida do antes 25 de Abril, haveria tanto para referir. Deixo alguns números que falam por si. Dados de 1970:

Analfabetismo 26% da população
Frequência do Ensino Secundário 5% da população
Frequência do Ensino Superior 0,9% da população

Casas com água canalizada 48%
Casas com luz eléctrica 64%


Posso dizer que fiz parte dos privilegiados que tinham casa confortável, podiam estudar, brincar, ter acesso ao conhecimento e crescer saudável. Uma minoria.


Tenho pena de, naqueles anos 1972/74, não ter mais quatro anos e ter podido estar em Lisboa, na faculdade, para ter participado nas lutas contra a ditadura.



Verão 1973 e a camisa pescador
Estou certa que o faria, rebelde como sempre fui.

Depois do 25 de Abril, a descoberta da liberdade de expressão, da participação, do colectivo, da divergência, da sociedade, do mundo, foi uma explosão incrível de adrenalina que só podia motivar uma jovem de 14 anos. 


O que me levou a envolver na política e a viver uns anos extraordinários de luta e aprendizagem. Que ficou para a vida. Apesar de perto dos 20 anos ter deixado a actividade partidária, nunca poderei deixar de ter opinião, sentir a política, ser indiferente. 


Como disse Aurora Rodrigues esta semana naquela aula a que fui, a política é que foi ter com eles. Parece-me que o mesmo está a acontecer hoje. Não dá para ficar à parte e viver bem com isso. Esta sociedade é nossa. Temos uma palavra a dizer. Não podemos prescindir dela.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Livros.

Os livros. Não me imagino sem eles. 
Desde sempre, desde miúda, foram a minha grande inspiração. Quantas pessoas fui? Quantas viagens fiz? Quantos lugares imaginei? 

Não quero viver sem eles.

Fui-os acumulando na minha "sala de estudo". Cabe sempre mais um mas a sua organização está a ficar impossível. Há temas misturados. Longe vão os tempos em que tinha tudo organizado por áreas, história, literatura, poesia, arte... Agora é mais pelo tamanho, recém-chegados, muito gostados, assim-assim, interrompidos, a reler...

Um bocadinho da minha sala de estudo...

Confesso que o que mais me custa na situação actual é não os poder comprar como gostaria. Mesmo que saiba que não vou conseguir ler.

Gosto de capas, de folhas, gramagens, ilustrações, edições especiais e normais.

Lembro-me sempre duma coisa que uma pessoa amiga, também ela um consumidor de livros, me disse há muitos anos: já não vou conseguir ler todos os livros que tenho até morrer. Foi o caso... Vai ser certamente também o meu. 

Mas não importa. Se tudo correr mal, se todos os planos de mudança falharem, se ficar sem nada, só espero ter olhos e luz para me dedicar ao meu derradeiro plano: passar os dias a ler. Os meus livros. Todos. Muitos. Seguidos. Repetidos alguns.