Esta minha nova vida vai-me surpreendendo.
É assim. Nunca fui muito devota da culinária. Contrariamente à grande maioria das pessoas, especialmente das mulheres, cozinhar nunca me interessou. Comida mesmo fui e vou fazendo, ainda que sem grandes complexidades. Doces, é que não.
Felizmente, até há pouco tempo, podia comprar deliciosos bolos quando necessário. Para quê fazer eu?
Consegui passar toda a infância do meu filho sem fazer um único bolo, apesar de realizar as obrigatórias festas de anos em que era convidada toda a turma, umas dezenas de "pestinhas" que era preciso entreter e alimentar.
Lá me fui safando com uns belos bolos de aniversário encomendados na clássica Versalhes. Mais uns salgados que a minha empregada, à época, tão bem fazia, e as sandochas miniatura com batatas fritas. Estava feito.
Felizmente, há vinte anos, as festas dos miúdos não exigiam animações encomendadas nem palhaços nem fadas.
Alugava-se a sala do condomínio, fazia-se o lanche e a miudagem brincava em correrias entre o espaço interior e o exterior. Felizmente também, para mim, eram na maioria rapazes podendo, assim, parte da tarde ser ocupada com o jogo da bola.
Para os adultos, o meu pai vinha de Faro especialmente, dois dias antes, e fazia o seu maravilhoso arroz de pato e outras iguarias, como lagosta fingida ou pratos que inventava.
O meu ideal é sentar-me à mesa sem ter tido qualquer intervenção na refeição. Não quero ver programas na tv sobre "masterchefs" nem revistas de luxo com cozinhados e cozinheiros. Quando em acções de team building, fica tudo muito animado com hipóteses de programas em que se cozinha, fico gélida e faço tudo para o evitar.
Atenção, isto não quer dizer que não cozinhe bem. E gosto de fazer entradas, pratos com molhos e muitos temperos, escolher queijos e vinhos e, claro, comer!
Voltando ao tema de hoje, os bolos.
Quando fiz um ano, a minha mãe iniciou um ritual familiar que a levaria a fazer quase 200 bolos de bolacha nos últimos 54 anos. Julgo que 189 mais exactamente mas com uns extras, acho que chega aos 200. Sempre no mesmo formato e no mesmo prato. O último foi este de Outubro passado, quando a minha irmã fez 51 anos.
Havia uma superstição, de um eventual azar acontecer na família, se, por exemplo, nos meus anos, em Janeiro, não houvesse o bolo de bolacha da minha mãe. Fosse em restaurante ou não, tinha que ser. Comido em casa ou transportado para o restaurante.
Até que este ano, decidimos acabar com a tradição.
O ano de 2013 foi bera, coincidência de vários azares, apesar do bolo.
Por isso, ousámos romper com a coisa. Sobrevivi já 5 meses, vamos ver como corre o resto do ano.
Eis senão quando, agora no início de Maio, nos anos do meu filho, comemorados a meias com os 92 anos da outra avó, me deu uma súbita vontade de aprender a fazer o bolo da bolacha, receita da minha mãe.
E assim foi, embora acompanhado e feito na casa dela, conforme reportagem fotográfica junta.
Hoje, atrevi-me a repetir, movida pelo desejo de surpreender o Zé nos seus 60 anos, inventando. Sozinha, aldrabando medidas e receitas. Porque o que me chateia nos bolos é aquilo das gramas e não poder ser a olho!
Sem a vigilância da minha mãe, pude ir roubando com o dedo bocados de creme. Tal como fazia com a massa dos bolos que ainda tentei fazer, no início de casada.
Coloco mesmo a hipótese de começar a fazer um ou outro bolo de vez em quando. Não achei assim tão doloroso... Reabilitei os materiais necessários, adormecidos há décadas na despensa. Até a batedeira moulinex, que me ofereceram quando casei, funciona.
O perigo é grande.
Finalmente, o meu filho poderá ver satisfeito o seu desejo de ter uma mãe gorda mas que faz bolos, como ele tanto queria na adolescência, decepcionado com a minha falta de dedicação à culinária.
Com apenas dois bolos no curriculum recente, estou longe da perfeição do bolo azul mas, tal como noutras áreas da minha vida, convencida que vou conseguir fazer alguma coisa. Quem sabe, inovar?
quinta-feira, 22 de maio de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Ainda o medo.
"Do que tenho
medo é do teu medo."
William Shakespeare
Não que tivesse dúvidas, mas os dias que se seguiram à publicação do último
texto, sobre o Eixo do Medo, confirmaram o realismo do que referi.
Em mensagens privadas, colegas e amigos disseram-me que concordavam com o
texto mas que não se atreviam a exprimi-lo publicamente.
Isto mostra bem como se vive sob ameaça na sociedade e no meio empresarial,
sob a capa do informalismo camarada do tratamento por “tu”, que cria uma falsa
intimidade/cumplicidade, e a implementação de marcas modernas e focadas nos
benefícios para as pessoas.
Os gestores só mudarão o seu comportamento quando sentirem que essas tais pessoas,
os trabalhadores (colaboradores) das suas empresas não têm medo, que ousam
dizer o que pensam e são dignas de confiança porque são elas os profissionais
que fazem o negócio acontecer e os números crescer.
Enquanto a maioria optar pelo silêncio e pelo “baixar de braços”, por achar
que não vale a pena chatear-se pois basta-lhes ir cumprindo os dias e ganhar o
salário ao fim do mês, usufruindo dos seus pequenos luxos, achando que a eles
nada lhes acontecerá, nada realmente mudará e os que agem doutra maneira serão sempre os incómodos,
que perturbam o grupo e “não vestem a camisola”.
As dinâmicas de grupo que levam os indivíduos a comportarem-se socialmente como
o chefe, com medo da exclusão, são, no fundo, as mesmas das praxes, quantas vezes
com os resultados extremos que conhecemos.
Esse medo entranhado leva as pessoas a atitudes que julguei impossíveis.
“As pessoas sem medo e felizes são muito incómodas. Porque espelham as
limitações dos outros, mesmo só com a presença”, escreveu-me hoje alguém que vive fora
de Portugal há muito e estuda a gestão e a comunicação nas empresas.
Será?
segunda-feira, 12 de maio de 2014
O eixo do medo.
"À medida que nos libertamos do nosso próprio medo a nossa presença liberta automaticamente os outros". Nelson Mandela
Na semana
passada, preparava-me para escrever sobre o medo, o pequeno medo, quando me deparei com o texto
de António Guerreiro, re-publicado no The Ressabiator de Mário Moura, sobre "a privatização do microfascismo”. Achei-o perfeito.
Incentivada por
um amigo numa conversa de almoço, na véspera, tinha tomado notas para escrever
especificamente sobre o pequeno medo que se vive no dia-a-dia no mundo do
trabalho. Decidida a vencer o meu próprio medo de o fazer.
Ao ler o
artigo de A. Guerreiro, achei que este abordava aquilo de que eu tanto queria falar. Fiquei meio perdida, sem perceber se poderia acrescentar algo a tão preciso e perspicaz conteúdo. Afinal,quem sou eu
para acrescentar alguma coisa a um experimentado e qualificado jornalista? Li e reli as suas palavras, curiosa sobre se
teria ele vivido isto ou o sabia apenas por estudo e observação.
Precisei
duns dias para me reorganizar e, ainda assim, com algum medo, ousar escrever sobre o tema,
tentando acrescentar alguma coisa.
Talvez por,
apesar do meu “processo de libertação” em curso, estar afinal ainda refém do sistema. A empresa de onde saí e a que ainda me liga muitos anos de trabalho e empenho espelha o parágrafo acima com aflitiva exactidão.
Uma coisa é
certa, o medo individual e interior, o medo quotidiano, sussurrado na chamada “rádio
alcatifa” (bares e espaços de convívio), entre colegas “amigos”, é terrível.
E quem tenta não praticar o medo, ou seja, agir doutra forma, é fortemente penalizado.
A moda do foco
na diferença do indivíduo não passa de uma treta. A realidade mostra que é compensado quem é graxista, quem não é
frontal, quem não diz o que pensa, quem vai andando, discretamente, apresentando resultados mas sem dar demasiado nas vistas.
O enorme gap entre a prática dos gestores e a visão e valores que eles próprios definem para as suas empresas é inacreditável.O investimento em consultores externos, desde especialistas em Comunicação e Design a qualificados Coachers nacionais e estrangeiros, bem como reconhecidos oradores que trazem o último grito da moda empresarial, seria melhor empregue no melhoramento das condições de trabalho, no aumento dos salários médios e na criação real de oportunidades de crescimento aos muitos jovens escolhidos para mão-de-obra barata.
Todo um sistema de padronização de valores é dado como exemplo pela gestão de topo.
O foco está todo numa máquina de criação de luxo induzido. Carro topo de gama, últimos gadgets, casa na praia da moda, golfe e férias na neve, degustação de vinhos e leitura do resumo do último livro comprado na Amazon.
Para a maioria dos quadros destas empresas, que atingem o management pelos 30/35 anos, este é um universo aspiracional para o qual foram formatados e do qual ficam reféns. O único modelo de vida empresarial que conhecem num mundo de sucesso em que uma falha num processo pode deitar tudo a perder. Onde o medo dessa possibilidade é constante. Onde não fazer ondas é essencial.
A competitividade entre colaboradores, nunca trabalhadores como tão bem diz A. Guerreiro, é muita apesar dos valores vigentes, formalizados em Códigos de Conduta aprovados pelas administrações com solenidade, apelarem aos métodos colaborativos, à pareceria, ao bem, numa ideologia próxima dum cristianismo inexistente.
Todo este sistema empresarial se organiza em torno do estar permanentemente “sob suspeita”, criando “um pacto de segurança para a gestão de uma paz angustiante”, falsa, sentida por todos sob um silêncio colaboracionista, reforçado em tempos de crise com o medo do despedimento.
Pratica-se a destruição permanente da auto-estima das pessoas com a acumulação de ausências do elogio sincero e profissional.
Todo o sistema perpétua, afinal, o medo com que fomos educados, muito por causa da religião judaico-cristã que tem por base o temor a Deus.
O poder político dos últimos anos, com a sua propaganda massiva, passa uma mensagem de falta de valores, rigor e ética, reforçando a possibilidade do “vale tudo” na sociedade e, logo, nas empresas.
Neste eixo do medo, existe um momento alto.
O momento da avaliação de desempenho, que supostamente define os destinos de um colaborador. Apesar de tentativas permanentes de melhoria e de inclusão de objectividade, quando se quer excluir um trabalhador por razões não profissionais, o seu bom desempenho substanciado em anos de boas avaliações, projectos de sucesso e provas dadas, não interessa para nada. Nada vale.
O eixo do medo assenta na fragilidade das administrações/gestores, incapazes de confiarem e repartirem poder e lucros, na sua falta de profissionalismo e na falta de prática duma verdadeira democracia empresarial.
A meritocracia tão apregoada, segundo o modelo americano de Silicon Valley, é talvez a coisa menos praticada no nosso universo de empresas de sucesso, apesar de estar inscrita na sua comunicação qual etiqueta de marca num produto de luxo.
Dirão muitos que o “medo constante e deliberado é um estímulo necessário ao empreendedorismo, à inovação, à iniciativa”.
De facto, muitas destas empresas tem tido sucesso com este modelo e celebram-no cheias de si mesmas.
No entanto, acredito que pode ser diferente.
Que se pode funcionar noutro modo, em que a aparência e o comportamento estejam alinhados, a ética e o respeito sejam os valores praticados e não só anunciados e o trabalho se desenvolva em harmonia e felicidade para os trabalhadores, então sim, verdadeiros colaboradores.
domingo, 4 de maio de 2014
Amor.
Ser mãe é tramado. E fantástico.
Como li ontem, nenhuma
mãe o quer deixar de ser.
Estes dias esgotam
todas as palavras, recordam todos os poemas e oferecem todas as flores.
Esta semana, tive que
ir à FNAC do Colombo. Mal entrei, vi logo uma
banca de livros em promoção com capas cor-de-rosa e títulos que não fixei, dedicados
às mães, em geral jovens, cheios de flores, ondas do mar e sorrisos de bebés.
Arrepia-me logo. Comercialmente, continua
a dominar o conceito da mãe mulher dedicada em exclusividade
aos filhos, boa cozinheira, boa lavadeira, boa ensinadora, boa esposa, sempre bonita
e aprumada.
Li com interesse o
artigo de Tolentino Mendonça na revista do Expresso de ontem. Sobre cuidar, escolheu o exemplo do artista e fotógrafo japonês Tatsumi Orimoto. Este decidiu dedicar
a sua arte aos cuidados com a mãe, afectada por várias doenças de demência
ligadas à idade, bem como a outros idosos, dando visibilidade a um mundo onde os direitos estão cada vez mais relativizados.
Orimoto criou mesmo um
projecto chamada Art Mama, “onde reflecte sobre a maternidade, a doença, os
laços familiares e sobretudo sobre as formas de relação com a alteridade quando
o outro está como que perdido nos imperscrutáveis labirintos da dor e da
memória” (Tolentino Mendonça).
Esta foto de
Orimoto com a mãe diz tudo:
Continuo a transcrever
Tolentino porque não o saberei dizer melhor:
“A intimidade
concretizada no cuidado à mãe serve a Orimoto para desenvolver uma arte que é
profundamente crítica em relação às prioridades, aos cânones de beleza, aos
modelos de felicidade do mundo contemporâneo”.
O artigo, cujo objecto
tem a ver com uma reflexão sobre a arte enquanto decoração/mercadoria versus a arte
como levantamento de questões ligadas ao quotidiano, um reflexo de temas
triviais, que teve o seu auge no movimento Fluxus, nos anos 60 e 70 do século XX,
veio mesmo a propósito.
O amor. O ser mãe e o ser
filho. Um não existe sem o outro. Mas são diferentes na sua dimensão.
Quando se tem um
filho, nunca mais somos as mesmas, nunca mais somos livres. Nunca mais se é
apenas um. Somos dois ou três ou quantos filhos houver.
É algo incrível. Acho
que não há mais nada assim.
Não se pode sentir a
enorme felicidade de ser mãe sem a imensa dor de o ser. O medo da perda, o medo
do futuro. Pelos filhos fazemos tudo mesmo.
Houve uma altura em
que via imagens da Palestina, mães que, naquela guerra infindável, se dispunham
a fazer de bomba-suicida porque tinham perdido os filhos mortos pelo inimigo.
Aquele acto era a solução mais certa para aliviar a sua dor... Isto sempre me
impressionou.
Que faria eu, naquelas
circunstâncias?
Lembro-me imediatamente
da canção de Chico Buarque “Pedaço de mim”, “Oh, metade arrancada de mim…”
Este amor imenso não
parece igualmente retribuído pelos filhos. Pelo menos, em fases como entre a
adolescência e a idade adulta em que há um afastamento, uma vergonha social por
receber cuidados e mimos das mães.
Em que os beijos são arrancados a custo.
Parece-me que o poema
de José Luís Peixoto “Para a minha mãe” exprime na perfeição a mágoa dos
sentimentos que não se exprimem.
“mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é
suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes”.
José Luís
Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
Apesar de ambos sabermos, era bom que os nossos
filhos fossem Orimotos e mostrassem o seu afecto. Era bom que não tivessem
vergonha de o fazer. Depois, pode sempre ser tarde.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
1º de Maio
O 1º Maio assinalava os direitos dos trabalhadores, conquistados com suor, sangue e lágrimas. Direitos humanos básicos como ter descanso e dignidade.
Hoje, onde é feriado, como ainda por cá, é só mais um dia de descanso para quem trabalha por conta de outrem. Para os outros, os dias são todos de trabalho ou da procura dele. Mas é, sobretudo, mais um dia de alheamento/fuga dos problemas para a maioria.
Existe o futebol. E a praia ou o campo. Valha-nos o sol e o azul intensos que lavam almas. Já não sabemos usar o dia para mais.
Como não me identifico com nenhuma organização política, procurei acontecimento para me manifestar pela defesa dos tais direitos e dignidade mas só encontrei as velhas centrais sindicais em manutenção de antigos eventos que já não motivam ou não têm força, apenas isso.
Sinto inquietação por não encontrar percurso colectivo, digo melhor, alinhamento inovador que caminhe no sentido de fazer algo eficaz.

Hoje, onde é feriado, como ainda por cá, é só mais um dia de descanso para quem trabalha por conta de outrem. Para os outros, os dias são todos de trabalho ou da procura dele. Mas é, sobretudo, mais um dia de alheamento/fuga dos problemas para a maioria.
Existe o futebol. E a praia ou o campo. Valha-nos o sol e o azul intensos que lavam almas. Já não sabemos usar o dia para mais.
Como não me identifico com nenhuma organização política, procurei acontecimento para me manifestar pela defesa dos tais direitos e dignidade mas só encontrei as velhas centrais sindicais em manutenção de antigos eventos que já não motivam ou não têm força, apenas isso.
Sinto inquietação por não encontrar percurso colectivo, digo melhor, alinhamento inovador que caminhe no sentido de fazer algo eficaz.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
1972. 1973. 1974.
Há dias que ando a escrever e a
reescrever sobre o 25 de Abril.
Tem sido difícil seleccionar o que dizer, principalmente porque quis relacionar acontecimentos diferentes passados nos mesmos anos setenta.
Não tenho nada a dizer sobre o golpe militar que acabou com a ditadura e instaurou a democracia. Sobre isso, nada a acrescentar.
Tem sido difícil seleccionar o que dizer, principalmente porque quis relacionar acontecimentos diferentes passados nos mesmos anos setenta.
![]() |
| Aurélie de Sousa http://asousa.carbonmade.com |
Não tenho nada a dizer sobre o golpe militar que acabou com a ditadura e instaurou a democracia. Sobre isso, nada a acrescentar.
Queria antes falar sobre a vida de uma adolescente no
início daqueles anos setenta, antes de 1974. Tudo surgiu por causa do
comentário do fotógrafo Luiz Carvalho sobre o facto de que quem tem hoje 50
anos já não se lembrar da ditadura… é bem verdade!
Por isso, é tão importante partilhar memórias de pessoas comuns.
Foi isso que fez Aurora Rodrigues, numa Aula Aberta da
cadeira de Antropologia e Património, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde estive esta semana.
Estava a ouvi-la contar àqueles jovens
estudantes de hoje como foi presa aos 21 anos, a idade deles, quando foi aluna
na Faculdade de Direito de Lisboa, e como foram os meses seguintes, os dias e as
noites de tortura a que foi sujeita.
Emocionei-me profundamente. Já tinha
estado no lançamento do seu livro, há três anos, em Caxias, e ouvido o seu
depoimento no programa da Antena 1, No limiar da Dor.
![]() |
| Ficha entrada Caxias |
Mas ali, num ambiente mais próximo,
ouvi-la, a descrever a violência brutal que sofreu em 1973, levou-me a comparar
aquela com a minha vida no mesmo ano. Apesar dos oito anos de idade que nos
separam.
A suposta “primavera marcelista” foi uma
falsidade pois os anos 70 são marcados pela intensificação da repressão
estudantil e pelo aumento da actividade torcionária da polícia política,
PIDE-DGS, pressentindo certamente a insustentabilidade da continuação do
regime.
Como disse, na mesma sessão, António Monteiro Cardoso, historiador e um dos coordenadores do livro "Gente Comum", juntamente com
Paula Godinho, no início dos anos sessenta surgiu uma vaga mundial de lutas
estudantis, cuja expressão mais visível foi o Maio de 68 em França, e que
influencia uma nova atitude no movimento estudantil português unido por questões
associativas e contra a guerra colonial.
A aula a que assisti esta semana foi a
passagem dum testemunho oral da história não oficial feita de “empenhamento
profundo em mudar a sociedade, mesmo à custa dos maiores sacrifícios” feita por gente comum.
![]() |
| 1962_Cidade Universitária |
Ouvia aquela história, feita de dor e resistência, e só pensava nas
diferenças entre a minha vida e a desta mulher e de tantos outros
estudantes universitários à época.
Nessa altura, eu tinha 13 anos e vivia numa
pequena cidade de província, em Faro, onde nasci. Não havia universidade nem se
sabia o que se passava, pelo menos por onde eu andava.
Talvez por frequentar um curso experimental, um ensino diferente, uma suposta "abertura" do ministro Veiga Simão. O mesmo que, nos mesmos anos 70, introduziu os vigilantes,
chamados gorilas, nas faculdades.
A 12 de Outubro de 1972, um agente da PIDE matou a tiro um estudante de
Direito, José António Ribeiro dos Santos, durante uma reunião de estudantes em
Económicas, actual ISEG.
![]() |
| Cartaz funeral Ribeiro Santos |
Este facto contribuiu para que mesmo os mais “apolíticos” não pudessem deixar de tomar partido. O funeral de Ribeiro dos Santos foi uma enorme manifestação contra o regime, pela liberdade.
Claro que eu só soube de tudo isto depois do 25 de Abril.
Em Faro, onde não havia universidade, as
três turmas deste curso experimental (que esteve depois na origem do modelo de
ensino implementado após o 25 de Abril) funcionavam com uma imensa liberdade,
percebo agora. Como algo entre parêntesis!
Havia mais atenção a disciplinas práticas como Educação Visual e Trabalhos Oficinais. Tínhamos Ciências Humanas, que misturavam História e Geografia. E as aulas de Ciências da Natureza eram feitas de saídas para a praia para apanhar moluscos e outros seres a estudar depois em laboratório. Trabalhávamos em grupo. Aprendemos a pesquisar.
Havia mais atenção a disciplinas práticas como Educação Visual e Trabalhos Oficinais. Tínhamos Ciências Humanas, que misturavam História e Geografia. E as aulas de Ciências da Natureza eram feitas de saídas para a praia para apanhar moluscos e outros seres a estudar depois em laboratório. Trabalhávamos em grupo. Aprendemos a pesquisar.
![]() |
| Curso experimental |
Depois, brincava na rua, como toda a
gente. Brincava-se na rua onde se morava, no meu caso na avenida (em Faro só
havia duas avenidas, a minha era a 5 de Outubro, onde ao cimo estava o Liceu).
O brincar era feito de “ao apanha”,
corridas pela avenida e ruas limítrofes, jogos de mini-golfe na Alameda e pela
tentativa de imitar os Cinco, criando aventuras semelhantes às do grupo de
amigos, o que significava entrarmos em casas abandonadas com lanternas e fazer
vigias de desgraçados que nelas se abrigavam.
Isto pelos 10,11,12 anos. A partir dos 13, comecei a descobrir outras realidades, sobretudo através duma prima que vivia em Lisboa e passava os meses de Verão na Ilha.
Para além de partilharmos o amor pelo Cat Stevens, com destaque para Sad Lisa e Morning Has Broken, descobrimos um outro José Afonso, o das canções proibidas. Na altura, para mim, não era claro o porquê da proibição...
Isto pelos 10,11,12 anos. A partir dos 13, comecei a descobrir outras realidades, sobretudo através duma prima que vivia em Lisboa e passava os meses de Verão na Ilha.
Para além de partilharmos o amor pelo Cat Stevens, com destaque para Sad Lisa e Morning Has Broken, descobrimos um outro José Afonso, o das canções proibidas. Na altura, para mim, não era claro o porquê da proibição...
Enfim, no Verão de 1973, andávamos as
duas primas em Faro, vestidas de camisa de xadrez de pescador, suportando um calor imenso, a
cantar “A morte saiu à rua” ao pé de agentes da PSP, na tentativa de sermos
presas. Mas não chegamos a ser. Presumo que, ou cantávamos mal, ou os polícias
desconheciam a letra/música ou nem dava para perceber o que andávamos a fazer.
Foi uma frustração.
Sabia que o meu pai “era do contra”, o que quer que isso fosse, que o meu avô Aragão Teixeira tinha sido da Maçonaria e que a mãe da minha prima fazia parte dum tal MDM (Movimento Democrático das Mulheres).
Sabia que o meu pai “era do contra”, o que quer que isso fosse, que o meu avô Aragão Teixeira tinha sido da Maçonaria e que a mãe da minha prima fazia parte dum tal MDM (Movimento Democrático das Mulheres).
Não se podia namorar na via pública. Os meus primos, ligeiramente mais velhos, tinham que ir para o Liceu em passeios separados, conforme o sexo.
Para irmos a Ayamonte com a minha mãe,
atravessar o rio para comprar caramelos e calças de bombazina, era necessária autorização
da PIDE-DGS.
Mas não me lembro de mais... E tenho 54 anos.
Coisas como a minha mãe, por
ser professora, para casar ter que pedir autorização a Salazar, apresentando o registo
criminal do meu pai, soube depois, já com liberdade.
Casas com água canalizada 48%
Posso dizer que fiz parte dos privilegiados que tinham casa confortável, podiam estudar, brincar, ter acesso ao conhecimento e crescer saudável. Uma minoria.
Tenho pena de, naqueles anos 1972/74, não ter mais quatro anos e ter podido estar em Lisboa, na faculdade, para ter participado nas lutas contra a ditadura.
Estou certa que o faria, rebelde como sempre fui.
Depois do 25 de Abril, a descoberta da liberdade de expressão, da participação, do colectivo, da divergência, da sociedade, do mundo, foi uma explosão incrível de adrenalina que só podia motivar uma jovem de 14 anos.
O que me levou a envolver na política e a viver uns anos extraordinários de luta e aprendizagem. Que ficou para a vida. Apesar de perto dos 20 anos ter deixado a actividade partidária, nunca poderei deixar de ter opinião, sentir a política, ser indiferente.
Como disse Aurora Rodrigues esta semana naquela aula a que fui, a política é que foi ter com eles. Parece-me que o mesmo está a acontecer hoje. Não dá para ficar à parte e viver bem com isso. Esta sociedade é nossa. Temos uma palavra a dizer. Não podemos prescindir dela.
Na vida do antes 25 de Abril, haveria tanto para
referir. Deixo alguns números que falam por si. Dados de 1970:
Analfabetismo 26% da população
Analfabetismo 26% da população
Frequência do Ensino Secundário 5% da população
Frequência do Ensino Superior 0,9% da população
Casas com água canalizada 48%
Casas com luz eléctrica 64%
Posso dizer que fiz parte dos privilegiados que tinham casa confortável, podiam estudar, brincar, ter acesso ao conhecimento e crescer saudável. Uma minoria.
Tenho pena de, naqueles anos 1972/74, não ter mais quatro anos e ter podido estar em Lisboa, na faculdade, para ter participado nas lutas contra a ditadura.
![]() |
| Verão 1973 e a camisa pescador |
Depois do 25 de Abril, a descoberta da liberdade de expressão, da participação, do colectivo, da divergência, da sociedade, do mundo, foi uma explosão incrível de adrenalina que só podia motivar uma jovem de 14 anos.
O que me levou a envolver na política e a viver uns anos extraordinários de luta e aprendizagem. Que ficou para a vida. Apesar de perto dos 20 anos ter deixado a actividade partidária, nunca poderei deixar de ter opinião, sentir a política, ser indiferente.
Como disse Aurora Rodrigues esta semana naquela aula a que fui, a política é que foi ter com eles. Parece-me que o mesmo está a acontecer hoje. Não dá para ficar à parte e viver bem com isso. Esta sociedade é nossa. Temos uma palavra a dizer. Não podemos prescindir dela.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Livros.
Desde sempre, desde miúda, foram a minha grande inspiração. Quantas pessoas fui? Quantas viagens fiz? Quantos lugares imaginei?
Não quero viver sem eles.
Fui-os acumulando na minha "sala de estudo". Cabe sempre mais um mas a sua organização está a ficar impossível. Há temas misturados. Longe vão os tempos em que tinha tudo organizado por áreas, história, literatura, poesia, arte... Agora é mais pelo tamanho, recém-chegados, muito gostados, assim-assim, interrompidos, a reler...
![]() |
| Um bocadinho da minha sala de estudo... |
Confesso que o que mais me custa na situação actual é não os poder comprar como gostaria. Mesmo que saiba que não vou conseguir ler.
Gosto de capas, de folhas, gramagens, ilustrações, edições especiais e normais.
Lembro-me sempre duma coisa que uma pessoa amiga, também ela um consumidor de livros, me disse há muitos anos: já não vou conseguir ler todos os livros que tenho até morrer. Foi o caso... Vai ser certamente também o meu.
Mas não importa. Se tudo correr mal, se todos os planos de mudança falharem, se ficar sem nada, só espero ter olhos e luz para me dedicar ao meu derradeiro plano: passar os dias a ler. Os meus livros. Todos. Muitos. Seguidos. Repetidos alguns.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
É possível.
Ando eu por aí a
tentar recomeçar profissionalmente, neste contexto de ser considerada velha aos 54 anos, e dá-se o caso da minha mãe.
Bom, já vem de há um
ou dois anos. Para nós, não é novidade. Mas hoje tornou-se visível para muito
mais gente, fora do círculo dos amigos e conhecidos, alguns fãs. Por causa da reportagem da Sábado (foto).
Seria impensável
pensar que uma professora reformada, sem grandes projectos para o futuro senão
o de resistir com entusiasmo, resultado do usufruto do dia-a-dia, dumas viagens a
destinos desconhecidos e do apoio fundamental à vida de filhas e netos,
iria descobrir, aos 78 anos, um skill novo.
Não só o skill mas o fazer algo
completamente diferente. Fazer mesmo.
Digamos assim, quando
foi confrontada com a hipótese, alinhou.
Não se cortou. Não se fechou. Teve
medo mas… lá foi. Com humor. E amor.
Este exemplo portas
dentro dá-me esperança no futuro. Na sua possibilidade.
Não foram só os vídeos. Em menor escala, neste último ano, a minha mãe também participou num workshop empresarial partilhando a sua experiência enquanto professora e num focus group que discutiu serviço ao cliente nas telecomunicações.
É preciso sair de casa. É preciso dar. Confiar.
Por isso, caminhando os
tempos para modos difíceis de funcionar quanto a tirar algum rendimento
que permita sustentar o corpo e pagar as contas, este episódio da vida da minha mãe
funciona como um exemplo de que é possível mudar.
Confirma a crença no ser humano que coachers e especialistas em gestão de pessoas apregoam.
É possível arriscar, ousar, atrever, não ter medo de não sair logo tudo bem.
É possível fazer
diferente daquilo que fizemos, para que supostamente fomos preparados ou então talhados pelo
destino.
Este exemplo mostra
que a idade não tem que ser um limite intransponível, como alguns insistem. Só somos velhos desactualizados se quisermos.
A minha mãe, num acaso improvável, mostrou que é possível.
Subscrever:
Mensagens (Atom)















